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Escritora de ficção, cadeira nº 1 da Academia Espírito-Santense de Letras, professora emérita da Ufes, curadora de mostras de cinema. Escreve sobre livros, filmes, memórias, atualidades variadas e fatos contemporâneos

Precisamos encontrar um remédio para a melancolia

A Covid-19 impede funerais, rouba o direito aos ritos, nos desapropria do luto. A fim de garantir que a dor se transforme em memória e a saudade se mude em aceitação, precisamos urgentemente buscar uma saída

Publicado em 12/05/2020 às 05h00
Atualizado em 12/05/2020 às 05h01
depressão
Tristeza e medo fazem parte da vida, porém quando se prolongam se transformam em melancolia. Crédito: Pixabay

A morte faz parte da vida. Essa frase é um lugar comum. Nós a repetimos quase com displicência, como se fosse algo que nunca vai acontecer ou que pelo menos esteja tão distante que nada mais mereça além da lembrança pálida de algo inevitável em que se pensa com um suspiro de resignação. De repente, porém, a brutalidade de mortes causadas por eventos, como a guerra ou uma epidemia, espanta a humanidade que fica sem saber como se comportar, afogada em medo e tristeza. É certo que tristeza e medo também fazem parte da vida. Porém, quando se prolongam para muito além do tempo que deviam durar, se transformam em melancolia.

A melancolia é uma perturbação afetiva. É a acídia. É o demônio do meio-dia que atacava ermitões da Idade Média. É um estado de espírito sombrio que Julia Kristeva, em "Sol Negro", diz ser um gatilho para a criação literária. É aquele sentimento que a medicina considera fonte de depressão.

Fico imaginando o quanto a questão da melancolia se aprofunda e tem consequências na pandemia atual. Perdemos pessoas queridas ou conhecidos que são referências em nosso imaginário e que morrem isolados em hospitais, sem alguém da família por perto. Os corpos vão lacrados em caixões, sem um último olhar, sem reconhecimento, a ponto de haver confusão, como atesta o caso de Dona Maria, uma avó dada por falecida, entregue para ser enterrada. Porém, quando os parentes resolveram abrir o caixão, deram de cara com o corpo de outra pessoa e a avó foi encontrada viva em um leito hospitalar de Belém.

Nesses enganos e traumas, as pessoas se sentem mergulhadas em uma sensação que não sabem bem como localizar e que oscila entre o alívio e a culpa por estarem vivas enquanto tantos morrem.

Freud explica (só para citar outro lugar comum): a presença de baixa autoestima e autorrecriminação é comum na melancolia; é inexistente no luto. A diferença é que o luto é o processo de compreensão da inevitabilidade das perdas. Os rituais de despedida, lágrimas, flores, orações e outras manifestações da dor e da saudade contribuem para a consciência de que somos seres humanos.

A Covid-19 impede funerais, rouba o direito aos ritos, nos desapropria do luto. A fim de garantir que a dor se transforme em memória e a saudade se mude em aceitação, precisamos urgentemente encontrar um remédio para a melancolia, como diz Ray Bradbury, em seu conto desse mesmo nome. Só assim talvez algum dia, quando amanhecer, possamos dançar sob o sol para comemorar alguma coisa que, agora, nem mesmo sabemos o que seja.

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