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“Apanhou de estuprador”: chacota estimulou assassinato de Dante Michelini

“Apanhou de estuprador”: chacota estimulou assassinato de Dante Michelini

Autor do crime relatou à polícia ter sido zoado por apanhar de um "jack" – gíria para quem comete estupro; denunciado pela morte de Araceli no início dos anos 1970, ele acabou inocentado na década de 90 por falta de provas

Mikaella Mozer

Repórter / [email protected]

Publicado em 11 de fevereiro de 2026 às 19:28

Vista área da propriedade de Dantinho Michelini
Vista área da propriedade de Dantinho Michelini Crédito: Google Earth

A crueldade empregada no assassinato de Dante Brito Michelini, de 76 anos, teria sido estimulada por uma chacota sofrida pelo autor dias antes do crime. A informação foi detalhada pelo chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), delegado Fabrício Dutra, durante coletiva nesta quarta-feira (11). O nome dele não foi divulgado, mas o repórter Caíque Verli, da TV Gazeta, apurou que se trata de Willian Santos Manzoli, de 28 anos.

Segundo o delegado, o crime ocorreu na noite do dia 19 de janeiro. “Entendemos que foi do dia 19 para o 20, mais precisamente no dia 19. Ele detalhou como chegou, como adentra, como encontra o Dante, o que fez, como assassina e arranca a cabeça. Também como ele pega e sai com ela para Guarapari, no mercado central, onde ele joga a cabeça”, afirmou.

As investigações apontaram que o autor do crime invadiu o sítio de Dante Michelini para dormir, mas foi descoberto e expulso sob golpes de madeira. Por esse motivo, o suspeito acabou sendo ridicularizado em uma boca de fumo. “As pessoas começaram a fazer chacota dele por que ele levou surra de um 'jack,' um estuprador”, disse. Ainda segundo o delegado, Willian teria decidido retornar ao imóvel para "se justificar perante ao tráfico" e ganhar moral.

Dantinho, como sempre foi conhecido, era de uma influente família do Espírito Santo no início dos anos 1970, quando foi denunciado pelo Ministério Público à Justiça pelo desaparecimento, estupro e morte de Araceli Cabrera Crespo, de 8 anos. Na década de 1990, foi absolvido sob a justificativa de falta de provas.

Dinâmica e violência

Chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), delegado Fabrício Dutra
Chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), delegado Fabrício Dutra Crédito: Farley Sil

A investigação aponta que o suspeito já estava se escondendo na propriedade dias antes. O terreno tem cerca de 51 mil metros quadrados e possui construções em estado de quase abandono. Ele contou ainda que o autor entrou na propriedade utilizando ferramentas. “Ele falou que usou alicate para entrar na propriedade. A grade havia sido contada recentemente mesmo”, disse o delegado.

No dia do crime, houve luta corporal. O delegado afirmou que o suspeito é praticante de capoeira e se utilizou das habilidades de luta para derrubar e imobilizar Dante. Dutra descreveu a ação como extremamente violenta. “Ele é uma pessoa perigosa e não é uma pessoa que fez sem pensar: ele é violento, um perfil de extrema violência”, afirmou.

Após decapitar a vítima, a polícia apurou que o suspeito percorreu parte do trajeto até a região central de Guarapari utilizando uma bicicleta. Segundo o delegado, ele conhecia bem a área e, no caminho, encontrou um usuário de drogas, a quem entregou “duas buchas” de maconha em troca pelo veículo. Depois ele seguiu pedalando até o ponto onde fez o descarte da cabeça. Após abandonar o membro, Willian devolveu a bicicleta. 

Deu errado

Ainda conforme o delegado, após levar a cabeça em uma sacola, o suspeito a retirou e arremessou no canal de Guarapari. Na primeira tentativa, porém, a cabeça teria boiado. Ele então entrou na água, a pegou novamente e amarrou com arame a uma pedra antes de fazer um novo descarte, desta vez afundando. O membro foi localizado por mergulhadores dos Bombeiros a cerca de quatro metros de profundidade.

Dutra destacou que, apesar do avançado estado de decomposição do corpo — encontrado apenas no dia 3 de fevereiro —, existem indícios de sofrimento extrema. “A putrefação é grande, mas podemos afirmar que ele sofreu muito. Teve a cabeça cortada. Ele fez coisas com a vítima que pode se comparar a tortura”, disse.

O delegado ainda relatou comportamentos do suspeito após o crime. “Ele retorna depois que vai na região central, ele volta na casa senta ao lado do corpo e fumou. Ele ainda urinou na cabeça”, afirmou.

O suspeito foi preso no dia 28 de janeiro por descumprir uma medida protetiva expedida na Bahia, relacionado à Lei Maria da Penha. A partir do cruzamento de informações sobre furtos na região, investigadores chegaram ao nome dele. “Tivemos a informação que um homem que tava na região entrando em casas, fazendo furtos, e estava na cadeia. Era uma informação boa para chegar no autor porque na data do crime ele estava na região”, explicou Dutra, citando que Willian possuía feridas nas mãos e marcas das pauladas desferidas por Dante.

Segundo o delegado, a confissão veio após abordagem estratégica. “Solicitamos a retirada para Secretária de Estado da Justiça (Sejus) e a equipe de investigação usou técnica de dialogar de forma tranquila e vimos que ele se orgulhava de ter matado um estuprador”, finalizou. 

Confissão detalhada

O chefe da DHPP de Guarapari, delegado Franco Malini, destacou que a investigação foi sustentada por elementos técnicos e pela confissão do suspeito. Segundo ele, o homem apresentou detalhes que só alguém que esteve no local poderia saber. “A confissão nunca pode ser a principal prova, mas ele passa detalhes da casa, do exterior, de como a cabeça foi levada, e até o que seria encontrado com a cabeça”, afirmou.

Apesar de o membro ter sido encontrado na manhã desta quarta-feira (11), o instrumento de corte ainda não foi localizado.

De acordo com Malini, o suspeito descreveu um caminho não usual de acesso ao imóvel e relatou que permaneceu dentro da residência aguardando a movimentação da vítima. Ainda segundo o delegado, Dante estaria comendo pão quando foi surpreendido. A primeira luta corporal teria sido vencida pelo empresário, mas, na sequência.

“A vítima, apesar de idoso, era uma pessoa ativa. Ele diz que imobiliza com o joelho”, explicou o delegado, acrescentando que, conforme o relato, Dante ainda estava vivo no momento em que teve a cabeça cortada.

Malini também informou que o suspeito foi para Guarapari próximo ao réveillon. Além disso, realiza "bicos" como flanelinha e guardador de veículos, dormia em diferentes locais e também pedia comida em restaurantes. Ele já possuía histórico por medida protetiva e estava preso preventivamente. Agora, responde por homicídio consumado, além de possível responsabilização pelo incêndio no imóvel, que pode configurar crime de dano ou ocultação de prova.

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