Em meio à crise, Brasil envia maior avião de carga para treinar nos EUA

Um dos quatro KC-390 da FAB, peça central para levar materiais na pandemia, ficará fora até fevereiro para treinamento militar

Publicado em 15/01/2021 às 10h53
Avião de transporte KC-390 após levar 8 t de equipamento médico para Manaus, na quarta. Twitter FAB
Avião de transporte KC-390 após levar 8 t de equipamento médico para Manaus, na quarta. Crédito: Twitter FAB

Em meio ao agravamento da pandemia, com a falta de oxigênio em Manaus, e às vésperas da campanha de vacinação contra a Covid-19, o Brasil perdeu uma das suas parcas estrelas do combate logístico à crise sanitária.

Trata-se de um avião de transporte Embraer KC-390 Millennium da FAB (Força Aérea Brasileira), um dos quatro em operação no país. É a aeronave com maior capacidade de carga em serviço, podendo levar até 26 toneladas.

O avião chegou na terça-feira (12) a Alexandria, Louisiana (EUA), e ficará até 5 de fevereiro participando de um treinamento militar conjunto com os americanos, chamado Culminating (culminando, em inglês).

O modelo, cuja primeira unidade entrou em serviço em setembro de 2019 e a mais recente, em dezembro passado, está sendo usado intensamente em missões de apoio ao longo do ano. Na quarta (13), um deles levou 8 toneladas de equipamentos justamente para Manaus.

O jornal Folha de S.Paulo questionou na noite de quinta a Força acerca da decisão de enviar o avião mesmo com a necessidade no Brasil e se havia a possibilidade de chamá-lo de volta. Ainda não obteve resposta.

Um coronel aviador alega que a retirada de operação de uma aeronave em nada prejudicará as atividades contra a Covid-19. A Força tem nominalmente 20 modelos antigos Lockheed-Martin C-130 Hércules, que levam até 19 toneladas de carga, e 11 C-105 Amazonas, que leva 7 toneladas.

Talvez sim, tanto que Hércules estão sendo usados para levar cilindros de oxigênio para Manaus - só na quinta (14), foram 18 toneladas em dois voos. Eles têm alcance algo maior do que os KC-390 plenamente carregados, mas o avião da brasileiro é bem mais rápido (870 km/h ante 600 km/h do modelo americano).

Também na quinta circulou por meio de um deputado amazonense a informação de que o Brasil poderia pedir ajuda dos EUA, que enviariam mais oxigênio num avião de transporte C-5 Galaxy, um velho gigante que leva até 127 toneladas.

O argumento do militar é menos defensável quando se lembra que o governo federal quer começar a vacinar pessoas pelo Brasil a partir do dia 20, caso a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprove os dois imunizantes que analisa no domingo (17).

Para isso, lembra o mesmo coronel, seria ideal ter toda a frota com o melhor equipamento disponível. Cada avião pode contar, isso sem mencionar a questão simbólica das prioridades.

A FAB descreveu cada passo da ida do avião aos EUA em seu canal no YouTube.

A decisão também ocorreu num momento em que já há questionamentos nas Forças Armadas acerca da presença do general da ativa Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde. Em dezembro, o comandante do Exército, Edson Leal Pujol, afirmou que não deveria haver militares na política.

O exercício militar em si é de enorme valor operacional para a FAB, e faz parte de uma aproximação entre Brasil e Estados Unidos iniciada em 2017, no governo de Michel Temer (MDB). A presença brasileira estava programada desde o ano passado.

Diversas coisas saíram desse movimento, como a polêmica presença de oficiais brasileiros no Comando Sul dos EUA.

O Culminating é, como o nome diz, um dos pontos culminantes da associação. O exercício de ataque aerotransportado começou em janeiro, com a presença de 203 homens da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército.

Eles estão treinando com alguns dos melhores especialistas na área do mundo. O KC-390 se integrou ao grupo agora para seu primeiro exercício militar conjunto no exterior, não só com a Força Aérea americana, mas também com canadenses e italianos.

O ponto alto será um treinamento em que o KC-390 voará com nove gigantes Boeing C-17 Globemaster e 6 C-130J, a versão mais moderna do Hércules. Numa noite, o grupo terá de lançar 4.000 paraquedistas em pontos do "território inimigo" simulado em Louisiana.

Do ponto de vista de emprego, será um marco para o avião, que entrou em operação pouco antes da pandemia e, nas palavras de um brigadeiro, não parou de cruzar os céus nem um minuto. Até aqui, ao menos.

Isso não significa uso exclusivo. O KC-390 seguiu com sua campanha de testes de certificação final, lançando seus primeiros paraquedistas após ser incorporado à FAB em 9 de dezembro passado. Mas isso em território brasileiro.

A Embraer começou a desenvolver o cargueiro multimissão a pedido da FAB em 2008, com investimento de R$ 5 bilhões retornáveis em forma de royalties de exportação ao longo dos anos.

O Brasil encomendou 28 unidades por R$ 7,2 bilhões, em 2009. Dois outros países já fizeram pedidos, ambos da Otan (aliança militar ocidental): Portugal (5) e Hungria (2).

Se a visita aos EUA visa capacitar os operadores e testar o avião em simulações de combate real, há um componente comercial: ele poderá chamar a atenção dos americanos, donos do maior mercado aeronáutico militar do mundo e que têm no horizonte a substituição de seus Hércules.

No mercado internacional, o avião é vendido como C-390, e a versão KC indica que ele tem capacidade de reabastecimento aéreo (C é o código militar para transporte e K, de avião-tanque).

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