> >
Foragido no Rio, Marujo só voltou ao ES para manter controle do tráfico

Foragido no Rio, Marujo só voltou ao ES para manter controle do tráfico

O traficante Fernando Moraes Pereira Pimenta acabou se expondo e foi preso na manhã desta sexta-feira (8), em um esconderijo na casa do pai, em Vitória

Publicado em 8 de março de 2024 às 18:39

Ícone - Tempo de Leitura 7min de leitura

Com mandado de prisão desde 2017, Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo, ficou foragido, por um longo período, no Rio de Janeiro. Mas, há pouco mais de quatro meses, o líder do Primeiro Comando de Vitória (PCV) voltou à Capital para manter o controle do tráfico de drogas de perto. A decisão dele, segundo a polícia, visava marcar território frente aos avanços dos "Irmãos Vera", pertencentes a uma facção rival — o Terceiro Comando Puro (TCP). Com o retorno, acabou se expondo, o que possibilitou a atuação policial que o levou à cadeia nesta sexta-feira (8)

O delegado Romualdo Gianordoli, superintendente de Polícia Especializada, disse que Marujo ficou muito tempo no Complexo da Penha, no Rio. Por lá, se valia de uma certa segurança. Até que, em meados de outubro do ano passado, foi deflagrada uma guerra do tráfico em Vitória, incitada pelo próprio Marujo, do PCV e TCP. O conflito, afirma o delegado, ocorria principalmente entre traficantes do Bairro da Penha e Itararé, mas com repercussão em todo o Estado. 

"Então, ele teve que vir para gerenciar in loco essa guerra e se expôs minimamente, mas foi o que nós precisávamos. Precisávamos monitorar e esperar uma janela de oportunidade. É um trabalho de paciência, de determinação, vontade, e essa janela de oportunidade chegou hoje (sexta-feira)", ressaltou Romualdo Gianordoli. 

Foragido no Rio, Marujo só voltou ao ES para manter controle do tráfico

Apontado como o criminoso mais procurado do Espírito Santo, Marujo foi preso na manhã desta sexta (8) em um esconderijo — uma espécie de bunker — na casa do pai dele, no bairro Bonfim, em Vitória. Conforme informações divulgadas pela Polícia Civil, o espaço dispunha de tecnologia para abrir e fechar e ainda contava com um cilindro de oxigênio para auxiliar a respiração. No local, o traficante permanecia armado com um fuzil.

Guerra 

Um dos episódios dessa guerra foi registrado no início de outubro, quando duas pessoas foram baleadas durante um ataque de traficantes em Santos Dumont, em Vitória. Os bandidos já chegaram ao local atirando. Uma mulher de 40 anos, que estava em um churrasco na rua, foi atingida. Um motoboy, morador do bairro, estava saindo para trabalhar e também foi alvejado. Por lá, foram encontradas 39 cápsulas de fuzil e mais de 50 cápsulas de pistola.

A Polícia Militar chegou a perseguir os criminosos até a região de Tabuazeiro, também na Capital, mas eles abandonaram o carro em que estavam e conseguiram fugir para o Morro do Macaco. Deixaram para trás uma pistola de calibre 9mm de Israel, que foi apreendida. 

Na noite de 18 de outubro, moradores do Morro do Macaco passaram por momentos de terror devido a mais um confronto entre grupos rivais do tráfico. Um homem foi baleado e um dos projéteis quebrou o vidro da janela de uma casa em Tabuazeiro. Já na madrugada do dia 19, mais disparos, só que desta vez entre o Bairro da Penha e Itararé. 

Na madrugada seguinte (20), novo ataque do tráfico: suspeitos atiraram mais de 200 vezes no bairro Santos Dumont. Dois carros foram atingidos e os moradores chegaram a encher as duas mãos com as cápsulas que ficaram para trás (inclusive de fuzil). Pela manhã, mais tiros, desta vez em Tabuazeiro. Seriam os traficantes disparando para o alto, em comemoração ao ataque da madrugada. 

Baixa no tráfico

Na guerra do tráfico, o TCP teve uma importante baixa também em outubro: a prisão de um dos "Irmãos Vera", apontados pela polícia como chefes do tráfico dos bairros Itararé, Cruzamento, Conquista e Tabuazeiro. Gabriel Gomes Faria, o Buti, que figurava na lista de um dos bandidos mais procurados do Espírito Santo, foi detido na noite do dia 24 daquele mês, em Itararé. Segundo o coronel Alexandre Ramalho, secretário de Estado da Segurança à época, Gabriel havia saído do Rio e estava em Vitória especificamente para orquestrar ataques. 

"Os irmãos estão envolvidos diretamente na guerra do tráfico de Vitória, que se estende por vezes no interior. Articulam inúmeras ações com presos do sistema prisional. São criminosos contumazes que trazem esse transtorno imenso para a segurança pública do Estado", frisou Ramalho, após a prisão de Gabriel. 

O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Douglas Caus, acrescentou que o traficante e outros três criminosos presos com ele planejavam atacar o PCV no Bairro da Penha, em Vitória. Antes da prisão, eles chegaram a trocar tiros com os policiais. 

Conforme informações da polícia, Gabriel é um dos líderes do TCP, facção rival do PCV, ambas em disputa para tomar o controle do tráfico de algumas regiões. A guerra entre traficantes se estende para além dos limites de Vitória, em cidades que também lidam com a presença de facções.

Exatamente um mês depois, outro "Irmão Vera" foi preso.  Luan Gomes Faria, o Kamu, foi surpreendido na casa em que estava escondido, em Nova Palestina, Vitória, bairro que não era sua área de atuação para que, segundo Romualdo Gianordoli, conseguisse passar despercebido. Ele nem saía da residência, onde havia chegado uma semana antes na intenção de recolher dinheiro do tráfico. 

"Há anos ele fica mais tempo no Rio de Janeiro (Complexo da Maré) do que aqui. Daí ele veio em decorrência dessa guerra do tráfico: veio pegar um bom dinheiro, estava fazendo o 'recolhe', que é quando passam em várias bocas de fumo para pegar dinheiro. Não era ele a pessoa que passava nas bocas. Ele não saía da casa. Mas ele iria levar um bom dinheiro para a Maré, já que lá pagava semanalmente uma taxa para o tráfico local, para ficar escondido", ressaltou o delegado à época. 

Por meio de levantamentos, a polícia localizou a casa em Nova Palestina e passou a monitorar os veículos usados pelos seguranças de Luan, já que ele não saía de casa.

"Durante a prisão, esperávamos que ele estivesse com seguranças. Assim que adentramos a residência, ele estava sozinho, o que nos causou estranheza e também nos alertou. Quando estávamos saindo da casa, cruzamos com um dos veículos monitorados e começou uma perseguição. Quando esses indivíduos se aproximaram de uma região de mangue, eles desembarcaram e efetuaram disparos. Um deles fugiu, mas conseguimos prender duas pessoas", contou o delegado Alan Andrade, do Centro de Inteligência e Análise Telemática (CIAT), na ocasião. 

Quando disse que Luan estava sozinho, o delegado se referiu a outros criminosos, mas havia cerca de sete pessoas na casa, entre elas uma criança. "No local tinha um fuzil de calibre 762 com sete carregadores, 218 munições, uma arma exposta para todo mundo ali, muito perigoso", salientou Andrade.

Além de bairros de Vitória, Luan também era apontado como chefe do tráfico de Nova Almeida, na Serra, e de municípios do interior. Dos irmãos, Bruno Gomes Faria, o Nono, permanece foragido. O nome dado ao grupo é em homenagem à mãe dos três. 

Na época das prisões, o coronel Alexandre Ramalho afirmou que a guerra do tráfico entre as facções se acirrou após um racha. "O TCP de Vitória tem ligação com o do Rio de Janeiro e o PCV com o Comando Vermelho, também do Rio de Janeiro. Embora essa guerra no Rio seja muito forte, aqui eles conviviam pacificamente. Em determinado momento, eles romperam por questões do tráfico, desavenças entre eles, e estourou essa guerra que a gente tem acompanhado."

Quem é Marujo

Marujo é o chefe do tráfico de drogas do Bairro da Penha e Bonfim, na Capital. Ele responde diretamente à cúpula da liderança do PCV, facção que comanda a região e se estende a vários bairros – não só na Grande Vitória como no interior do Estado. O delegado Romualdo Gianordoli explicou que o criminoso coordenava a base do Primeiro Comando no Território do Bem, que corresponde ao Bairro da Penha e adjacências, além de outros municípios como Aracruz, Linhares, Vila Velha, Serra.

Como a cúpula da facção está na cadeia, Marujo, que estava do lado de fora, colocava em prática as ordens dos líderes. No Rio de Janeiro, ele ficava escondido dentro de áreas comandadas pelo Comando Vermelho (CV), grupo com quem o Primeiro Comando de Vitória é aliado.

Marujo tinha seis mandados de prisão em aberto (2019, 2020, 2021, 2022 — um em cada ano — e dois em 2023), conforme dados do portal do Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP), por diversos crimes: homicídio qualificado, tráfico de drogas, associação ao tráfico, organização criminosa e corrupção de menores.

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

Tags:

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais