Um adolescente de 16 anos, apreendido durante a Operação Desconectado realizada nesta quarta-feira (4), é apontado pela Polícia Civil como líder e fundador de um grupo criminoso digital que promovia cenas de extrema violência psicológica e física contra crianças e adolescentes. A atuação ocorria principalmente em plataformas como Discord e Telegram, com vítimas em diferentes estados do Brasil e também no exterior.
A forma como o adolescente agia foi detalhada em coletiva de imprensa realizada na tarde desta quinta-feira (5). O nome dele e o bairro onde morava não estão sendo divulgados em conformidade ao Estatuto da Criança e do Adolescente (Ecriad).
Segundo o chefe da Divisão de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Diccor), delegado Tarik Halabi Souki, o adolescente era um dos principais "oradores" do grupo chamado Panela 466. "Ele era uma liderança e fundador de um grupo no Discord chamado Panela 466. A função dele ali era ser um dos oradores principais desse teatro de horrores", afirmou.
Transmissões ao vivo e ordens de violência
De acordo com a investigação, o grupo realizava transmissões ao vivo em que o adolescente dava ordens diretas para que vítimas praticassem automutilação. As pessoas eram orientadas a usar facas, estiletes, pedaços de vidro e outros objetos cortantes. "Após os cortes, ele ordenava que elas pegassem o próprio sangue e escrevessem o nome dele no corpo, na parede, no teto, no vidro, espalhando o nome dele e do grupo Panela 466", relatou o delegado.
Ainda segundo Tarik, havia também incentivo à introdução de objetos cortantes nas partes íntimas e a transmissão e compartilhamento de material pornográfico infantil durante as sessões.
Maus-tratos e tortura de animais
A polícia também apurou a prática sistemática de maus-tratos contra animais durante as transmissões. "Em alguns momentos, a gente escutava só os animais gritando, os barulhos, os ruídos dos animais sendo maltratados. Também tinha lives deles mutilando e executando os animais", afirmou o adjunto da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), delegado Tarsis Gondim. Segundo a corporação, o próprio adolescente confessou agir dessa forma desde os 12 anos.
Aliciamento e chantagem
O delegado Tarsis Gondim explicou ainda que o adolescente se aproveitava da vulnerabilidade emocional das vítimas. "Geralmente ele se aproximava de meninas com problemas psiquiátricos, neurodivergentes ou isoladas. Em algum momento, pedia nude e depois usava isso como chantagem", afirmou. As ameaças incluíam ainda o envio do material para familiares das vítimas.
As transmissões tinham hora marcada e reuniam dezenas ou até centenas de pessoas. O delegado Tarik relatou que o pessoal entrava como se fosse uma programação ao vivo. A investigação indica que o grupo tinha alcance internacional. Segundo o delegado, pessoas do mundo inteiro participavam e o apelido do adolescente era conhecido globalmente.
Vida fora do ambiente virtual
Fora da internet, o adolescente levava uma vida discreta e agia sem levantar suspeitas. "Ele trocava o dia pela noite, ficava no terceiro andar da casa mexendo nos aparelhos. A mãe trabalhava o dia inteiro e não conseguia monitorar", explicou Tarsis Gondim.
Segundo o delegado, a mãe chegou a desconfiar, mas não imaginava a gravidade. "Ela achava que era pornografia normal, coisa de adolescente. Não sabia que era nesse ponto", afirmou.
Apreensão e investigação
Durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão, a polícia recolheu celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos. "Já fizemos uma análise prévia e há vasto material dessa degradação humana armazenado", disse Tarsis.
O adolescente foi encaminhado ao Centro Integrado de Atendimento Socioeducativo (Ciasi) e responderá por atos infracionais análogos à organização criminosa, maus-tratos a animais, armazenamento e difusão de pornografia infantil, entre outros crimes. O caso tramita sob segredo de Justiça.
Adolescente é apreendido durante a Operação Desconectado contra crimes digitais
A Polícia Civil reforça a importância da denúncia por meio do Disque-Denúncia 181. “Não é porque o filho não está na rua que ele está seguro. A internet abre portas para um mundo muito perigoso”, alertou o delegado.
A reportagem de A Gazeta procurou pelas plataformas do Telegram e Discord e o espaço segue aberto para um posicionamento.