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Centro de Vitória

Um olhar para os desabrigados sob o alpendre do Convento de São Francisco

É impossível negar as condições de abandono, desamparo e promiscuidade do modo de vida desses seres que dormem ali. E isso faz com que sejam presas fáceis para um lobo maior e bem mais poderoso que os lobos humanos. O coronavírus

Públicado em 

14 abr 2020 às 05:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Data: 09/05/2008 - ES - Vitória - Convento de São Francisco, na Cidade Alta. - Editoria: Cidades - Foto: Carlos Alberto da Silva - GZ.
Convento de São Francisco, na Cidade Alta  Crédito: Carlos Alberto da Silva
O Convento de São Francisco, no Centro de Vitória, é uma icônica edificação que carrega a história em seus costados ancestrais. Foi construído por frades franciscanos quando a capitania do Espírito Santo era comandada por Dona Luiza, “A Capitoa”. Antes, possuía um frontão trabalhado nas linhas retas do estilo jesuíta.
Hoje, apresenta volutas barrocas no topo e na torre dos sinos. Recentemente, acrescentaram um painel lateral, um jardim circular de pedrinhas e mais umas tantas intervenções resultantes das fantasias de seus reconstrutores. Inclusive, o alpendre com arcos na fachada.
É nesse alpendre que desocupados, mendigos, mulheres e homens que vagam pelas ruas, se abrigam para dormir à noite. Podem ser poucos, podem ser muitos. Porém, sempre chegam. Enrolam-se em trapos e papelões, falam em voz alta, fazem xixi e cocô pelos cantos. Alguns bebem, outros acendem cachimbos suspeitos. Partem bem cedo, deixando vestígios e restos no gramado, na escada de pedra e no chão. Dizem que recusam ajuda oficial, fogem dos abrigos, preferem assim viver. Fato é que é difícil julgá-los. Ninguém sabe o que os levou àquela situação. Talvez sejam as vítimas mais evidentes de uma sociedade de desigualdades e ganância.
O homem é o lobo do homem. Essa frase do dramaturgo Plautos, depois aproveitada pelo filósofo Hobbes, quer dizer que o individualismo da natureza humana faz com que os mais fortes explorem os mais fracos. Porém, o individualismo também é o pai do medo de perder bens e coisas que se julgam preciosas.
E esse medo pode se mascarar debaixo de um álibi da necessidade de ordem, disciplina e respeito, fazendo esquecer que direitos, liberdade e justiça correspondem a deveres, responsabilidades e regras da existência em sociedades. São bens coletivos, portanto, não individuais.
Mas, agora, as sociedades vivem dias sombrios de exceção, que exigem uma volta a mais no parafuso. É preciso distinguir o que nos inquieta. Por exemplo: é impossível negar as condições de abandono, desamparo e promiscuidade do modo de vida desses seres que dormem naquele alpendre. E isso faz com que sejam presas fáceis para um lobo maior e bem mais poderoso que os lobos humanos. O coronavírus. Um lobo cruel que apavora e ameaça a humanidade.
Então, é urgente que apareça um jeito de proteger esses desabrigados. Ao mesmo tempo, é urgente alertar sobre o perigo da contaminação as pessoas desavisadas que ignoram o isolamento e trazem cães e crianças para passear e brincar no gramado do Convento ancião.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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