O destino das artes é um dos enigmas para quem vive estes dias de reclusão social. Acadêmicos tergiversam sobre o tema; escritores se preparam para criar narrativas; fãs da ficção científica discutem as semelhanças com situações fantásticas; políticos sugerem abolir o lirismo das manifestações (sem nem mesmo saberem o que o lirismo é).
Antes de tudo, uma pergunta simples: afinal, o que é arte? Tem aquele canal de tevê que, suponho, faz essa indagação, pois apenas se escutam as respostas. Algumas pomposas como um soar de trompas, outras ligeiras como borboletas, muitas pretendendo dar um toque de charme e modéstia às palavras dos artistas respondedores, escolhidos pela produção, que talvez sejam aqueles que estejam mais próximos às planilhas ideológicas dos proprietários da concessão do canal. Ninguém sabe o que se esconde por trás do capital das redes.
Já que estou indevidamente bordejando o assunto, que ficaria melhor para um especialista em (Karl) Marx ou em Max (Weber), devo confessar que, em minha imaginação, essa imensa quantidade de conceituações sobre arte, contidas em alguns segundos do caríssimo tempo da telemissora, se parece um tanto com a acumulação do capitalismo, que o poeta Regis Bonvicino diz ver nas intermináveis listas de filmes e capas de discos e livros que estão aparecendo nos “desafios” das redes sociais, aos montões.
A arte é a ilusão da verdade, escreveu a poeta Ana Hatherly, que leio e releio, além de muitas coisas com que me deleito neste isolamento: ouvir de Brahms e Bach a Rita Lee e Caetano; fazer valer a luz do suor para sovar o pão, como Emily Dickinson fazia; ver o pôr do sol de outono pela janela; acordar às três da madrugada, olhar as estrelas, sentar frente ao computador e escrever.
De repente, porém, uma que outra amargura quebra minha rotina. Por exemplo: o sombrio cenário em que mergulha o país; a incerteza de cura para os que adoecem; a criança que chora à procura da mãe, entra em um elevador, cai do nono andar de um prédio e morre no chão. E, acima de tudo, a certeza de que, agora, somos criaturas filhas da angústia, preocupadas com a própria sobrevivência, imersas na solidão do individualismo.
A pandemia nos impõe uma solidariedade não comprovada, fria, virtual, à distância. Mas a arte exige um outro tipo de sentimentos, envolve participação e coletividade. Será que, nessa trágica experiência, já estamos vivenciando o destino das artes? Ou quem sabe se ainda haverá o que hoje chamamos de arte quando tudo isso acabar?