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Capitã Estéfane, vice de Pazolini: "Para haver Segurança é preciso Educação"

Militar desde os 18 anos, Capitã Estéfane (Republicanos) terá a carreira encerrada assim que for diplomada como vice-prefeita de Vitória. Ela diz, ainda, que para melhorar a área da Segurança é preciso também "um tecido social bem assistido"

Publicado em 05/12/2020 às 06h00
Atualizado em 05/12/2020 às 06h00
Capitã Estéfane, vice de Lorenzo Pazolini, prefeito eleito de Vitória
Capitã Estéfane, vice-prefeita eleita de Vitória . Crédito: Carlos Alberto Silva

Estéfane da Silva Franca Ferreira, de 29 anos, a Capitã Estéfane, conheceu o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Repubublicanos) em setembro, pouco antes, portanto, das eleições de 2020, na mesma época em que se filiou ao partido dele. Os dois disputaram o pleito lado a lado. Ela, como vice. Os dois se conheceram por meio de um amigo em comum.

Apesar de levar no nome de urna a palavra "capitã", assim como Pazolini usou "delegado", a vice-prefeita eleita diz que a pauta da segurança pública não será exclusividade na gestão dos dois e precisa contar com outras áreas, como educação e assistência social. "Para haver segurança é necessário haver educação, um tecido social bem assistido, bem coeso e em funcionamento", enfatiza.

Estreante nas urnas, Capitã Estéfane afirma que vai atuar em conjunto com Pazolini e será uma vice com papel ativo. Ela conta, em entrevista para A Gazeta, que, por ora, não tem pretensão em ser secretária em alguma das pastas da administração municipal.

Militar desde os 18 anos, Capitã Estéfane encerrará a carreira assim que for diplomada no cargo eletivo. Ela vai passar à reserva remunerada, com aposentadoria proporcional, e não poderá mais voltar à instituição, pois, de acordo com a legislação, militares da ativa não podem exercer atividades político-partidárias. A jovem que viu a Polícia Militar como uma oportunidade de ingressar no mercado de trabalho e de ascensão social trilha, agora, um novo caminho.

Como foi a sua trajetória até aqui?

Nasci em 1990 na cidade de Conselheiro Pena, em Minas Gerais. Sou filha de um ajudante de pedreiro e de uma faxineira. Vim para Vitória com menos de um ano de idade e passei toda a infância e adolescência na região de São Pedro III. Estudei na EMEF Maria José Costa Morais e na EEEFM Elza Lemos Andreatta, escolas públicas de Vitória. Atualmente, sou capitã da polícia, casada há oito anos e mãe de um menino de 1 ano e 8 meses.

A senhora se considera uma pessoa religiosa? Avalia que valores religiosos devem influenciar na gestão pública?

Me considero uma pessoa que tem uma visão de espiritualidade. Professo a fé cristã e congrego hoje na Assembleia de Deus Fonte de Vida. Nossa formação de valores compõe a nossa personalidade e as nossas atitudes. Porém, existe uma diferenciação entre postura privada e pessoal e nossa postura profissional. Quando se destina a uma função pública, temos que agir em coerência com essa função. Não podemos pensar em nossa individualidade, e sim no coletivo.

Como foi sua inserção na vida militar? Agora que está como vice-eleita, o que será de sua carreira?

A Polícia Militar foi uma oportunidade, uma porta de emprego. Eu ingressei com 18 anos como soldado. Foi o primeiro concurso que prestei e fui aprovada. Tive essa oportunidade e a abracei. Percebi que era uma boa carreira. Com 21 anos, fiz o Curso de Formação de Oficiais (CFO) e me tornei oficial da polícia aos 23 anos. O ofício contribuiu muito com a formação da minha visão de mundo. Sempre trabalhei em Vitória e pude conhecer a região, principalmente a realidade das áreas menos assistidas. Tem muita comunidade onde a presença do Estado se faz quase que exclusivamente pela Polícia Militar. Pude, com isso, ter uma percepção do que a cidade precisa, das necessidade sociais das comunidades. Foi um complemento para minha visão de mundo, para o meu conhecimento e para as perspectivas que tenho hoje para a cidade de Vitória. Assim que eu for diplomada, minha carreira militar será encerrada, porque existe uma incompatibilidade de função. A legislação não me permite retornar para a atividade militar. Há o encerramento da carreira.

Capitã Estéfane, vice de Lorenzo Pazolini, prefeito eleito de Vitória
Capitã Estéfane, entrou para a Polícia Militar aos 18 anos e, assim que for diplomada, vai encerrar a carreira. Crédito: Carlos Alberto Silva

Como foi a inserção na política? Já conhecia Pazolini?

Sempre busquei participar da política como cidadã. Porém, me colocar à disposição para ser eleita foi a primeira vez. Nunca tive essa oportunidade antes de me candidatar. Eu me filiei ao partido em meados de setembro deste ano, logo que aceitei a proposta de me candidatar a vice-prefeita. Eu não o conhecia, mas nós tínhamos um amigo em comum e esse amigo me sugeriu para compor a chapa. Eles fizeram uma avaliação do meu currículo e da minha história de vida e entenderam que eu seria uma pessoa adequada para caminhar com ele. Eu demorei um tempo analisando o convite, ponderando para tomar essa decisão e aí entendi que seria uma decisão acertada. Desde então, começamos a caminhar juntos.

Como é a relação com o prefeito eleito da Capital?

Nossa relação é muito amistosa, profissional. Estamos nos conhecendo. Ele sempre me dá participação em todos os eventos, todas as decisões. Desde que cheguei, tenho participado do processo e me sinto muito incluída. Ele sempre faz questão de me ouvir e tem sido uma relação bastante positiva profissionalmente falando e isso vai contribuir muito para a qualidade do nosso serviço a partir de agora.

Como avalia o resultado da eleição e de que forma, enquanto vice, acredita ter contribuído?

Nada se constrói sozinho, cada um tem o seu papel importante no processo de construção, principalmente em algo como a candidatura para prefeito de Vitória. Acredito que minha participação contribuiu com a vitória dentro do que foi proposto, agreguei com pessoas que conhecia, com pessoas que gostaram da minha história de vida e acreditaram no meu currículo e na minha capacidade profissional. Acredito que foi um projeto conjunto e positivo. Vejo tudo como um processo democrático, as pessoas optaram, escolheram, compararam e nos confiaram esse voto para que possamos fazer um trabalho que elas deram a credibilidade. Mesmo sendo jovens, tanto ele, quanto eu, as pessoas viram em nós esse potencial. Queremos retribuir à altura com um projeto correto, sério e que possa atender as expectativas e anseios da população.

Qual papel a senhora desempenhará na gestão?

O vice é o substituto imediato do chefe do Executivo. A importância é crucial. É a pessoa que está ali ao lado, na tomada de decisões, que está representando e que participa de todo processo, porque é muita demanda para uma pessoa apenas. Já tive uma experiência, mas bem menor. Dentro do Batalhão, eu percebo que o subcomandante, no caso, é mais ou menos o que um vice faz. Em uma estrutura hierárquica, ele tem um papel crucial, papel de conexão e de interação com toda a equipe de trabalho. É um papel de conexão, de interação. É uma pessoa que está ali disponível para agregar. E se o vice executa esse trabalho bem feito, fica bem mais fácil para o líder fazer as outras atribuições externas ou ter mobilidade de conseguir planejar da forma apropriada.

Há possibilidade de a senhora comandar alguma secretaria?

Nós ainda não temos isso definido. Estamos ainda analisando, observando.  Nós ainda vamos sentar e decidir juntos o que será melhor para o município.

A senhora se insere em qual espectro político?

Nosso partido é centro-direita e representa valores que são importantes para a sociedade brasileira e capixaba e tem muitas coisas que são bem alinhadas com a minha forma de pensamento. É claro que existem coisas em outras filosofias que são positivas e admiráveis e nós não temos nenhum radicalismo quanto a isso. Mas, eu me sinto confortável nessa posição do partido que é centro-direita.

O que um delegado e uma capitã de polícia têm de diferente para exercerem os cargos de prefeito e vice-prefeita em uma capital?

Uma capital como Vitória, que sempre teve problemas com a segurança pública que assolam a nossa cidade há vários anos, eu acredito que é algo muito positivo termos um delegado e uma capitã de polícias na gestão. É uma experiência das duas forças estaduais da segurança pública que desempenham um trabalho no Espírito Santo acima de qualquer depreciação, é claro que existem aspectos negativos, mas isto existe em qualquer instituição: onde há pessoas, existem erros. De forma geral, o trabalho dessas polícias tem sido bem feito. Claro que não vamos ter uma visão exclusivamente de segurança pública. Mas o fato de termos essa noção de como as coisas são na prática vai contribuir muito, não só para a segurança em si, mas para os investimentos nas outras áreas. Porque para haver segurança é necessário haver educação, um tecido social bem assistido, bem coeso e em funcionamento. Então, isso vai interferir em todas as áreas da nossa gestão, mas não focado exclusivamente na segurança em si.

Considerando sua trajetória e  história, quais são as bandeiras que defende e quais acha importante a prefeitura atuar?

Não defendo uma bandeira específica hoje, não defendi na campanha e ainda não construí esse caminho. A minha história de vida ela já fala por si. Superação, esforço, dedicação, trabalho e estudo. E, a partir disso, nós vamos construir um trabalho holístico. Claro que eu vou ter um olhar sensível para a questão das mulheres, para a questão da segurança, para a questão social. Mas acho que é muito precipitado para se dizer uma bandeira. Isso tudo ainda será construído até a partir da minha experiência política que acabou de iniciar.

Qual sua reflexão em se perceber como uma mulher jovem, negra, de origem popular e ser a primeira mulher negra a ocupar a cadeira de vice-prefeita na Capital?

Acho que é uma queda de paradigma ser a primeira mulher negra nesta posição. E é uma coisa positiva, não apenas para mim, mas para todas as pessoas que se sentem representadas por mim. Pelas mulheres negras, mas não só mulheres, pelas pessoas negras, pelas pessoas da periferia, pelas pessoas que se esforçam para trabalhar e ganhar a vida honestamente. Para mim, é uma satisfação e eu vejo como uma quebra de paradigmas e como algo muito positivo. É algo histórico, então me sinto muito feliz de poder representar todas essas pessoas.

Quais são suas perspectivas para os próximos quatro anos?

Sempre busquei aproveitar as oportunidades. Entrei na polícia porque foi uma oportunidade, a faculdade era um sonho, mas, também dependeu de oportunidades, e hoje entrar na política também foi uma oportunidade que surgiu e entendi que deveria aproveitá-la. Como fiz até aqui, busco me dedicar e apresentar o máximo possível de resultado, porque quando a gente abraça uma causa a gente precisa estar envolvida com ela. Então, as minhas perspectivas para esses próximos anos é realmente de contribuir, somar, agregar, para que a gente possa fazer um trabalho satisfatório que dê às pessoas esse sentimento de terem sido honradas.

*Lorraine Paixão é aluna do 23º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob supervisão da editora Samanta Nogueira.

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