Curioso ao observar os papéis de antigamente, relíquias sagradas que Rachel Martins remexia delicadamente à procura de algo secreto. Organizado em fitas coloridas de seda, em variados padrões e estilo, notei bastante emoção a manejá-los com tanto cuidado e carinho.
Para não intervir nas lágrimas, fiquei sem saber o porquê até o dia em que me contou. Encantador o motivo. Fora escrito pelo avô, Benedito, o senhor Sinhô, em 1941, para sua amada Orandina, que arrebatou o honroso segundo lugar no concurso da Rádio Nacional do Rio – ele morava em São João da Boa Vista, São Paulo, juntinho de Poços de Caldas - justo na categoria “Carta de Amor”. Estava em tratamento em um sanatório.
Eu vi, li e senti o perfume dessa carta, com manchas do tempo, mas que não impedia sua leitura sobre o amor. Ele contava 40 anos de idade e fazia os tratamentos de “rotina”. Nada não, estava lúcido.
Naqueles tempos, havia o Departamento dos Correios e Telégrafos, subordinado ao Ministério da Viação e Obras Públicas, que funcionava a contento e imprimia um tom romântico às cousas. Uma carta, devidamente envelopada e lacrada, com aquela cola específica. Lembram dos lambe-selos? Ficavam de plantão para grudar os documentos. Mas havia um pincel, claro.
Respeitável público, decidi compartilhar com vocês o texto que Sinhô falava de amor, que a mim me emociona, tanto pelo conteúdo como pela forma. Vamos lá:
“Segundo prêmio de 200$000”
Minha amiga,
Tenho pensado várias vezes em escrever-lhe, mas faltava-me o ânimo e, além disso, o médico proibiu-me de todo e qualquer trabalho, até mesmo deste insignificante desabafo mental. Custou-me convencê-lo de que me encontrava perfeitamente calmo e que para mim é um prazer o poder escrever-lhe e prometi-lhe evitar toda emoção. Os médicos, minha velha, são homens de ciência e, como tal, veem em nós apenas um caso biológico. Desconhecem, entretanto, o lado espiritual da vida, desconhecem a nossa alma porque em geral são maus “psicólogos”... Se assim não fosse, o nosso bom doutor Aníbal não teria feito essa extravagância de meter na cabeça de nossos filhos esta vinda para este sanatório tão distante de você.
Alegou ele que meu coração estava em péssimo estado: arterioesclerose adiantada, pressão arterial muito elevada e que eu necessitava de um longo repouso neste recanto longínquo, onde vivo só, irremediável, irremediavelmente só, com minha saudade, a minha imensa saudade de você...
Qual minha amiga, não é somente o coração, é toda a máquina que está gasta, e como as peças arruinadas não podem ser substituídas. Logicamente, o seu funcionamento terá um fim, o fim natural de todas as cousas... Convenhamos, porém, minha amiga, que 75 anos de serviço já são alguma cousa!
É por isso que sou o primeiro a reconhecer a inutilidade desse tratamento. Como, porém, estou na idade do Velho Leão de quem todos têm piedade, e não tenho o direito de reagir, aqui fico aguardando o estalido final.
Todo o conforto e luxo desta casa de saúde, não compensam a milésima parte de sua ausência, minha velha. Você sabe. Você deve compreender, como ninguém, que esta separação abreviará a minha morte.
Por vezes fico a pensar, a cismar que a vida é de fato um sonho e que a morte é o princípio da realidade. A nossa existência foi sempre um sonho magnífico de esperanças, entremeadas de triunfos e fracassos, de fé e desesperos, de amor e de saudades!
E sempre juntos estivemos, nas horas tristes e nos momentos felizes, durante 50 anos! Construímos essa geração fecunda de nosso sangue caboclo, que hoje vemos viva e palpitante, nesses nossos filhos e netos que se espalham por nossas terras, em outras tantas e fecundas messés que hão de propagar a nossa raça forte pela vida afora!
Sinto uma saudade imensa de você, minha velha, e vejo-a sempre na retina de meus olhos fatigados, consolando-me com as suas ternas palavras:
- Vamos meu velho, isto não há de ser nada...
Não há de ser nada mesmo, minha velha e terna amiga. A morte não me amedronta, e quem como nós já cumpriu a missão, aguarda serenamente que tudo se consuma consoante os altos desígnios de Deus! Não há de ser nada, minha amiga. Um pequeno estalido e este velho coração, que ainda pulsa por você, o meu grande amor, durante meio século, terá optado por outra via.
Não há de ser nada, minha velha...".
Dorian Gray, meu cão, nunca teve coração.