Nova Iorque e Londres são consideradas hoje as cidades mais globais do mundo, abrigando uma população com enorme diversidade étnica, e que continuam a ser porta de entrada para imigrantes de várias nacionalidades, possibilitando novos negócios globais e locais, uma vida cosmopolita, culturalmente dinâmicas tanto para seus habitantes, bem como para quem as visitam.
Como nada é perfeito, ambas as cidades, a despeito de um enorme aparato de vigilância e segurança, têm sido alvo potenciais de ataques terroristas, como já ocorrido nas últimas décadas.
Nada comparável, porém, ao que aconteceu agora por causa da Covid-19. A transnacionalidade das duas cidades, até então vista como um modelo de desenvolvimento econômico e cultural, foi a grande responsável pela grande quantidade de infectados e mortos nestas metrópoles, que puxaram para cima a estatística da pandemia nos EUA e no Reino Unido (e o Brasil é um triste contraponto, por conta da condução política, afinal não somos tão globalizados assim).
A globalização, se bem que já vinha começando a ser responsabilizada por problemas econômicos e sociais em várias partes do mundo, destruindo empregos nuns lugares e criando em outros, era vista como uma vitória do mundo contemporâneo, conquistada a duras penas, e saudada principalmente pelo capitalismo liberal. Se este tem sido atacado agora por quem vê nele o fracasso político que vem dizimando vidas durante a pandemia, a globalização ainda pode (ou podia) ser vista como oportunidade para pessoas, empresas e governos, abarcando tanto temas como meritocracia individual, justiça social e crise de refugiados.
A eleição recente de governos de direita em países como os EUA ou o Brasil e o Brexit que põe em risco a unidade europeia são evidências de uma reação de um nacionalismo que rechaça as oportunidades criadas pela globalização por meio de um oportunismo discriminatório.
Os versos “Imagine there's no countries (...) And the world will be as one”, de John Lennon, deram lugar ao NIMBY (not in my back yard) que se coloca refratariamente contra toda tentativa de transformação local, preferindo a manutenção do status quo que privilegia alguns em detrimento de uma maioria.
A partir de agora as pessoas terão a desculpa perfeita para não utilizarem o transporte público de massa, que por enquanto é a melhor solução viária e ambiental para a mobilidade urbana nas cidades. Para muitos, já não será necessário compartilhar um banco de ônibus ou metrô com um passageiro desconhecido.
Neste sentido, a reação imediata em várias partes do mundo aos atos racistas foram fundamentais, sob o risco de determinadas comunidades urbanas, alguns guetos, se empoderarem e criarem barreiras físicas, sociais, econômicas, políticas, psicológicas e culturais que impeçam o livre desejo das pessoas se movimentarem, turistarem, imigrarem ou simplesmente mudarem de bairro pelo simples desejo de buscar uma vida melhor.
Por outro lado, a ONU acaba de anunciar um dado preocupante: o aumento radical no número de refugiados em todo o mundo. Segundo dados da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), em 2019 o número de pessoas em deslocamento forçado atingiu o total de 79,5 milhões, o que corresponde a 1% da população mundial. Uma vez que tal processo migratório ocorre por tragédias, como são a violência ou a fome, é possível imaginar que se trata de uma tendência irreversível no curto ou médio prazos, e que pode se acentuar em função da pandemia.
Conforme algumas pesquisas em diversas nações, os mais jovens, mais habituados às novas tecnologias, mochileiros por natureza, se sentem menos presos ao seu território natal, e percebem a mudança para outra cidade ou país como oportunidade de transformação pessoal, nem que seja transitória, mas que também pode ser permanente em função do que o futuro lhes reservarão.
Um mundo mais aberto, como sonhou Lennon, com as pessoas podendo circular em busca de oportunidades pode ficar mais difícil a partir de agora. E o mesmo deve se dar com as empresas, afinal o comércio global também se viu questionado: no auge da crise da pandemia, diversos países do mundo dependendo do fornecimento de EPI de um único país, a China.
Vendo, porém, por outra perspectiva, pode ser que vejamos o ressurgimento dos negócios locais; do comércio de bairro em detrimento das grandes redes; dos pequenos deslocamentos, a pé ou de bicicleta e que evitarão a necessidade da locomoção da população urbana por meio do transporte de massa; de uma gentileza com o vizinho; do empoderamento das relações comunitárias etc.
Por enquanto, o que se sabe é que tá tudo indefinido, estamos todos cansados, mas com esperança que de tudo isso saia um mundo melhor.