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Estreito de Ormuz: como bloqueio do Irã pode afetar até o capixaba

Estreito de Ormuz: como bloqueio do Irã pode afetar até o capixaba

Após bombardeio coordenado pelos Estados Unidos, forças iranianas decidiram pelo fechamento do corredor onde passa 30% do petróleo produzido no mundo

Publicado em 1 de março de 2026 às 09:50

Estreito de Ormuz, entre o Irã e Omã, onde passam mais de
Estreito de Ormuz, entre o Irã e Omã, onde passam cerca de 30% da produção mundial de petróleo Crédito: Marine Traffic/Reprodução
Atualização
01/03/2026 - 09:10hrs
Esta reportagem foi publicada originalmente com o título "Como bloqueio de estreito no Irã pode afetar custo de vida no ES", em 22 de junho de 2025. Foi atualizada com as informações atuais do conflito no Oriente Médio e republicada.

O lançamento de um grande ataque ao Irã no último sábado (28) pelos Estados Unidos em conjunto com Israel começa a trazer consequências para o mercado mundial de óleo e gás. Após o bombardeio durante a madrugada, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do país iraniano decidiu pelo fechamento do Estreito de Ormuz, local onde passa 30% do petróleo produzido no planeta.

Em 2025, o bombardeio em instalações nucleares do Irã pelos EUA levou o Parlamento do Irã a aprovar o fechamento do espaço momentaneamente. Mas o bloqueio, na ocasião, não foi para frente após acordo de cessar-fogo.

RESUMO SOBRE O ESTREITO DE ORMUZ

  • É a principal rota de navios petroleiros no mundo, sendo responsável pelo tráfego de 30% do óleo produzido globalmente.
  • É uma área símbolo de tensão no Golfo Pérsico.
  • Fica entre Omã e o Irã e entre o Irã e Arábia Saudita.
  • Está em águas internacionais, mas ao alcance do armamento iraniano.
  • É a região com os maiores produtores de petróleo do mundo (Arábia Saudita, Irã, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Kuwait)
  • É o canal principal para o transporte de gás liquefeito do planeta, produzido no Catar.
  • Fechamento do estreito pode elevar o preço do barril de petróleo.
  • Bloqueio vai encarecer frete e aumentar pressão sobre preço dos alimentos, além de influenciar o câmbio.

Guerra

O ataque coordenado para erradicar o regime dos aiatolás e a suposta ameaça nuclear iraniana pode contribuir para mais volatilidade no mercado de capitais, principalmente após o Irã cumprir uma primeira onda de retaliações atingindo o Catar, Dubai (Emirados Árabes Unidos), a Arábia Saudita, Bahrein e Kuwait.

As medidas podem afetar do pequeno ao grande poupador com investimentos em renda variável, já no início da semana. Para o consumidor, no médio prazo, o risco da valorização do dólar deve pressionar itens, como o trigo, principal matéria-prima do pão francês.

Para a economia capixaba, embora o petróleo mais caro seja benéfico para a arrecadação de royalties e participações especiais, outros setores podem ser afetados negativamente pela alta do custo do frete global. "O Espírito Santo tem uma base exportadora significativa, com destaque para celulose, aço, mármore, granito e café, que podem ser impactados, caso o conflito provoque um encarecimento do frete internacional, escassez de insumos ou uma retração na demanda global", explica o economista Eduardo Araújo.

Ele acrescenta ainda que, em uma menor escala, o Espírito Santo também pode sentir os efeitos indiretos de um cenário incerto, com câmbio pressionado, aumento da inflação, redução no consumo interno e elevação do custo de produção de setores estratégicos.

O pão francês pode ser incluído na dieta em doses adequadas e sugeridas por um profissional da saúde (Imagem: RHJPhtotos | Shutterstock)
Preço do pão francês pode ser afetado Crédito: Imagem: RHJPhtotos | Shutterstock

O problema

Em junho de 2025, na primeira semana do conflito entre Irã e Israel, quando ainda não se falava no fechamento do Estreito de Ormuz, houve uma disparada no preço do barril de petróleo, chegando a ultrapassar a casa dos US$ 70. Mas, depois do clima de tensão se esfriar, a cotação caiu para a casa dos US$ 60, fechando o ano nesse patamar. 

Mas uma nova volatilidade passou a ser observada com a retomada do conflito na região. No momento, o barril está sendo vendido a US$ 72,87. Especialistas em mercado financeiro afirmam que os preços podem ultrapassar US$ 100 se o conflito se estender por muito tempo.

Onde fica o estreito

O corredor está em águas internacionais, entre Omã e o Irã. Na prática, porém, o local fica refém do poderio militar iraniano. Apesar de não ser tão estreito assim e de ter 30 km de largura na faixa de menor extensão, o canal não tem a circulação de navios de carga e petroleiros acontecendo livremente. Por lá, são duas vias de tráfego, de três quilômetros de largura cada uma, onde podem passar as embarcações para entrar e sair do Golfo Pérsico.

Os dois canais estão localizados em posições estratégicas, ao alcance de drones camicazes e de mísseis. Também estão vulneráveis a minas aquáticas, que podem ser lançadas por submarinos, navios e aeronaves. Além disso, são monitorados pelo exército iraniano, que conta com lanchas para fiscalizar as embarcações.

O economista Eduardo Araújo afirma que qualquer ameaça ao estreito já é suficiente para provocar fortes reações nos mercados.

Ele lembra que um simples indício de interrupção eleva o chamado “prêmio de risco” do barril. Com isso, os preços do petróleo sobem, pressionando o custo de energia, transporte e alimentos em diversos países.

No caso do Brasil, os efeitos mais imediatos seriam o encarecimento da gasolina e do diesel, com impacto no frete e, indiretamente, nos alimentos e demais produtos. Isso pode elevar a inflação e tornar mais difícil a queda dos juros

Eduardo Araújo

Economista

Para Érika Leal, professora de Economia do Ifes Campus Cariacica e presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), o fechamento do Estreito de Ormuz tem implicações geopolíticas e econômicas profundas, cujos efeitos seriam sentidos de maneira imediata e global. Qualquer interrupção significativa nesse corredor resulta em perturbações relevantes na oferta global de energia.

"A elevação abrupta dos preços do petróleo seria uma consequência quase inevitável. Com a oferta reduzida e a demanda global relativamente constante, o mercado reagiria com alta volatilidade, pressionando os preços para cima. Tal aumento impactaria diretamente os custos de produção, transporte e distribuição em praticamente todos os setores da economia", lembra.

Estreito de Ormuz, no Irã, onde passa maioria da produção mundial de petróleo
Estreito de Ormuz, no Irã, onde passa maioria da produção mundial de petróleo Crédito: Imagem de Satélite/Google Maps/Reprodução

A economista lembra ainda que, para o cidadão comum, os reflexos seriam perceptíveis no dia a dia por meio do encarecimento dos combustíveis, da energia elétrica (quando as termoelétricas são ativadas) e de produtos básicos, uma vez que o custo logístico se elevaria em cadeia.

"Para a produção e distribuição dos produtos, o petróleo é essencial. Nossa matriz de transportes é majoritariamente dependente do transporte rodoviário, que tem o petróleo como insumo principal. Quando o custo da gasolina e do óleo diesel aumenta, esses custos são repassados aos produtos. A inflação tenderia a se acentuar, comprometendo o poder de compra das famílias, sobretudo das camadas mais vulneráveis da população", afirma.

Preço do petróleo

O economista Ricardo Paixão lembra que, desde o início do conflito, ocorreram oscilações na cotação do petróleo.

"Isso ocorre porque o mercado se move pela expectativa dos agentes econômicos. Se o Estreito de Ormuz for realmente fechado, o barril de petróleo pode chegar a US$ 130, quase o dobro do valor atual. O fechamento do estreito forçaria os exportadores a buscar rotas alternativas, o que encareceria o produto e criaria incerteza, elevando os preços do barril a proporções gigantescas", diz.

Impacto no mercado de capitais

Eduardo Araújo destaca ainda que, diante desse cenário, a tendência é de que o mercado financeiro fique em cautela. Empresas com custos ligados à energia podem sofrer, enquanto ações da Petrobras, por exemplo, podem se beneficiar da alta do petróleo.

Outra questão importante apontada pelo economista é que, em momentos de tensão geopolítica, os investidores costumam migrar para ativos considerados mais seguros, como o dólar e os títulos do Tesouro americano. Isso acontece não devido ao petróleo diretamente, mas por conta do aumento da incerteza global.

"Com isso, há uma saída de capital de países emergentes, como o Brasil, o que pode levar à valorização do dólar frente ao real. Os próximos dias serão decisivos: se o conflito escalar e o Estreito for efetivamente fechado, os impactos podem se intensificar, com reflexos sobre inflação, juros, câmbio e desempenho das bolsas ao redor do mundo", frisa.

Taxa de câmbio

Já o economista Ricardo Paixão acrescenta que essa mudança no fluxo de capitais afeta diretamente a taxa de câmbio.

"A alteração na taxa de câmbio impacta os preços de produtos importados, incluindo itens de beleza, azeite e até mesmo o trigo, do qual o Brasil não é autossuficiente e importa da Argentina. Um câmbio mais alto pode elevar o preço do pão de cada dia", afirma.

Paixão afirma ainda que, com as expectativas negativas, as empresas podem hesitar em abrir filiais ou expandir projetos, resultando em projetos engavetados. Isso acarreta menos empregos e renda, podendo levar à instalação de uma recessão na economia.

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