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Covid Dreams: por que estamos sonhando mais durante a quarentena?

As pessoas têm tido sonhos parecidos, estranhos e sobre morte, dizem pesquisadores brasileiros que estão coletando relatos de pessoas pelas redes sociais

Publicado em 29/05/2020 às 11h59
Mulher dormindo:  sonhos podem ter influência da pandemia
Mulher dormindo: sonhos podem ter influência da pandemia. Crédito: Foto de Kinga Cichewicz em Unsplash

Você tem sonhado muito durante a quarentena? Muita gente tem relatado estar tendo sonhos estranhos e com uma frequência maior. E isso pode ter a ver com a pandemia de coronavírus. É o que alguns cientistas estão buscando entender.

Há estudos que mostram que as pessoas estão tendo sonhos parecidos, com bichos como insetos, vermes e gafanhotos com garras. Para cientistas da Universidade de Harvard (EUA), essas imagens seriam representações do vírus da Covid-19. Eles analisaram 6 mil sonhos de aproximadamente 2,4 mil pessoas desde que a pandemia começou.

Os brasileiros também estão vivendo o que está sendo chamado de Covid Dreams. Um grupo de pesquisadores de cinco universidades federais está coletando relatos de centenas de pessoas, pelas redes sociais, sobre o que andam sonhando neste período.

Tipos de sonhos

Nos cerca de 700 sonhos já registrados há temas parecidos, boa parte deles são ligados à morte, como explica Roselene Gurski, professora do Instituto de Psicologia da UFRGS e do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise.

“Vemos muitos sonhos com o tema das perdas: perda do carro, perda do endereço de casa, perda da memória, perda de pessoas. Ou, ainda, perder-se e não saber voltar para casa, sensação de estar perdido, perda da direção… Pessoas relatam a sensação de andar e não se movimentar…”, cita a pesquisadora.

São sonhos revelam muito a angústia da atual incerteza com os efeitos do coronavírus, com o não saber o que fazer com o vírus. “Tivemos, por exemplo, uma médica de pronto-socorro que sonhou que devia mandar a paciente para casa porque ela ia morrer e não havia o que fazer com ela. Sonhos onde eles não conseguem colocar os EPIs e têm a angústia de poderem infectar os pacientes. Tem um sonho muito interessante de uma médica que sonhou com um professor de ciências da sua vida escolar e voltou à escola no sonho, onde este professor, que era alguém muito considerado por ela, começa uma aula sobre o coronavírus e vai embora no meio da aula, deixando todos com a incerteza sobre a Covid”, descreve Rose.

A professora diz ainda que alguns já relataram se surpreender com sonhar com essas situações de trabalho e disseram que em outros momentos isso não acontecia

O local onde a pessoa vive pode influenciar em quão aflitivos serão esses sonhos, como ressalta o professor Gilson Iannini, do Departamento de Psicologia da UFMG, que integra o grupo.

“Os sonhos variam regionalmente e variam conforme a duração da pandemia. Resultados são ainda preliminares, são impressões gerais. Mas parece que cidades onde a pandemia está sendo mais bem controlada, como Belo Horizonte (MG), que tem um número baixo de óbitos e onde a curva está achatada, não teve pico, os sonhos tendem a tematizar o isolamento, a solidão, circunstâncias ligadas à ‘casa’. São sonhos que estabelecem alguma continuidade com a vida pré-pandemia. As pessoas ligam esses sonhos a seus conflitos pessoais, por exemplo. Já cidades onde a pandemia avançou mais, com maior número de mortos, parecem induzir sonhos mais angustiantes, mais diretamente ligados à morte, numa certa descontinuidade”, observa ele.

Iannini afirma que sim, as pessoas estão sonhando mais, se lembrando mais e falando mais sobre sonhos. Além disso, há vários estudiosos, de correntes teóricas diferentes, debruçados sobre o assunto.

Rose Gurski

Pesquisadora da UFRGS

"Tivemos, por exemplo, uma médica de pronto-socorro que sonhou que devia mandar a paciente para casa porque ela ia morrer e não havia o que fazer com ela."

A pesquisa

Segundo ele, o projeto começou por acaso na sala de aula, antes da pandemia começar.

“Do lado da UFMG, eu estava dando um curso, na pós-graduação em psicologia, cobre a atualidade de ‘A interpretação dos sonhos’, de 1900, de Sigmund Freud, quando veio a pandemia e interrompeu as aulas presenciais. Continuando as aulas remotamente, percebemos um aumento do interesse por sonhos, através das redes sociais”, explica.

Ao mesmo tempo, diz Iannini, grupos da USP e da UFGRS estavam trabalhando sonhos de trabalhadores da saúde e da educação. “O referencial teórico, da psicanálise, nos uniu. Aí a gente desenhou a pesquisa em conjunto. Recentemente, entraram outros pesquisadores e grupos, ligados a UFRJ e à UFRN”.

Na UFRGS, a professora Roselene conta que a pesquisa também começou antes, em 2019, trabalhando com o conceito da oniropolítica. “Já vínhamos preocupados com a qualidade da saúde mental dos brasileiros. O cenário de polarização e de ódio invadindo as relações familiares e sociais vinha, em nossa visão, produzindo muito sofrimento psíquico e empobrecimento crescente das relações em todos os níveis: pessoais, sociais e laborais. Buscamos então os sonhos como elemento inovador que pode trazer novos sentidos e outras percepções e compreensões para os impasses da vida diurna”.

Os sonhos, diz ela, são uma experiência privada, mas também revelam o tempo social e histórico no qual se encontra o sonhador. “As produções do inconsciente não estão isoladas do contexto sócio-histórico em vivemos”.

Quando começou o surto de coronavírus, os trabalhos ganharam novo rumo. “Quando nos deparamos com o cenário da pandemia do Covid-19 e os relatos de que as pessoas estavam sonhando mais, resolvemos estender a pesquisa-intervenção recolhendo sonhos de profissionais da saúde e da educação que estão na linha de frente neste momento social de intensa angústia. Em parte para entender as estratégias psíquicas que estes sujeitos expostos a situações intensas estavam tendo e, em parte, para compreender melhor esta articulação entre o sonho como uma experiência de dupla dimensão privada e pública”, destaca Rose.

A coleta

A coleta dos depoimentos é feita por meio digital. “Temos duas bases de dados: uma na UFMG, outra na UFRGS. A da UFMG trabalha a população em geral. A da UFRGS recebe os dados de trabalhadores da saúde e da educação, mas não apenas médicos ou professores. Isso vale também para todos que trabalham em hospitais, como por exemplo, o pessoal da limpeza”, descreve o professor Iannini.

Os pesquisadores divulgaram o projeto por meio de um flyer nas redes sociais e disponibilizaram um e-mail para contato para quem quisesse participar, com o preenchimento de um formulário.

A escolha por profissionais da saúde e da educação não foi aleatória. “Temos visto que, frente ao novo contexto trazido pela pandemia, áreas vinculadas à saúde e à educação estão ainda mais fragilizadas do ponto de vista da saúde mental. Por um lado, temos profissionais da saúde trabalhando na linha de frente, expondo-se ao risco de vida e, por outro, educadores, de diferentes níveis de ensino, em função do isolamento social, vendo-se no desafio de criar novas maneiras de transmitir e ensinar à distância sem qualquer tipo de respaldo metodológico”, pontua a pesquisadora.

Segundo ela, os sonhos podem chegar por escrito, por voz ou por um contato com um pesquisador através de plataforma online. “Os sonhos podem ser escritos, narrados por mensagem de voz ou, caso o sonhador queira, pode solicitar que um pesquisador faça contato por voz a fim de que narre seu sonho ‘ao vivo’”, explica.

Por que estamos sonhando tanto?

Rose esclarece que em momentos de grandes transformações sociais, políticas, econômicas, em que a vida das pessoas e o cotidiano ficam muito abalados, é normal que a função onírica seja mais convocada.

“As pessoas realmente sonham mais. Os sonhos são mais vívidos, talvez para dar conta do encontro com questões tão difíceis como a morte, a impotência diante de situações para as quais não encontramos solução imediata”.

Nesta primeira etapa da pesquisa, os estudiosos já perceberam que muitos sonhos se repetem. “As pessoas estão sonhando muito com o tema da morte de diferentes formas: aparece o temor de correr riscos, questões de segurança do corpo. Temos vários sonhos, por exemplo, de pessoas do campo da saúde que se dizem muito assustadas nos sonhos, e também fora deles, com a possibilidade de transmissão do vírus para os familiares”, pontua a pesquisadora da UFRGS.

Uma situação como essa, de pandemia, pode ser bem traumática. E a psicanálise explica que é nos sonhos que as pessoas tentam organizar os sentimentos e o entendimento sobre tudo ao seu redor.

“Como tudo é muito novo, o aparelho psíquico é mais solicitado, tem que trabalhar mais para dar conta de processar tudo: os medos, as angústias etc. E os sonhos servem em grande medida pra isso, pra elaborar o que a consciência de vigília não processou, não elaborou. Digamos que é como um computador que tem que analisar dados novos e não tem um software pra isso”, explica Gilson Iannini.

Gilson Iannini

Pesquisador da UFMG

"Como tudo é muito novo, o aparelho psíquico é mais solicitado, tem que trabalhar mais para dar conta de processar tudo: os medos, as angústias etc. E os sonhos servem em grande medida pra isso, pra elaborar o que a consciência de vigília não processou, não elaborou. Digamos que é como um computador que tem que analisar dados novos e não tem um software pra isso"

“São situações que desacomodam o sujeito e requerem uma nova organização mental. São momentos em que o nível de sofrimento psíquico se eleva e o sujeito precisa aumentar, na mesma medida, suas operações de elaboração. Nesse sentido, os sonhos podem, em situações críticas de extremo desamparo e angústia, convocar as operações oníricas. Situações de lutos e perdas importantes para o sujeito podem ser momentos de intensificação da vida onírica. Deste modo, sim, podemos pensar que a pandemia está sendo uma situação traumática, produzindo grandes mudanças no cotidiano das pessoas, com intensas perdas que vão, desde as mortes diárias, até perdas da regularidade do dia-dia - questão que, sobretudo, impacta os traços de identidade do sujeito, como por exemplo, sua rotina laboral e social”, complementa Rose.

Sonhar pode ajudar a lidar com toda essa carga emocional provocada pela pandemia. “O sonho nessas situações funciona como uma espécie de proteção para o psiquismo, ajudando a atenuar os efeitos nefastos de situações críticas, traumáticas e muitas vezes inomináveis. Os sonhos, a partir das articulações imagéticas que produz - ou seja, cenas muitas vezes assemelhadas a uma alucinação -, funcionam como um modo de nomeação para a angústia”, diz ela.

Sono ruim

Muita gente tem relatado, o que também aparece em outras pesquisas, que o sono piorou na quarentena. Uma outra pesquisa divulgada pela UFMG, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Unicamp, com 44 mil pessoas, mostrou que 29% passaram a ter problemas quanto à qualidade do sono e 16% relataram piora nos problemas no sono durante a pandemia.

De acordo com Roselene Gurski, dormir mal também tem relação com o nível de tensão que uma situação como esta gera. “Isso porque é algo totalmente novo para as pessoas, há uma intensa alteração no cotidiano das pessoas, das instituições, dos grupos. Estamos experimentando mudanças nos modos de estarmos juntos, nos modos de encontro, nas formas de desenvolver o trabalho, o dia-dia. Situações nas quais o sujeito se sente em perigo produzem reações semelhantes às reações a uma situação traumática e, muitas vezes, colocam a pessoa em um estado mental de alerta, questão que dificulta o relaxamento necessário para o sono”.

"A realidade parece um pesadelo", diz pesquisador

Iannini reforça que sono e sonhos são intimamente ligados: “Tem gente dormindo pior, mais angustiado. Mas também tem muita gente dormindo mais, acordando com menos pressa. Isso favorece a lembrança. A gente se esquece do sonho quando as percepções atuais (meu reflexo no espelho, a mensagem no celular, outra pessoa falando, uma luz,etc) começam a competir com as lembranças, que vão se esmaecendo. Se você se demorar um pouquinho mais na cama, em silêncio, é provável que tenha mais chance de se lembrar. É claro que tem os pesadelos, que às vezes nos acordam, de tão intensos”.

Mas não é preciso se preocupar com os sonhos. Por mais esquisitos que seja, não significam, necessariamente, que há uma desordem emocional ali.

“Às vezes, é até bom. A gente está elaborando algo que ficou sem lugar. Na psicanálise, chamamos isso de real: algo que excede a nossas formas de simbolizar. Mas há estudos, por exemplo, mostrando como a análise de sonhos pode ter valor preditivo com elevada acurácia, com capacidade de antecipar estados mais graves. De toda maneira, a crise de saúde e a crise política se traduzem nos sonhos. Muita gente tem tido sonhos ruins com Bolsonaro, por exemplo, como os alemães sonhavam com Hitler, bem antes da catástrofe de 1939. A realidade parece um pesadelo”, comenta o professor.

Como participar

Para saber mais sobre os estudos ou participar enviando um depoimento, basta entrar em contato com os pesquisadores pelo perfil no Instagram @sonhosconfinados ou pelo e-mail oniropolí[email protected]

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