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Tá difícil conviver? Veja dicas para salvar sua relação no confinamento

A quarentena tem sido um teste para muitos relacionamentos. Tem casais brigando por bobagem e outros até falando em divórcio. Psicólogas mostram o caminho para a conciliação nesse período

Publicado em 24/03/2020 às 09h04
Atualizado em 24/03/2020 às 14h16
A capixaba e miss Brasil 2010 Débora Lyra e o marido, o cantor Gabriel Gava; adaptações à rotina de confinamento
A capixaba e miss Brasil 2010 Débora Lyra e o marido, o cantor Gabriel Gava; adaptações à rotina de confinamento. Crédito: Reprodução/Instagram

Estava tudo tranquilo, mais silencioso até que o de costume para um dia de domingo. De repente, roupas e sapatos começam a voar pela varanda do apartamento, caindo espalhados pela calçada. A cena foi real, aconteceu no último final de semana, em um prédio na Praia da Costa, em Vila Velha.

E os vizinhos, reunidos em seus lares por causa do coronavírus, presenciaram tudo de camarote. “Será que alguém descobriu uma traição ou é a quarentena que está deixando a pessoa maluca?!”, questionou uma moradora do prédio da frente, que filmou tudo com o celular. Em questão de minutos, a briga do casal estava sendo compartilhada em milhares de grupos de WhatsApp.

Ninguém sabe o que realmente houve ali. Mas é fato que tem muitos casais se estranhando durante o confinamento, discutindo até por bobagem, por uma toalha largada na sala ou uma garrafa de água vazia na pia. Todos muito bem instruídos sobre como não se contaminar pelo vírus ameaçador, mas se sentindo expostos e fragilizados numa relação. Até quando vão (se) aguentar?

O isolamento não tem data para terminar. Portanto, mesmo que muitos pareçam estar como numa lua de mel, o convívio forçado e prolongado pode fazer tudo desandar e até resultar no fim do casamento. Pode o amor sobreviver a 24 horas ininterruptas de convivência?

Relacionamento testado

Para Gina Strozzi, psicóloga e colunista de comportamento da Revista.ag, essa quarentena vai servir como um teste mesmo para muitos relacionamentos.

“A gente vai testar nossa capacidade de nos guardarmos e nos pacificarmos. Estamos na frente de uma batalha. Vai ser um grande teste. Nossas casas viraram um local de checagem de quanto podemos conviver no micro. No macro é mais fácil, porque a gente se dilui. Mas no micro, a convivência pode se tornar patológica quando nossas patologias afloram, pode se tornar tóxica quando nossas toxicidades se revelam”, aponta ela.

Mas como seres tão íntimos podem não se suportar sob o mesmo teto? Segundo a psicóloga, a palavra mágica é esta aí mesmo: intimidade.

“Intimidade é local de muito poder. Como as máscaras são desfeitas, a gente mostra nosso melhor e o nosso pior também. Só um sujeito com muita maturidade é capaz de entender essa dicotomia, de que temos o mau e o bom dentro de nós. O lar é um ambiente de aconchego, de pertencimento, mas também de conflito, de confronto de quem nós somos. Diferente do ambiente de trabalho, na casa não cabem as máscaras. É onde somos de verdade. E podemos não agradar tanto. É o chão do conflito! É onde nossas características, positivas e negativas, estão afloradas. Tem as questões pessoais, de cada um, questões existenciais, propósitos, planejamentos para o ano, ambições que não serão atingidas, metas que não serão cumpridas, desafios que não serão superados… Isso é intrapessoal, mas se torna interpessoal quando esbarra no ouro”.

Claro que ficar limitado a um espaço único por tanto tempo não é fácil, diz Gina, ainda mais nessas condições angustiantes.

“A pessoa perde sua privacidade e fica como? Irritada, deprimida, exausta? São homens e mulheres dentro de casa esgotados emocionalmente, com derrame de cortisol muito alto por causa do estresse, do medo de pegar o vírus, por causa da inabilidade de lidar com conflitos da casa, que estão todos acumulados sobre nós e com urgência de serem tratados, como estabelecer rotina, entreter as crianças… Tudo isso gera intolerância, estresse exacerbado que vai aflorando nossos comportamentos mais agressivos, mais raivosos”.

E aí, num cenário como este em que vivemos, qualquer coisa pode virar motivo para “fazer barraco” e até pedir divórcio. Para Gina, os desentendimentos, as brigas, as agressões tendem a aumentar na mesma proporção do tempo do confinamento.

“Quando você está magoado com o outro, o fato de sair cedo de ir trabalhar tranquiliza um pouco porque te tira da obrigação do confronto, do enfrentamento. Agora que isso não é possível, a dificuldade nos relacionamentos vai aumentar”, acredita.

Imunidade psicológica

É preciso, de acordo com a psicóloga, criar o que ela chama de imunidade psicológica. “Esse tempo vai passar, mas pode ser um tempo precioso para arrumarmos nossas vidas por dentro, jogar um álcool em tudo que nos impede de nos tornarmos transparentes, limpos diante do outro. Para criar essa imunidade, é preciso trabalhar o perdão, estabelecer planos para a família e superar os desafios que a intimidade vai impor”, sugere Gina.

Para a psicóloga Milena Careta, esse período deve ser teste não para os relacionamentos em si, mas para cada um de nós. “É um momento para verificarmos como estamos vivendo e lidando com nossos dias e questões, essa consciência emergente de que a vida é finita tem que nos levar a pensar o quanto realmente estamos vivendo e fazendo a vida valer a pena”, comenta ela.

Oportunidade

A hiperconvivência, diz Milena, não é algo ruim para as relações. “Na verdade, ela é uma chance de nos voltarmos para nós e para os nossos. O problema está em como vemos esse momento de isolamento social. A convivência tão intensa não precisa nem ser uma lua de mel e nem um inferno astral. É uma oportunidade de fazermos o que dizíamos não poder fazer por falta de tempo: olhar realmente para si e para o outro, conversar sem tempo e assuntos pré definidos, transar sem cobranças, brincar com as crianças, fazer aquele almoço de domingo em qualquer dia e ficar na mesa papeando sem a correria ou até aquela ceia que é maravilhosa mas só ocorre em datas comemorativas”.

Para a psicóloga, a quarentena deve servir para aproximar mais os casais, emocionalmente falando. “Eles devem aproveitar para se unir, se ouvir e alinhar planos e projetos de vida. Até porque logo logo toda correria vai nos roubar esse tempo novamente. Devemos lembrar muitas vezes que, apesar de estarmos com tempo livre, há uma tensão no ar, um medo do amanhã e de como e quando tudo voltará ao normal, e essa tensão acaba por gerar estresse”.

Reflexão

Milena propõe que as pessoas reflitam sobre qual o sentido desse isolamento social? “Ele é em decorrência de preservarmos nosso maior a valor: a vida! Nossa vida, a vida dos que amamos. Então, não podemos esquecer isso, pois diante da possibilidade de morte devemos buscar o que realmente é importante para nós, e, no fundo, quando fazemos essa reflexão, percebemos que não faz diferença quem deixou a garrafa de água vazia, porque o importante é que tem mais alguém ali para dar sentido aos seus dias”.

Desenterrando mágoas

Com tempo de sobra, o jeito é resolver pendências amorosas, certo? Bom, Gina não aconselha a nenhum casal desenterrar velhas mágoas neste momento tão delicado.

“Às vezes, o relacionamento já está desgastado. Mas não é hora de relembrar questões do passado.Não levante assuntos de 20 anos atrás, esse é um tempo de aprendizado

Mágoas antigas, rancores, tormentas psicológicas, agressões e palavras duras, críticas, comparações, tudo isso polui nossa mente e corações.A gente vai criar seres isolados dentro de um mesmo lar”.

Melhor, orienta a psicóloga, é pensar em algo mais construtivo. “É hora de se unir, usar esse momento para revisitação afetiva da própria família, o que cada um precisa, como cada um está se sentindo…”.

Gina cita o caso de uma paciente que se queixou do marido, que quando chegava em casa se recusava a lavar as mãos, a passar álcool. “Ela contou, chorando, que começou a questionar o amor dele por ela, já que não sentia o cuidado dele com ela. Minha orientação, nesse caso, foi para ela, em vez de culpá-lo, de gritar com ele, ofendê-lo, de sentar e conversar sobre o amor”.

Uma ilha dentro de casa

Mas se a convivência estiver gerando muito desconforto, o que fazer para ninguém surtar e colocar tudo a perder? Tem marido se “escondendo” na própria casa para fugir da companheira. Vale isso?

Gina diz que esse tipo de atitude tem mesmo acontecido. Ela cita o caso de outra paciente que reclamou que o marido se tranca no quarto, onde passa horas e nem responde quando alguém bate à porta.

Nesse caso, diz a psicóloga, o ideal é fazer combinados. “Tem gente ilhado na própria casa. Mas esse tipo de atitude, quando não é acordada, causa certo tipo de repulsa na família. Vale combinar uma ou duas horas de tranquilidade, de relaxamento. Pedir colaboração. Novas regras, novos acordos vão precisar ser feitos para que todo mundo mantenha o equilíbrio, a confiança no outro, a segurança de que estão bem, para que mantenham a saúde mental”.

Boas lembranças à tona

No lugar de mágoas, raiva, impaciência, intolerância, o melhor é tentar colocar sentimentos mais positivos em jogo. “Uma dica que dou é pegar fotos antigas, rememorar episódios positivos, festas, viagens. Trabalhar bons pensamentos, passagens que apontam para dias positivos. Tudo isso pode fazer com que nos reconectemos com o que há de bom na nossa memória e nos ajudará a fazer essa conexão com o outro também. Seja solidário, primeiro consigo mesmo, se acalmando. E depois com as pessoas que estão dentro da sua casa”, sugere Gina Strozzi.

"A gente ainda não teve nenhuma briga", diz miss Brasil 

Vivendo em Goiânia com o marido, o cantor Gabriel Gava, a capixaba Débora Lyra, miss Brasil 2010, empresária e palestrante, diz que os dias de quarentena têm sido desafiadores para os dois. “Estamos juntos há quatro anos, mas tem três anos e meio que moramos juntos. Estamos casados há pouco tempo no papel e nunca passamos mais que 30 dias juntos fisicamente por causa da carreira de ambos. Dou palestra, mentoria, viajo bastante, e ele também, por causa dos shows. A gente fica 15 dias juntos no máximo”, conta ela.

Desde que ouviram falar da quarentena, eles começaram a se preparar para a nova fase mais próxima.

“A gente sabia que a comunicação precisaria ser melhor dentro de casa. Por isso, a gente sentou e conversou. Falei: ‘amor, provavelmente, os dois vão ficar mais estressados. Não é algo normal, para você, principalmente’. Eu já sou mais habituada ao home office. Faz três anos que faço a expansão de uma multinacional americana, o que me possibilita trabalhar dentro de casa. Então, para mim não é nada fora do que eu já era acostumada a fazer. Mas para ele, que sempre estava fora, fazendo show, é algo completamente diferente. Então, precisei ter um pouco mais de paciência, de resiliência, para poder transmitir isso para ele. De dizer que em certos momentos estarei trabalhando, que espero que ele entenda, e que em outros vou poder estar curtindo com ele, assistir a uma série, a um filme… E disse que era para ele aproveitar e estudar mais sobre finanças, que é algo que venho fazendo há bastante tempo”, diz Débora.

Até agora, tem dado certo, garante ela. “A gente não teve nenhuma briga, estamos mais rindo do que tudo. A gente acompanha o noticiário, debate tudo. Ele que está meio que surtando por ter que ficar em casa. Mas a gente dá uma equilibrada, e no final dá tudo certo!”.

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