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Pandemia

O drama dos navios "encalhados" por causa do coronavírus

Esses navios, que o temor ao vírus mantém aprisionados nos portos, são como cantos estrangulados de pássaros, como uivos silenciados de lobos, como gritos presos na garganta da humanidade

Públicado em 

17 mar 2020 às 05:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Navio de cruzeiro está atracado no Porto de Recife com um passageiro com sintomas de coronavírus Crédito: Reprodução/TV Globo
Uma das imagens mais impactantes destes tempos é aquela de navios de cruzeiro, grávidos de infectados pelo coronavírus, paralisados em portos do planeta, sem permissão para navegar.
Sabe-se que navegar é a sina dos navios. Navios partem sempre em direção a algum lugar em que chegam e de novo seguem em direção a outro. Uma nau presa no cais apodrece com o tempo, sobre o mar que ela deveria estar singrando. “O tempo passa”, dizia Píndaro, poeta grego dos séculos VI a V A.C, “e velas caídas e frouxas sempre aguardam o tremor de uma nova brisa”.
Poetas, romancistas, músicos, teatrólogos, cineastas, enfim, todas as criaturas que habitam as tribos da criação e do imaginário já se ocuparam em mostrar os navios como a imagem da liberdade de ir e vir em busca dos mais variados destinos e aventuras. Nesse sentido, vale lembrar uma das mais belas imagens de Michel Foucault, que é a do navio vagando na superfície imensa do mar, rumo a um lugar desconhecido: “O navio é a utopia por excelência. Nas civilizações sem barcos, os sonhos se esgotam, a espionagem ali substitui a aventura e a polícia os corsários” - escreveu o filósofo.
Lendo isso, não há como não lembrar da Argos, a nau da antiguidade em que os argonautas comandados por Jasão cortavam a incomensurabilidade das águas, em uma longa viagem, passando por tempestades e ilhas cheias de criaturas insólitas até chegarem ao Velocino de Ouro.
Vale ainda recordar a frase famosa com que general romano Pompeu, no século 1a.C, encorajava os marinheiros receosos de viajar durante a guerra: “Navegar é preciso, viver não é preciso". Retomada pelo poeta Fernando Pessoa para cantar a coragem navegante dos portugueses e até por Caetano Veloso em uma de suas canções, essa frase nos recorda que navegar é uma viagem que deve estar segura de seu rumo.
Para isso serviam instrumentos como as bússolas e os astrolábios. Claro que os astrolábios e bússolas que guiavam a navegação no século XV foram trocados, hoje, por satélites, GPS e www. Mas de que valem esses artefatos de precisão se estiverem sem uso porque a nau está proibida de seu vaivém sobre as águas?
Se imaginarmos, afinal, que um barco é um pedaço de espaço flutuante que é fechado em si e, ao mesmo tempo, é destinado a vagar no infinito do mar, podemos dizer que o coronavírus transforma esses navios impedidos de seu ir e vir em um lugar sem lugar, habitado por seres humanos que vivem a aguda consciência da sua impotência.
Esses navios, que o temor ao vírus mantém aprisionados nos portos, são como cantos estrangulados de pássaros, como uivos silenciados de lobos, como gritos presos na garganta da humanidade, que toma consciência de que, ao contrário do navegar que é exato e preciso, viver é uma viagem insegura e imprecisa, feita de medos, inseguranças, transições e contradições.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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