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É muito chato!

Na pandemia, aqui estou: sem pai, mãe e um governo para chamar de meu

Sei de muita gente que tem uma espécie de coceira quando fica muito tempo sem sair de casa. Saem pelas mais diversas razões e justificativas, plausíveis mas nem sempre verdadeiras

Públicado em 

15 mai 2020 às 05:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Em meio à pandemia de coronavírus e o isolamento social em casa
Em meio à pandemia de coronavírus e o isolamento social em casa Crédito: iStock/Divulgação
Sempre fui um homem caseiro, desses que não têm agonia de ir pra rua todo santo dia. Sei de muita gente que tem uma espécie de coceira quando fica muito tempo sem sair de casa. Saem pelas mais diversas razões e justificativas, plausíveis mas nem sempre verdadeiras. Mamãe era uma delas.
Volta e meia telefonava pra dizer que estava com uma vontade danada de dar uma voltinha pra aproveitar a fresca e ver o fim da tarde ou, simplesmente, pra tomar um sorvete. Usava a argumentação de sempre, dizia que estava enjoada de ficar dentro de casa, independentemente de onde estivesse: na dela mesmo ou na de qualquer um dos filhos. Aqui em Vitória, em Guarapari ou no Rio de Janeiro.
De alma leve e sempre muito disposta, imagino que ela devia falar coisa parecida pra papai, no começo da vida de casada, lá em Cachoeiro: “Bolivar, meu querido, vamos dar uma voltinha na praça, pra ver o movimento?” Nas férias, em Marataízes, o convite podia ser alguma coisa do tipo: “Ai, Bolo, estou com muita vontade de ver o mar. Deve estar uma beleza! Vamos lá?”.
Depois de um infarto, fraco do peito e das pernas, fui obrigado a reduzir o ritmo da vida e a ficar em casa, de repouso, em busca de recuperação. Acabei aprendendo a fazer colheres de bambu e escrevendo muitas páginas sobre o que estava se passando na minha cabeça. Em alguma delas está escrito que eu tinha a certeza de que não estava na hora de morrer.
É que naquele início de 1995, estavam começando os governos de Paulo Hartung em Vitória, de Vitor Buaiz no Estado e de Fernando Henrique Cardoso lá em Brasília. Lembro muito bem das boas emoções que sentia vendo aquilo. Cada qual no seu estilo, eles transmitiam confiança, seriedade e a impressão de que governariam pensando grande, para o bem comum. A sensação era a de que os próximos anos seriam um tempo muito bom pra quem estivesse vivinho da silva.
"Ando totalmente desesperançoso com o que vejo. Estou cansado de bravatas diárias e de disse-me-disses chatíssimos, tendo que assistir ao toma lá, dá cá de sempre. Em plena pandemia, aqui estou eu: sem pai, sem mãe e sem governo pra chamar de meu"
Alvaro Abreu - Articulista
Pois bem, cá estou eu, novamente dentro de casa, também por imposição de cuidados com a saúde, fazendo uma colher após a outra, só que agora sem as boas perspectivas. Ando totalmente desesperançoso com o que vejo. Estou cansado de bravatas diárias e de disse-me-disses chatíssimos, tendo que assistir ao toma lá, dá cá de sempre. Em plena pandemia, aqui estou eu: sem pai, sem mãe e sem governo pra chamar de meu.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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