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O final de 2025 trouxe uma ótima notícia para o ES, mas...

O Grupo Imetame fechou um grande acordo com uma gigante europeia para movimentar cargas pelo porto que está sendo construído em Aracruz, mas há pedras pelo caminho

Vitória
Publicado em 14/01/2026 às 03h00
Porto da Imetame, no Norte do Espírito Santo
Porto da Imetame está em obras em Aracruz, no Norte do Espírito Santo. Crédito: Divulgação/Imetame

No dia 23 de dezembro, o Grupo Imetame e a Hanseatic Global Terminals (HGT), subsidiária da gigante alemã Hapag-Lloyd, líder em transporte de contêineres, anunciaram um acordo com força para colocar o porto que a Imetame está construindo em Aracruz, um investimento de mais de R$ 2 bilhões a ser inaugurado em meados de 2026, entre os mais importantes do Brasil. Trata-se de algo estratégico para a economia do Espírito Santo, afinal, com a reforma tributária entrando em vigor e com os incentivos fiscais com data marcada para acabar (final de 2032), é fundamental a busca por eficiência econômica para o Estado seguir atraindo atividade.

A HGT passou a deter 50% das ações da Imetame Logística Porto e o foco será na operação de contêineres. Em princípio, a capacidade anual do terminal será de 1,2 milhão de TEUs (unidade de medida para calcular o volume de um contêiner) e a profundidade é de 17 metros, o suficiente para recepcionar grandes navios. Para efeito de comparação, atualmente, as áreas de contêineres do Porto de Santos têm 15 metros de profundidade. O objetivo é transformar o Porto da Imetame em um grande concentrador brasileiro de cargas, tanto na exportação como na importação. Hoje, o Porto de Vitória recebe poucas embarcações diretamente de fora do país. Grande parte da carga do Espírito Santo vai ou vem de Santos e Rio de Janeiro. Se o projeto da Imetame der certo, e ter uma Hapag-Lloyd do lado é fundamental para isso, a lógica atual tem tudo para mudar bastante.

Importante ter um olhar mais contextualizado sobre o que está em curso. O projeto da HGT é global. O conglomerado, que possui 22 terminais portuários, quer ter mais de 30 até 2030. O objetivo é ser uma operadora global de terminais. A Hanseatic Global Terminals Latin America iniciou as suas operações em agosto do ano passado e uma das primeiras tacadas foi o investimento na Imetame.

"A América Latina é um mercado estratégico fundamental para a Hanseatic Global Terminals e para a Hapag-Lloyd. Nossa joint venture com o Grupo Imetame e o desenvolvimento de um novo hub de transbordo e gateway na costa leste do Brasil fortalecem nosso portfólio de terminais, ao mesmo tempo em que enfrentam limitações de capacidade em uma região em crescimento. Esse investimento no porto de Aracruz beneficia o Brasil ao fortalecer a infraestrutura comercial por meio de um porto mais próximo dos mercados consumidores e das principais rotas globais de navegação do que os portos de entrada tradicionais – proporcionando assim, a vários estados originários de carga, um acesso alternativo e mais eficiente aos mercados globais", esclareceu Dheeraj Bhatia, CEO da Hanseatic Global Terminals, no comunicado ao mercado que rodou em 23 de dezembro.

Mas para que os negócios caminhem como podem, e aí olhando para os demais investimentos portuários em curso no Espírito Santo - Portocel, Vports e Porto Central -, é fundamental que a estrutura de terra seja adequada ao tamanho do que está sendo feito no mar. É claro que os investidores estão fazendo muita coisa olhando para o mar (como transbordo de petróleo e cabotagem), mas se as rodovias (locais e nacionais) e as ferrovias não entregarem o que os portos poderão receber, vai ficar capenga. Não atingiremos a plenitude da capacidade produtiva, o que seria muito ruim para o Espírito Santo.

Precisamos resolver a renovação da concessão ferroviária que vem do Brasil Central (o governo federal segue empurrando com a barriga a negociação com a VLI, empresa responsável pela Ferrovia Centro Atlântica, que conecta a Vitória-Minas com o Brasil Central), a ligação ferroviária com o Rio de Janeiro (a promessa do governo federal é de encaminhamento da EF 118 no primeiro semestre), a BR 262 (o projeto executivo deve ser apresentado, também pelo governo federal, nas próximas semanas), fiscalizar o bom andamento da ampliação da BR 101 (essa parte vem caminhando) e acelerar os investimentos nas rodovias estaduais que fazem a ligação das BRs com os portos.

Além disso tudo, precisamos enfrentar de frente, e o governo federal novamente aparece como ator fundamental, questões como, por exemplo, os recorrentes bloqueios feitos por manifestantes, pelos mais diversos motivos, no Ramal Piraqueaçu, ligação da Estrada de Ferro Vitória-Minas com os portos de Aracruz. Indígenas, de outubro para cá, bloquearam trecho por mais de 70 dias. O governo federal, que age como se nada tivesse com isso, deveria trabalhar com mais proximidade. O hub portuário que está se desenvolvendo na região de Barra do Riacho tem tudo para ser uma das engrenagens que precisam rodar para dar conta de escoar a produção do agronegócio brasileiro.

Nessa última manifestação, o prejuízo das empresas que escoam carga por ali superou os R$ 200 milhões, mas o rombo para o Espírito Santo, que ficará com a pecha de ser um local inseguro para operações caso a situação não seja resolvida, e para o Brasil será incalculavelmente maior.

Para sermos de fato uma plataforma logística eficiente e confiável, há bastante trabalho pela frente. Muito está nas mãos do governo federal... Que fica na "ilha" de Brasília. Portanto, o empresariado, a sociedade civil organizada, os governos locais e os políticos do Espírito Santo precisam entender a dimensão do desafio e gastar um pouco mais de saliva e sola de sapato por aqui e lá no Planalto Central.   

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