Como faço todo biênio, fui dar uma caminhada pela beira da praia no longo percurso que se estende do Iate Clube à Curva da Jurema. Lá chegando, andei pela areia e encontrei uma mesa repleta de gente fina, entre outros Rogério 17 e Pazola, amigos de fino trato.
De longe vi que conversavam animadamente, como sempre. Chego, todo mundo com a máscara de Zorro, principalmente eu que não sou besta. O meu coração, que também tem mania de amor e amor não é fácil de achar, como diz o outro, o da Viola, aciona a alegria.
Ao me aproximar, vi que não discutiam o abominável caráter do vírus que assola o país, se divertiam. Não sentei porque tinha o compromisso comigo mesmo de vigiar, à média distância, a integridade e as formas das lindas mulheres que desfilam seu encanto naquele trecho.
Não é à toa que a Marise Guimarães santificou a Praia do Canto, onde todos sorriem e esbanjam boniteza. Lembrei dos antigos frequentadores que andam batucando céu adentro, como Poli, Catita e, infelizmente, grande elenco.
O bar sobrevive porque a falta dos que faltam é maior ainda que a presença. Meu pai Aderson, que para mim é todo saudade, apesar de quase não beber na rua, tinha uma teoria sobre as conversas que surgem das garrafas de vinho, cervejas, batidas ou água Perrier.
Achava que o botequim foi inventado para amparar futilidades e na sua frase lapidária dizia que “em um boteco onde todos estiverem, cada um com sua tese, imersos na política partidária, em religião, e só coisas sérias, é hora de abrir um novo botequim”.
Deixa eu voltar para a caminhada de volta à Rua Afonso Cláudio. Estava eu pensando se ia ou não dar uma corrida, e já passava de meio-dia quando vejo aquela voz bem no meu ouvido: “Cheguei hoje de São Paulo, não almocei ainda”. Coitado. Media dois metros de largura, dois de profundidade e dois de altura.
Essa inflação monetária interestadual não está fácil. O cara viaja de São Paulo para nossa Ilha Delícia, e mal chega, o dinheiro acaba. Cheguei a ficar comovido com o reconhecimento e a escolha dele, eu, para responder pela fome no Brasil.
Eu estava usando a bermuda presenteada recentemente por meu netinho Bento, peça de responsa, minha predileta. Havia tirado a camiseta, de modo que meu músculo peitoral mostrou a clara intenção de encontrar-se com a musculatura abdominal. Acontece com a idade. Eu estava longe de parecer propriamente um lutador sanguinário daquelas lutas psicóticas de autoflagelação, MMA. Olhando de lado, podia ver a sombra da extorsão. Estava me acompanhando.
De repente, não mais que de repente, minha vigil memória foca a cena em quando era criança e nadava no igarapé de Manaus com Serginho, meu irmão. Quando apareceu, vinda não sei de onde, uma cobra daquelas.
- Paulo e agora? - disse ele.
- Finge que não vê, finge que não vê - socorri com valentia e coragem.
Éramos magrinhos, de modo que a cobra resolveu caçar outras iscas.
Mal emergi dessa lembrança, percebi que o gigantesco ser que me selecionou para responder pelas suas mazelas em pleno calçadão, estava na água do mar. Deve ter bom tino comercial, avaliou minhas posses e desistiu de me culpar pela sua fome e a do país, exigindo indenização obrigatória.
Lembrei de Oscar Wilde, em “Frases e Filosofias para Uso dos Jovens”, de 1895, na fala da personagem Lord Henry: “Nem todo crime é vulgar, mas toda vulgaridade é crime. Vulgaridade é a conduta dos outros”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, dorme e ronca.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta