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Novos tempos

Pandemia oferece uma oportunidade para nos harmonizarmos

A crise pode ser vista também como uma oportunidade para refletirmos sobre o futuro da humanidade a partir de alguns pontos de vista

Publicado em 11 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

11 jun 2020 às 05:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Em meio à pandemia de coronavírus e o isolamento social em casa
Em meio à pandemia de coronavírus e o isolamento social em casa Crédito: iStock/Divulgação
Comecemos com uma música, para aliviar os corações: “Não existiria som / Se não houvesse o silêncio / Não haveria luz / Se não fosse a escuridão” (Certas Coisas - Lulu Santos e Nelson Motta)
Apesar de ser uma canção romântica, "Certas Coisas" tem uma letra que fala de sofrimento. Mais interessante ainda é notar que no jogo de palavras existe a ideia de divergência, de polaridade, dos contrastes que configuram a vida. O equilíbrio da natureza se dá quando os opostos se encontram e se relacionam mutuamente. Preto e branco. Yin e Yang.
Precisamos de desafios para valorizar nossas conquistas. Não ter medo do escuro, tampouco de enfrentar, nem que seja por alguns instantes, a “solidão” do silêncio.
Neste sentido, morder a maçã foi um ato consciente, pois era necessário enfrentar não a Deus, mas o mundo, poder senti-lo em sua plenitude, para poder transformá-lo à nossa imagem e semelhança. Restabelecer a simetria. É o que temos tentado fazer, mesmo sabendo como às vezes é difícil... Afinal, a humanidade nunca atingiu um momento de equilíbrio total, havendo sempre disputas, embates, conflitos.
Quantos ainda morrerão até que uma vacina venha e salve o resto de nós? Quantos precisarão ser sacrificados?
Racismo? Eugenia? Em pleno século XXI?
A partir de agora, reconhecendo os erros do passado, mas também os do presente, recomeçaremos a planejar o futuro, já tendo ciência de que ele não será como a gente imaginava até a pouco tempo. E nele, como se sabe, algumas coisas já estão definidas, como são o trabalho, o ensino e as compras remotos.
E como muita gente já notou, nunca se consumiu tanta arte como vem ocorrendo neste período do confinamento, afinal está “sobrando” tempo para colocar a leitura de livros em dia; para ver todos os filmes e séries disponíveis nas plataformas de streaming; para as lives de músicos famosos ou mesmo de muitos amigos que cantam ou dominam algum instrumento musical; sem falar naqueles que estão aproveitando a oportunidade para aprender a desenhar; para escrever um livro de memórias; ou até mesmo para fazer cursos de arte online.
Ah, e ainda tem os diversos museus que disponibilizaram seus acervos para serem visitados pela internet. Arte + cultura. Tudo pra preencher o tempo... Mas será só isso?
Um dos papéis da arte, tanto para quem faz quanto para quem a usufrui, é oferecer uma visão poética para arrefecer a realidade, dando assim uma nova compreensão do mundo no qual estamos. Deste modo, acredita-se que com o desenvolvimento de uma sensibilidade por meio da arte, nos tornamos mais compreensíveis, mais solidários, com maior poder de empatia. A arte nos faz pensar, criticar, construir...
Daí por que as ditaduras, tanto de esquerda quanto de direita, são tão avessas à arte. Quanto ódio! Claro, lhes faltam poesia.
Com o fenômeno das redes sociais, porém, quando estamos todo o tempo compartilhando imagens, fatos & fotos e esperando ansiosos o retorno de numerosos likes, as pessoas se viram obrigadas a postar constantemente seus atributos poéticos, suas veias artísticas, seus talentos para que o mundo saiba da existência delas.
Em paralelo, e justo por tal fenômeno, o mundo virtual fez surgir diversos “famosinhos” de última hora e que, de fato, se tornaram pessoas com certo poder de influenciar os demais, os tais seguidores. E assim se tenta fazer a profecia de Andy Warhol virar realidade: “um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama”.
À medida que a indústria demandará menos trabalhadores operando máquinas, há quem defenda que o aumento das atividades remotas será a janela de oportunidade para que se possa viver cada vez mais do talento, da arte, criando, inovando, tudo isso à distância.
Contudo, a questão que se coloca é que nem todas as pessoas possuem talento artístico, nem todos são criativos, empreendedores. Seria, então, papel do Estado absorver tais pessoas? Deixaremos elas ao relento?
Enfim, a crise criada pela pandemia pode ser vista também como uma oportunidade para refletirmos sobre o futuro da humanidade a partir deste ponto de vista.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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