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Crônica

Nesta quarentena, estou vivendo tempos bicudos em casa

Gastei uma manhã inteira para ganhar a confiança de Amora, usando uma varinha de bambu para lhe oferecer água e mamão. Um treinador me disse que comida e carinho são elementos básicos para firmar amizade duradoura com os animais

Públicado em 

21 ago 2020 às 05:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Arara Canindé
Arara Canindé: essas aves podem viver até 70 anos Crédito: Pixabay
Para não falar de assuntos desagradáveis, grandes tragédias e temores crescentes, achei por bem escrever sobre Amora, minha querida arara Canindé, que ganhei de presente no meu aniversário de 70 anos de meus filhos, irmãos e amigos próximos. Disseram que era pra me fazer companhia e matar as saudades da Aurora, que tinha vindo pra nós ainda bem novinha lá em Brasília.
Ela veio conosco pra Vitória se equilibrando na barra de alumínio, um poleiro improvisado, atrás da minha cadeira de motorista do nosso ônibus. Viveu conosco por uns sete anos, circulando livremente pela varanda, no quintal e sobre os muros. Fugiu e foi levada umas oito vezes e eu não consegui recuperá-la na última vez.
Amora foi comprada de um criador credenciado no Estado do Rio e chegou no Aeroporto de Vitória totalmente estressada e agressiva, com uma anilha numerada na canela direita. Gastei uma manhã inteira para ganhar sua confiança, usando uma varinha de bambu para lhe oferecer água fresca e mamão maduro. Um treinador me disse que comida e carinho são elementos básicos para firmar amizade duradoura com os animais e me informou que as araras vivem 70 anos.
O viveiro de bom tamanho que ganhamos permanece sempre aberto e está colocado diante da janela da cozinha para que Amora possa ficar, de cima de seu telhado, acompanhando a movimentação, sempre fazendo graça, se exibindo e pedindo comida.
Fiz um balanço de dois andares com paus de enxada, que ganhei de Manoel Araújo, antes que fechasse a sua utilíssima loja na Avenida Leitão da Silva, e o pendurei com arame na viga da varanda. Amora adora ficar nele, sobretudo quando tem gente por lá. Para chamar a atenção ou se divertir, ela bate as asas com força suficiente para ganhar impulso e poder ficar balançando pra lá e pra cá, de cabeça pra baixo e peito aberto, dando gritinhos.
Para que ela pudesse viver solta e perto da gente, inventei um superpoleiro móvel, montado sobre um pé de cadeira de escritório com cinco rodinhas, que permite levá-la pra todo lado, em especial ao lado da minha bancada, para ela poder ficar observando atentamente o que eu esteja fazendo. Ali, vou lhe dando lascas de bambu, que ela mastiga e estraçalha sem dó.
Me impressiona o enorme poder de destruição de seu bico, com o qual consegue esticar arame, partir coquinho e arrancar prego. Nisso, as araras são como cachorros em crescimento, que roem pés de mesa, esburacam tapetes e destroem brinquedos, só pra coçar os dentes.
Ninguém previu que aquele presente, meio inusitado, seria tão útil na quarentena. Tanto que vou precisar de mais uma crônica para contar as suas peripécias e a evolução da nossa amizade.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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