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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

O dilema da educação no Brasil: a balbúrdia está instalada

Está armado o imbróglio, no qual perde todo o país, que vê agora seu futuro ameaçado, pois se a educação há muito que não vinha sendo tratada como prioridade, com um projeto estruturador, agora mesmo é que veremos a balbúrdia ser instalada

Publicado em 09/07/2020 às 05h00
Atualizado em 09/07/2020 às 05h00
Ministério da Educação (MEC)  avalia punição a estudantes com mau desempenho
Sem comando no ministério, educação brasileira vê a crise na área se agravar. Crédito: Marcos Oliveira/Agência Senado

“Mais importante do que dar o peixe, é ensinar a pescar”. É claro que para os que têm fome, a urgência é tanta que, às vezes, sequer dá tempo de esperar aprender o ofício da pescaria, e um peixe dado pode significar uma vida salva.


Saber pescar, porém, representa uma autonomia, uma liberdade individual, enquanto que a doação persistente pode configurar uma dependência, uma inércia involutiva, improdutiva, num processo que se torna cíclico, alimentando (desculpem-me o trocadilho) uma cadeia infértil, inócua e que, em certos casos, produz uma infeliz relação entre um dominador e um dominado...

Por ora fiquemos com as duas ideias, isto é, “ensinar a pescar” e “dar o peixe”, e que em termos de políticas públicas podem ser associadas como as áreas de Educação e Saúde. Setores que, como todos sabem, estão de certo modo desprezados pelo atual governo federal. Afora os três ministros erráticos no Ministério da Educação (e agora já há até quem decline do convite para assumir a pasta, temendo ataques e percalços do cargo), no da Saúde tivemos dois com conhecimento técnico na área, mas que lá não permaneceram (talvez justamente por isso), enquanto os brasileiros seguem aguardando a nomeação do terceiro, pois até agora só há um interino.

Sem querer deixar de lado a gravidade na área da saúde, afinal o Brasil alcançou a 2ª posição no número de mortos e infectados pela Covid-19 em todo o mundo, foquemos por enquanto nos problemas e desafios da Educação, também em função da pandemia.

O Brasil, com seu gigantismo territorial e enorme desigualdade social, apresenta diversas realidades quando se trata do setor educacional. Em termos estruturais, são quatro segmentos na educação: infantil, fundamental, médio e superior (sem falar nos cursos técnicos e as pós-graduações). Todos eles com a dicotomia entre instituições públicas e privadas. Fica criado assim um caleidoscópio, agora ainda mais fragmentado em função dos obstáculos provocados pelo confinamento que separou presencialmente alunos e professores, mas também entre eles e as próprias instituições educacionais em termos físicos.

Após o registro do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, houve instituições que continuaram suas atividades sem interrupção, apenas adotando o método remoto por meio de vídeo aulas, chats, ambientes virtuais de ensino etc.

Há ainda aquelas que suspenderam as aulas apenas o tempo suficiente para se adaptarem à nova realidade e, em seguida, tomaram o caminho do ensino à distância. Em paralelo, existem as que estão funcionando com atividades não curriculares, apenas para manterem os estudantes de certo modo ativos, evitando uma inércia total dos docentes e discentes, o que configuraria uma total desmotivação psicológica com consequências que sequer podem ser agora mensuradas.

A maioria dos alunos não estava (e ainda não está) preparada para esta nova dinâmica pedagógica. Nem os professores. Muito menos os pais dos alunos.

Às pressas, formataram-se cursos (on-line, claro) tentando preparar os professores na montagem de cursos e conteúdos no formato digital.

As instituições públicas, onde pode haver disparidade socioeconômica do corpo discente numa mesma sala de aula, estão realizando pesquisas para avaliar quais alunos têm ou não facilidade de acesso remoto via computador, televisão ou até telefone celular.

A evasão de alunos tem sido enorme, notadamente na rede particular; segundo dados do setor, 32% dos estudantes dos cursos superiores das instituições privadas abandonaram seus cursos em abril e maio, algo que ainda pode se agravar nos próximos meses.

À medida que o flexionamento das atividades está sendo adotado na maioria das cidades brasileiras, muitos pais terão que retornar ao trabalho, sem, no entanto, saber o que fazer ou onde deixar seus filhos, no caso daqueles que tenham idade escolar. Esta situação, aliás, pode agravar as desigualdades sociais do país, pois será mais acentuada nas classes mais desfavorecidas, como já tem sido apontado por alguns estudos, pois os mais pobres terão que abandonar seus trabalhos (se já não perderam seus empregos) para cuidar dos filhos.

Mas também existe a pressão para que as escolas comecem a planejar o retorno às suas atividades, tomados os devidos protocolos que garanta a segurança dos professores, alunos e funcionários. Isso, no entanto, ainda é extremamente controverso, pondo diversos pais em dúvida se seus filhos deverão ou não voltar às aulas em 2020.

É o caso de algumas universidades públicas, que já anunciaram que as atividades presenciais só retornarão no próximo ano, e desde que haja uma vacina já aprovada e disponível.

Está armado o imbróglio, no qual perde todo o país, que vê agora seu futuro ameaçado, pois se a educação há muito que não vinha sendo tratada como prioridade, com um projeto estruturador em prol do desenvolvimento e da justiça social, agora mesmo é que veremos a balbúrdia ser instalada...

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