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Coronavírus

O lirismo não está na Covid-19, mas nos sentimentos das pessoas

Como não ter sentimentos, diante do sofrimento de milhares de enfermos se afogando no ar, entubados em camas de hospitais, morrendo aos magotes, sem ter nem o direito de apertar a mão de parentes ou amigos?

Publicado em 26 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

26 mai 2020 às 05:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Sentimento e emoções das pessoas diante do coronavírus Crédito: Divulgação
Venho lendo alguns cronistas para saber o que andam escrevendo sobre a pandemia. Acompanho os esforços deles para driblar com seus textos a angústia pelo coronavírus. Aprendo muita coisa sobre os seres humanos, qualquer que seja o assunto de tudo que leio.
Recentemente, um desses textos, se referia ao “esforço inglório de poetas amadores” que tentam encontrar poesia na terminologia médica e na situação da doença, buscando um “lirismo inexistente” na Covid-19. Talvez tenha havido um exagero na ironia daquelas palavras. Talvez o cronista tenha tido o desejo de sapatear sobre a mediocridade de alguns conterrâneos fazedores de versos banais. Ou talvez tenha sido apenas a necessidade de manter sua fama de um bom humorista. Certo é que me deu o que pensar.
O lirismo brota de um tipo de reação emotiva de alguém diante da realidade. Os textos líricos expressam emoções que podem variar do amor ao ódio, da fúria à tranquilidade. Não é de hoje que o lirismo, coitado, vem sendo dado como inútil diante das vicissitudes prosaicas das sociedades. Não são poucos os intelectuais que se acham na obrigação de ridicularizá-lo ou demonstrar ojeriza por ele, crentes de que só assim podem ser respeitados: portando-se com frieza e objetividade
É certo que existem modos diversos de expressar o lirismo. Foi o poeta Manoel Bandeira quem estabeleceu tais fronteiras, ao repudiar o lirismo bem-comportado “com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor”, e se declarar partidário do “lirismo dos loucos, dos bêbados, dos clowns”.
Ninguém ignora que não há lirismo algum na Covid-19. Nem precisava que alguém o dissesse. O lirismo não está na doença, está nos sentimentos. E como não ter sentimentos, diante do sofrimento de milhares de enfermos se afogando no ar, entubados em camas de hospitais, morrendo aos magotes, sem ter nem o direito de apertar a mão de parentes ou amigos, sendo vítimas também da ciranda desesperada do disse-me-disse acerca do nome de remédios considerados capazes de enfrentar esse vírus maligno?
Posso estar sendo ingênua ou pouco exigente. Mas, neste momento de angustiosa exceção, qualquer forma que demonstre lirismo; qualquer modo de enxergar as criaturas com olhos de solidariedade; qualquer exercício de sensibilidade diante da importância da vida humana, animal ou vegetal; qualquer manifestação de empatia e ternura para com os seres que habitam o planeta me comovem e me tocam. Ainda que sejam versinhos, emojis, frases tolas ou lugares-comuns.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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