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Sem "protagonistas" das últimas eleições, Cariacica encerra ciclo de 20 anos

Desde 2000, somente Helder Salomão, Juninho e Marcelo Santos chegaram ao segundo turno das eleições da cidade. Nenhum deles vai disputar em 2020

Publicado em 09/08/2020 às 07h30
Atualizado em 09/08/2020 às 07h30
Helder Salomão, Juninho e Marcelo Santos: principais lideranças políticas do município temem retorno à instabilidade na cidade
Helder Salomão, Juninho e Marcelo Santos: principais lideranças políticas do município com participação nas últimas eleições. Crédito: Arquivo

Com o anúncio do deputado estadual Marcelo Santos (Podemos) de que não disputaria as eleições em Cariacica em 2020, o município não terá este ano as três principais lideranças políticas da cidade nas últimas duas décadas. O atual prefeito, Geraldo Luzia Júnior, o Juninho (Cidadania), está terminando o segundo mandato consecutivo e não pode se reeleger. Ex-prefeito e deputado federal, Helder Salomão (PT) também decidiu não entrar na disputa. Os três foram os únicos políticos a chegarem ao segundo turno das eleições cariaciquenses desde 2000.

A ausência do trio marca um novo ciclo político na cidade. Por mais que os três afirmem que não ficarão totalmente afastados do pleito e que vão apoiar um dos 20 pré-candidatos a prefeito já declarados, o cenário abre espaço para novas lideranças.

Por mais que tenham sido adversários em outros pleitos, há uma semelhança no discurso dos três: o receio de o município voltar a um período de instabilidade política. Fruto de um crescimento populacional desordenado na segunda metade do século XX, Cariacica viveu um período de violência na política, impeachment e renúncia de prefeitos entre 1980 e 2000.

Desde 1980, somente três prefeitos concluíram seus mandatos: Aloízio Santos (pai de Marcelo Santos e de quem o parlamentar herdou seu capital político), Helder Salomão e Juninho.

De acordo com o historiador e cientista político João Gualberto Vasconcellos, essa instabilidade política no município tem origem na política de erradicação dos cafezais no Espírito Santo, a partir de 1962. Com a queda de preços da saca de café no final dos anos 1950, a União decidiu eliminar os pés de café até que a capacidade produtiva se equiparasse com a demanda. A atividade, que empregava boa parte dos capixabas na época, gerou um grande movimento de pessoas para a Grande Vitória. Próximo à Capital, Cariacica tornou-se a opção para ex-camponeses à procura de emprego.

João Gualberto Vasconcellos

Historiador e cientista político

"Sem qualquer planejamento, Cariacica deixou de ser uma pacata cidade de interior e virou um subúrbio de Vitória. Nessa época começam os primeiros loteamentos clandestinos. A disputa mal resolvida de terras tornou a cidade mais violenta e, com o passar do tempo, acabaram formando-se grupos políticos violentos também"

DÉCADA DE 1980 FOI ÁPICE DA CRISE POLÍTICA EM CARIACICA

Até os anos 1980, dois políticos se alternavam no comando da Prefeitura de Cariacica, Aldo Prudêncio e Vicente Sartório Fantini. Eleito em 1978, Aldo foi assassinado a tiros em 1980, em circunstâncias até hoje não desvendadas pela polícia. Em seu lugar, assumiu o vice-prefeito, Joel Lopes Rogério, que foi morto por dois tiros da própria arma. Apesar das suspeitas de assassinato, a Justiça considerou a morte acidental.

A cidade foi governada pelo então presidente da Câmara, Wagner de Almeida, até a eleição de Vicente Sartório, em 1983. Porém, o novo prefeito pouco ficou no cargo e se afastou após sofrer um derrame. Somente em 1993, com a primeira eleição de Aloízio Santos, é que um prefeito governou durante os quatro anos de mandato.

Em 2000, o então prefeito Cabo Camata morreu em um acidente de carro. Seu vice, Jesus Vaz, assumiu o cargo, mas governou por apenas sete meses até sofrer um impeachment pela Câmara de Cariacica.

Prefeito de Cariacica, Juninho, em entrevista ao Bom Dia ES
Prefeito de Cariacica, Juninho já está no segundo mandato consecutivo . Crédito: Reprodução/TV Gazeta

JUNINHO: “NÃO PODEMOS VOLTAR À ERA DO CORONELISMO”

Para o prefeito Juninho, apesar das carências do município, os últimos 20 anos trouxeram uma harmonia política para Cariacica. Ele acredita que os oito anos de mandato de seu governo e os outros oito anos de Helder Salomão permitiram que as gestões pudessem dar continuidade aos seus projetos.

Juninho foi vice-prefeito na gestão de Helder, mas, quando se disputou a prefeitura pela primeira vez, em 2012, o petista não o apoiou e defendeu a candidatura da então deputada estadual Lúcia Dornelas (PT).

"Olhando para os nomes que estão postos vemos de tudo. Tem bons candidatos, mas tem gente querendo se aproveitar do município e tem aventureiros da política. Mas estamos em um período de oxigenação das lideranças da cidade, nunca concordei com perpetuação de famílias e grupos políticos. Não podemos volta à era do coronelismo. Eu surgi sem o apoio de ninguém, não tinha familiares na política e, de quinto lugar nas pesquisas, consegui ganhar duas eleições", recorda o prefeito.

Assembleia Legislativa
Deputado estadual Marcelo Santos (Podemos) anunciou que não vai disputar desta vez. Crédito: Ellen Campanharo

MARCELO: “FORASTEIROS TROUXERAM PREJUÍZO PARA A CIDADE”

O deputado estadual Marcelo Santos conta que ainda sonha em ser candidato à Prefeitura de Cariacica, mas que resolveu recuar este ano após um conselho do governador Renato Casagrande (PSB), por considerá-lo peça importante da base do governo na Assembleia Legislativa. Para o parlamentar, nenhuma candidatura deve ser desrespeitada, mas é preciso ter cuidado para que o município não retorne a um passado nebuloso.

"Tivemos dois prefeitos na cidade que trouxeram grande prejuízo ao município. Cabo Camata e Vasco Alves (que morreu este ano) não eram da cidade, foram forasteiros que se elegeram para comandar o município e até hoje a sociedade paga a conta que eles deixaram, com financiamentos e empréstimos feitos naquele período", afirma.

Filho do ex-prefeito Aloízio Santos, Marcelo foi vereador (1997-2000) na cidade e eleito cinco vezes deputado estadual (desde 2003), com grande parte dos votos conquistados em Cariacica.

Deputado federal Helder Salomão (PT)
Deputado federal Helder Salomão (PT) foi prefeito de Cariacica por dois mandatos. Desta vez, não quer disputar. Crédito: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

HELDER: "É PRECISO UNIR O CAMPO PROGRESSISTA"

Dos três, Helder Salomão é o único a já definir quem irá apoiar nas eleições. Seu partido, o PT, lançou como pré-candidata a ex-secretária de Educação da gestão de Helder, Célia Tavares (PT). Para o parlamentar, nos próximos meses o número de candidaturas na cidade deve diminuir. Ele aposta na união de partidos, “não necessariamente de esquerda”, do campo progressista, para evitar que candidatos que não respeitam a democracia se elejam na cidade.

"As diferenças engrandecem o debate, mas não podemos ter uma eleição de ódio e ignorância. Acreditamos em um cenário de alianças no município, temos uma boa relação estadual com o PSB, queremos intensificar nossas conversas com o PCdoB, PDT e PSOL. Se tiver um cenário de ameaça à democracia, nós vamos nos posicionar", afirma.

Vereador em 1992, Helder perdeu a eleição para prefeito em 2000 para Aloízio Santos. Foi eleito deputado estadual em 2002  e prefeito em 2004 e 2008. Está em seu segundo mandato como deputado federal.

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