Novo protocolos exigem que alunos e professores fiquem de máscara e mantenham distanciamento
Novo protocolos exigem que alunos e professores fiquem de máscara e mantenham distanciamento. Crédito: Freepik

Ensino digital é caminho sem volta após pandemia do coronavírus

Surgimento do novo vírus acelerou processo de implementação de novas tecnologias para o aprendizado e trouxe também desafios de inclusão às escolas

Vitória
Publicado em 02/12/2020 às 11h32

Ainda é cedo para dimensionar os prejuízos impostos pela pandemia da Covid-19 à Educação do país, após meses de escolas fechadas. Evasão, baixo desempenho, distorção da idade-série são algumas das implicações desse período. Por outro lado, o ensino remoto ao qual alunos, professores e gestores precisaram se adaptar indica um novo momento para a área: a era digital é um caminho sem volta, mesmo com todos os desafios de inclusão para corrigir as desigualdades também evidenciadas durante a crise sanitária.

A tecnologia educacional não é propriamente uma novidade. Maria Julia Azevedo, mestre em Educação e Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e gerente de implementação de projetos do Instituto Unibanco, revela que esse é um processo que começou na década de 1990, mas vinha seguindo a passos lentos, especialmente na perspectiva das novas gerações nativas digitais.

A demora é em parte pela incompreensão de que a tecnologia é uma ferramenta que pode contribuir na mediação do ensino, mas que não será usada para substituir o professor. Tem relação ainda com as dificuldades de acesso e também com a formação para uso dos recursos digitais.

Até que, em março, a pandemia obrigou as escolas a fecharem as portas, e usar a tecnologia deixou de ser uma opção para se transformar em necessidade. As demandas da Educação, que já não são poucas, ganharam um tópico na lista: a inclusão digital.

“Não é que estivesse tudo bem na Educação. Já tínhamos muitos desafios, tanto da aprendizagem quanto do acesso e permanência. Especialmente na educação básica, no contexto da pandemia, os desafios ficaram ainda maiores com a suspensão das aulas presenciais e a necessidade de manter a aprendizagem”, observa Sonia Dias, coordenadora de Implementação Municipal do Itaú Social.

Criança tem aula on-line. Pandemia digitalizou o ensino
Professores e alunos não tinham experiência com aulas on-line. Crédito: Pixabay

SEM PREPARAÇÃO

Com as atividades totalmente a distância, aponta Sonia Dias, as redes precisaram produzir e disponibilizar conteúdos para os alunos, num curto espaço de tempo, mesmo sem ter a preparação adequada. Professores e equipes não tinham a expertise de transpor as aulas, pensadas inicialmente para o presencial, até o on-line.

“Havia dificuldades inclusive de infraestrutura das redes, de plataforma, de onde colocar o material; num primeiro momento foi uma dificuldade grande”, constata a especialista. Passados dois meses, uma pesquisa realizada pela União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) revelou que, em torno de 70% dos professores, já tinham conseguido se adaptar ao modelo.

Josimar Nunes Pereira de Freitas, professor de Geografia e de Projeto de Vida na Escola Estadual Ana Lopes Balestrero, em Flexal II, Cariacica, pode se considerar desse grupo que, mais do que se ajustar à nova realidade, se reinventou durante a pandemia. Ele reconhece que teve um período muito difícil no início da crise sanitária, porque a ruptura das aulas presenciais se deu de maneira bastante abrupta.

“Mas fomos aprendendo muita coisa durante o processo. Eu aprendi a usar um aplicativo que produz podcasts de forma simples. Andei gravando algumas aulas, em episódios de quatro, cinco minutos, para que os alunos pudessem fixar os conteúdos. É um material de linguagem simples que está disponível. Podem baixar o áudio e ficar ouvindo na hora e no lugar que quiserem; o potencial da tecnologia está aí”, analisa Josimar, que produziu o conteúdo sozinho, no próprio celular, para as turmas do 9º ano do ensino fundamental.

Para o ensino médio, outra estratégia. Com a equipe de professores do Projeto de Vida, eles promoveram lives, sempre com convidados com os quais os estudantes pudessem se identificar. Uma das participantes foi a jornalista Daniela Karla, da TV Gazeta, por sua origem em comunidade de periferia, assim como os alunos. Também participou um professor, formado em escola pública, e que foi aprovado em cursos nos Estados Unidos.

Josimar Nunes Pereira de Freitas

Professor de Geografia e de Projeto de Vida na Escola Estadual Ana Lopes Balestrero

"A proposta dessa disciplina é criar ambientes de aprendizado que possam contribuir para o aluno se conhecer, passar a refletir sobre ele no mundo, o que pretende fazer no futuro. Então, decidimos fazer lives temáticas com pessoas que têm o perfil parecido com o deles para que contassem a sua história e pudessem ser inspiração. Essa foi a forma que encontramos de manter a proximidade com os alunos, ao mesmo tempo em que dávamos a disciplina"

FORA DE ALCANCE

A iniciativa de Josimar e de tantos outros professores no Estado e no país, entretanto, não esteve ao alcance de todos porque a tecnologia é, como já dito, um aspecto excludente no Brasil. A mesma pesquisa da Undime e Consed, que mostrava o avanço na adaptação de professores ao ensino remoto, apresentou um indicador mais preocupante.

Embora uma grande parcela dos alunos pesquisados (79%) tivesse acesso à internet, essa condição não era suficiente para o processo de aprendizagem. Isso porque, para a maioria, a conexão era feita por celular que, além de limitar a possibilidade de fazer as atividades, em geral, era compartilhado com outras pessoas da família.

“Sem falar no pacote de dados, que também limitava a visualização de vídeos e a realização de outras tarefas”, pontua Sonia Dias, do Itaú Social.

Vitor de Angelo, secretário estadual da Educação, sustenta que o maior desafio imposto pela pandemia foi justamente o de manter a conexão do aluno com a escola, sobretudo no período em que estava fechada. Depois, o desenvolvimento de atividades pedagógicas não presenciais revelou-se outro obstáculo para a rede.

“A maneira mais óbvia de fazer essas atividades seria usar a tecnologia. Mas, pelas características socioeconômicas do público das escolas, chegar a esses alunos nem sempre era possível. Então, começávamos a esbarrar em outra questão, que é a exclusão digital, nem sempre tão percebida, porque a inclusão acontecia dentro da escola”, afirma.

A Secretaria de Estado da Educação (Sedu) lançou o programa Escolar para manter o vínculo com os estudantes, por diversas plataformas, e tentar assim garantir o aprendizado das turmas. Mesmo com o pagamento de pacote de dados para internet e disponibilização de aulas pela TV aberta, a estratégia não alcançava todos os alunos.

Vitor de Angelo (sem partido) é secretário estadual de Educação
Vitor de Angelo , secretário de Educação, pontua que nem todo estudante tem em casa um ambiente de estudo propício. Crédito: Carlos Alberto Silva

Vitor de Angelo

Secretário estadual de Educação

"Quando precisamos contar com a família, para nos conectar a ela, nem sempre existia a estrutura. Como não dava para criar a estrutura de tecnologia, lançamos mão de outras opções para as atividades remotas e preparamos o material impresso"

Ainda assim, o contexto social em que vivem muitas famílias era mais um complicador para os alunos. Em casas que mal abrigam todos os moradores, ter um espaço reservado - e adequado - para estudos era um privilégio. “Nem sempre os alunos têm condições propícias. Uma mesa, um ambiente silencioso, coisas que uma escola proporciona”, aponta.

Mas as dificuldades não se limitaram à rede pública. As escolas particulares tiveram as próprias barreiras para superar, ainda que não fossem essas do contexto familiar mais vulnerável.

Eduardo Costa Gomes

vice-presidente do Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Espírito Santo (Sinepe-ES)

"O ponto crucial levantado por todas as escolas foi: ‘eu consigo formar esses alunos sem tê-los presencialmente?’ Isso foi um grande obstáculo. Quando se tem que realizar uma atividade com tantos empecilhos, muda-se a forma. Mas, na pandemia, mudar não era possível, não existia a possibilidade do presencial. É uma reconstrução da forma de trabalhar, e as escolas se esforçaram demais para isso. Não digo os ‘CNPJs’, mas as pessoas fizeram um trabalho espetacular "

Maria Júlia, do Instituto Unibanco, considera que a pouca autonomia dos alunos para estudar, seja na rede pública, seja na particular, também mostrou-se como um fator adverso no ensino remoto. “Os estudantes que estavam condicionados a ir à escola, e lá que estava depositada sua rotina, sofreram muito com isso. E as famílias também. Essa forma de educar de uma forma muito tutelada deu um ‘curto’ enorme durante a pandemia”, opina a especialista.

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