Comecei a usar bambu ainda moleque, lá em Cachoeiro, para fazer pipa, vara de pescar, gaiola e alçapão. De lá pra cá, junto com borracha de câmara de ar, o bambu mantém posição relevante no rol dos recursos de “pau pra toda obra”, de grande utilidade para soluções rápidas e eficientes.
Gosto de dizer que sou colhereiro especializado, pois só faço colheres com bambu. Tento tirar proveito da sua constituição, sobretudo das suas fibras, que além de proporcionar flexibilidade, resistência e durabilidade, podem apresentar formas muito simpáticas.
Nestes tempos de recolhimento, inventei de fotografar as fibras do bambu, que se revelam na forma de linhas escuras, círculos e elipses, conforme a direcionamento do corte. Sua espessura e densidade variam bastante em função do tipo da planta e da posição que ocupam em relação à casca e ao longo do gomo, sobretudo nos nós, onde perdem os padrões de organização e distribuição.
Fui fotógrafo profissional por uns meses, num tempo de grandes descobertas e satisfações com a primeira Minolta, filmes de 135 ASA, imagens em preto e branco reveladas em laboratório caseiro. Agora, estou às voltas com os avanços tecnológicos da câmera fotográfica do celular xing ling último tipo. Tento dominar o uso das suas lentes poderosíssimas para fotografar as fibras bem de pertinho e conseguir captar a sua bela estética. A danação é a enorme quantidade de recursos técnicos disponíveis e acessíveis a um toque da tela, muitos deles escondidos sob siglas e ícones, e em lugar desconhecido por gente como eu.
Nessa peleja, nossa casa vai ganhando uma nova função: a de estúdio fotográfico. Isso depois de ter sido lar de família numerosa, lugar de adolescentes animadíssimos, inclusive de ensaio de banda de rock, ambiente de restabelecimento de infarto e operações, ambiente para test drive de casamento da caçula, espaço de festas e celebrações emocionantes, de feijoadas e cozidos para muitas bocas, colônia de férias de netos e muito mais.
Nesta pandemia, com frequência limitadíssima e sem previsão de normalidade, já transformamos quarto vazio em estúdio para Carol se divertir e, aos poucos, a sala de televisão, onde muita gente se esparramava, vai se consolidando como minha adorável oficina multiuso. É nela que vou instalar a geringonça de fixar a câmera fotográfica que ganhei de Vítor Nogueira, o fotógrafo primeiro das minha colheres, e criar condições de iluminação propícias ao que pretendo realizar.
Só vai faltar aprender bastante sobre cada recurso da câmera e, muito mais difícil, dominar o uso conjugado de vários deles, para fotografar o bambu sob diferentes condições de iluminação e conseguir produzir imagens interessantes e surpreendentes.