Nestes tempos em que a morte vai se espalhando, por conta de pandemia nunca vista, eu perdi um grande amigo, chamado Iveraldo Lucena. Ele morreu na última terça-feira (7), em João Pessoa, por doenças comuns a gente de idade avançada. Acompanhei de longe a evolução do quadro, sem qualquer chance de chegar perto para continuar uma conversa que começou em 1976, quando cheguei na Paraíba para atuar na universidade federal.
Foi amizade à primeira vista. Ela começou com um sorriso dele pra mim, durante uma reunião do Conselho Universitário, no dia seguinte ao da minha chegada. Talvez o único que recebi naquela sala enorme, onde homens engravatados me olhavam com cara desconfiada, depois de ter sido apresentado pelo reitor. Eu estava com 28 anos e tinha adotado, faz tempo, meu visual riponga: os cabelos batiam nos ombros e a barba era preta e densa, dessas de espantar menino.
Na saída, ganhei dele o primeiro abraço, talvez de solidariedade, por saber da resistência que eu, forasteiro e cabeludo, iria enfrentar dali por diante. Logo depois vieram outros, agora fraternos, por eu ter trazido uma morena carioca e um filho recém-nascido pra viver longe dos nossos, em casa sem uma linha telefônica. Quando chegou cada uma das nossas duas paraibanas, ele foi o primeiro a nos visitar, já fazendo cara de avô.
Sou uma pessoa de sorte por ter encontrado Iveraldo. Homem animado, afável no trato e disposto, foi quem me ensinou, com abraços, palavras e atitudes, muito do que venho praticando vida afora. A lista é longa e inclui: valorizar a alegria de uma casa cheia e barulhenta, sentir emoções antigas diante de uma fogueira de São João, ter satisfação de fazer comida pra muitos, beber cachaça Rainha, destilada na terra onde ele nasceu.
Mais do que tudo, com ele aprendi a relevância da ética, da justiça e dos valores humanitários, a importância de dizer não para filhos, amigos e colegas, e a obrigação de sempre fazer a conta inteira: multiplicando e somando tudo que seja bom, subtraindo o supérfluo e o ruim, dividindo quando preciso for.
Entendo ele não ter conseguido me ensinar a sabedoria de escutar o tanto que queiram nos dizer, a arte de enfrentar pelejas, com firmeza, mas sempre falando baixo, a sagacidade de comprar um sítio onde pudessem caber, também, as casas dos filhos nem os segredos de andar por praias e estradas, por dias inteiros, em companhia de muitos.
Hoje, vendo as centenas de mensagens e depoimentos sobre ele nas redes, tive a satisfação de comprovar que Iveraldo se tornou referência do que é ser um homem bom. Pensando nele, fui fazendo colheres, do mesmo gomo de bambu, pra seus quatro filhos queridos, usando somente a foicinha que ele me ajudou a conseguir, antes de nos abraçamos pela última vez.