Sair
Assine
Entrar

Cultura

Qual será o destino das artes no pós-pandemia?

Será que, nessa trágica experiência, já estamos vivenciando o destino das artes? Ou quem sabe se ainda haverá o que hoje chamamos de arte quando tudo isso acabar?

Publicado em 09 de Junho de 2020 às 05:00

Públicado em 

09 jun 2020 às 05:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Livro aberto: o que vamos escrever após a pandemia?
Livro aberto: o que vamos escrever após a pandemia? Crédito: Freepik/Divulgação
O destino das artes é um dos enigmas para quem vive estes dias de reclusão social. Acadêmicos tergiversam sobre o tema; escritores se preparam para criar narrativas; fãs da ficção científica discutem as semelhanças com situações fantásticas; políticos sugerem abolir o lirismo das manifestações (sem nem mesmo saberem o que o lirismo é).
Antes de tudo, uma pergunta simples: afinal, o que é arte? Tem aquele canal de tevê que, suponho, faz essa indagação, pois apenas se escutam as respostas. Algumas pomposas como um soar de trompas, outras ligeiras como borboletas, muitas pretendendo dar um toque de charme e modéstia às palavras dos artistas respondedores, escolhidos pela produção, que talvez sejam aqueles que estejam mais próximos às planilhas ideológicas dos proprietários da concessão do canal. Ninguém sabe o que se esconde por trás do capital das redes.
Já que estou indevidamente bordejando o assunto, que ficaria melhor para um especialista em (Karl) Marx ou em Max (Weber), devo confessar que, em minha imaginação, essa imensa quantidade de conceituações sobre arte, contidas em alguns segundos do caríssimo tempo da telemissora, se parece um tanto com a acumulação do capitalismo, que o poeta Regis Bonvicino diz ver nas intermináveis listas de filmes e capas de discos e livros que estão aparecendo nos “desafios” das redes sociais, aos montões.
A arte é a ilusão da verdade, escreveu a poeta Ana Hatherly, que leio e releio, além de muitas coisas com que me deleito neste isolamento: ouvir de Brahms e Bach a Rita Lee e Caetano; fazer valer a luz do suor para sovar o pão, como Emily Dickinson fazia; ver o pôr do sol de outono pela janela; acordar às três da madrugada, olhar as estrelas, sentar frente ao computador e escrever.
De repente, porém, uma que outra amargura quebra minha rotina. Por exemplo: o sombrio cenário em que mergulha o país; a incerteza de cura para os que adoecem; a criança que chora à procura da mãe, entra em um elevador, cai do nono andar de um prédio e morre no chão. E, acima de tudo, a certeza de que, agora, somos criaturas filhas da angústia, preocupadas com a própria sobrevivência, imersas na solidão do individualismo.
A pandemia nos impõe uma solidariedade não comprovada, fria, virtual, à distância. Mas a arte exige um outro tipo de sentimentos, envolve participação e coletividade. Será que, nessa trágica experiência, já estamos vivenciando o destino das artes? Ou quem sabe se ainda haverá o que hoje chamamos de arte quando tudo isso acabar?

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Horóscopo do dia: previsão para os 12 signos em 17/05/2026
Imagem de destaque
Como cuidar dos seus cabos de celular (certamente não da maneira como você está fazendo)
Motociclista morre em acidente em Iconha
Motociclista morre em acidente com van na BR 101 no Sul do ES

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados