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Candidatos negros são maioria no ES, mas em menor número na disputa a prefeito

Pretos e partos representam 52 % dos concorrentes ao pleito municipal deste ano. Contudo, eles correspondem a apenas 29% dos candidatos a prefeito nas 78 cidades do Espírito Santo

Publicado em 30/09/2020 às 16h54
Em 2016 representavam 49% e em 2020 são 52%
Candidatos negros são maioria nas eleições deste ano. Crédito: Freepik

Maioria no Espírito Santo, os negros correspondem a 62% da população capixaba, de acordo com o IBGE. Mas em 2020 eles estarão também em maior número nas urnas, com 6.433 candidatos, ou seja, 52% dos concorrentes no pleito municipal. São 1.300 candidaturas a mais em relação a 2016, o que representa um crescimento de 25%. Os dados foram extraídos do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 16h30 de terça-feira (29).

Mesmo com o aumento de negros entre os candidatos, eles ainda estão sub-representados no pleito. Isso fica evidente na disputa pelo comando das cidades. Esse espaço ainda é dominado por brancos, que representam 69% dos candidatos a prefeito este ano. Pretos e pardos correspondem a apenas 29% dos nomes que vão concorrer às prefeituras em novembro.

As eleições de 2020 tiveram recorde de inscritos em todo o país. No Espírito Santo, 12.271 candidaturas foram postas, de acordo com o TSE. Comparado à última eleição, quando 10.462 candidatos disputaram o pleito, houve um aumento de 1.800 concorrentes, sendo 70% deles negros.

Dos mais de 12 mil nomes que vão estar nas urnas deste ano, 1.544 se autodeclararam pretos e 4.889 pardos (juntos, pretos e pardos são considerados negros segundo classificação do IBGE). 5.421 são brancos e representam 44% das candidaturas. Em 2016, eles correspondiam a 50% dos nomes nas urnas.

Outros 417 candidatos se declararam indígenas, amarelos ou não informaram a cor/raça.

Desde que o TSE passou a coletar informações de raça, em 2014, os candidatos brancos não representam a maioria dos concorrentes em uma eleição. Em 2016, a diferença entre raças foi de menos de 1%, com 5.133 candidaturas negras e 5.264 brancas.

O aumento do número de negros na política já vinha sendo observado há pelo menos duas eleições, segundo o cientista social e pesquisador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) da Ufes João Victor da Penha Santos. Em 2016, inclusive, pretos e pardos que concorreram a uma cadeira de vereador já eram maioria no Espírito Santo, somando 4.982 candidatos. Os brancos representaram 4.856 dos nomes na disputa.

Essa representatividade, segundo João Victor, tem sido impulsionada principalmente por movimentos negros, que ganharam força após o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, no Rio de Janeiro, e atos antiracistas neste ano, decorrentes da violência policial que causou a morte do americano George Floyd, repercutindo no Brasil.

“Esses movimentos abriram espaço para que a gente pudesse ter mais negros na política e levaram os partidos a ter mais compromisso com essa discussão, lançando mais candidaturas negras, fazendo parcerias para compor chapas”, comenta.

Mas o cientista alerta para a dificuldade em viabilizar candidaturas negras. Mesmo com o aumento do número de candidatos, negros continuam não ocupando cargos de poder.

João Victor dos Santos

Cientista social

"O problema não está no recrutamento político, os partidos estão filiando negros. Mas esse número não resulta em candidatos eleitos. O problema está nas condições eleitorais que hoje não são as mesmas para negros e brancos"

Recentemente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski determinou que os recursos do fundo eleitoral sejam distribuídos de forma proporcional à quantidade de candidaturas negras. A decisão ainda tem caráter liminar para este ano, ou seja, é provisória, mas deve ampliar o financiamento da campanha de candidatos negros, que muitas vezes não têm acesso a essa verba pública.

MULHERES NEGRAS SÃO MINORIA

Quando o recorte racial é feito por gênero, as mulheres pretas e pardas são minoria, correspondendo a 34% dos candidatos negros este ano. Os homens negros representam 66% e são quase o dobro do número delas. Eles somam 4.464 dos nomes das candidaturas negras e elas são 2.169.

Mas quando comparadas com candidatas brancas, que somam 1.770 nomes, o número de mulheres negras é maior no pleito de 2020. 52% das concorrentes são pretas ou pardas e 43% brancas. Em 2016, a diferença era pequena, de apenas 13 candidaturas, mas as mulheres brancas ainda ocupam o maior espaço na disputa.

O mesmo é verificado em relação a homens negros, que nas últimas eleições eram minoria, correspondendo a 48% dos candidatos do sexo masculino. Em 2020, porém, eles representam 51% dos concorrentes. Já os brancos são 44%.

BRANCOS DOMINAM DISPUTA POR PREFEITURAS

Apesar do aumento de candidaturas negras este ano, ainda há sub-representação em cargos de comando. Dos 6.433 candidatos pretos e pardos que vão disputar as eleições, mais de 96% deles, isto é, 6.197, concorrem ao cargo de vereador. Menos de 2% disputam o pleito para prefeito.

Em eleições municipais, é esperado que o número de candidatos à Câmara municipal seja maior do que à prefeitura. Isso acontece também com candidaturas brancas, que possuem 4.921 concorrentes em 2020.

No entanto, a sub-representatividade de negros na disputa pelo comando das cidades é explicada ao se analisar a cor da pele dos candidatos a prefeito e até mesmo daqueles compõem chapas como vice. Dos 373 candidatos a prefeito, 259 são brancos e apenas 109 são pretos ou pardos. Ou seja, os negros representam apenas 29% das candidaturas à chefia do Executivo municipal. Para a vaga de vice, há 241 brancos e 127 negros.

“A viabilização de candidaturas majoritárias (para prefeito) requer uma certa penetração de nomes nos partidos, já consolidados internamente. E é muito difícil um candidato negro conseguir isso”, afirma João Victor dos Santos.

"A maioria dos partidos é dirigida por homens brancos, que não possuem ações afirmativas para que pretos e pardos também ocupem esses cargos de direção e liderança e se tornem competitivos em uma disputa para prefeito", complementa o pesquisador da Ufes.

Em reportagem recente, A Gazeta mostrou a resistência de partidos em lançar candidatos negros a prefeito. Em conversa com dirigentes partidários, poucos conseguiram citar nomes de pretos ou pardos que concorreriam ao cargo majoritário no pleito deste ano. Em 2016, o número de candidatos negros aa prefeitura foi de 26%. Naquele ano, apenas 14% foram eleitores.

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