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Publicado em 1 de março de 2026 às 09:50
O lançamento de um grande ataque ao Irã no último sábado (28) pelos Estados Unidos em conjunto com Israel começa a trazer consequências para o mercado mundial de óleo e gás. Após o bombardeio durante a madrugada, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do país iraniano decidiu pelo fechamento do Estreito de Ormuz, local onde passa 30% do petróleo produzido no planeta.>
Em 2025, o bombardeio em instalações nucleares do Irã pelos EUA levou o Parlamento do Irã a aprovar o fechamento do espaço momentaneamente. Mas o bloqueio, na ocasião, não foi para frente após acordo de cessar-fogo.>
RESUMO SOBRE O ESTREITO DE ORMUZ
O ataque coordenado para erradicar o regime dos aiatolás e a suposta ameaça nuclear iraniana pode contribuir para mais volatilidade no mercado de capitais, principalmente após o Irã cumprir uma primeira onda de retaliações atingindo o Catar, Dubai (Emirados Árabes Unidos), a Arábia Saudita, Bahrein e Kuwait.>
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As medidas podem afetar do pequeno ao grande poupador com investimentos em renda variável, já no início da semana. Para o consumidor, no médio prazo, o risco da valorização do dólar deve pressionar itens, como o trigo, principal matéria-prima do pão francês.>
Para a economia capixaba, embora o petróleo mais caro seja benéfico para a arrecadação de royalties e participações especiais, outros setores podem ser afetados negativamente pela alta do custo do frete global. "O Espírito Santo tem uma base exportadora significativa, com destaque para celulose, aço, mármore, granito e café, que podem ser impactados, caso o conflito provoque um encarecimento do frete internacional, escassez de insumos ou uma retração na demanda global", explica o economista Eduardo Araújo.>
Ele acrescenta ainda que, em uma menor escala, o Espírito Santo também pode sentir os efeitos indiretos de um cenário incerto, com câmbio pressionado, aumento da inflação, redução no consumo interno e elevação do custo de produção de setores estratégicos.>
Em junho de 2025, na primeira semana do conflito entre Irã e Israel, quando ainda não se falava no fechamento do Estreito de Ormuz, houve uma disparada no preço do barril de petróleo, chegando a ultrapassar a casa dos US$ 70. Mas, depois do clima de tensão se esfriar, a cotação caiu para a casa dos US$ 60, fechando o ano nesse patamar. >
Mas uma nova volatilidade passou a ser observada com a retomada do conflito na região. No momento, o barril está sendo vendido a US$ 72,87. Especialistas em mercado financeiro afirmam que os preços podem ultrapassar US$ 100 se o conflito se estender por muito tempo.>
O corredor está em águas internacionais, entre Omã e o Irã. Na prática, porém, o local fica refém do poderio militar iraniano. Apesar de não ser tão estreito assim e de ter 30 km de largura na faixa de menor extensão, o canal não tem a circulação de navios de carga e petroleiros acontecendo livremente. Por lá, são duas vias de tráfego, de três quilômetros de largura cada uma, onde podem passar as embarcações para entrar e sair do Golfo Pérsico.>
Os dois canais estão localizados em posições estratégicas, ao alcance de drones camicazes e de mísseis. Também estão vulneráveis a minas aquáticas, que podem ser lançadas por submarinos, navios e aeronaves. Além disso, são monitorados pelo exército iraniano, que conta com lanchas para fiscalizar as embarcações.>
O economista Eduardo Araújo afirma que qualquer ameaça ao estreito já é suficiente para provocar fortes reações nos mercados. >
Ele lembra que um simples indício de interrupção eleva o chamado “prêmio de risco” do barril. Com isso, os preços do petróleo sobem, pressionando o custo de energia, transporte e alimentos em diversos países.>
Eduardo Araújo
EconomistaPara Érika Leal, professora de Economia do Ifes Campus Cariacica e presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), o fechamento do Estreito de Ormuz tem implicações geopolíticas e econômicas profundas, cujos efeitos seriam sentidos de maneira imediata e global. Qualquer interrupção significativa nesse corredor resulta em perturbações relevantes na oferta global de energia.>
"A elevação abrupta dos preços do petróleo seria uma consequência quase inevitável. Com a oferta reduzida e a demanda global relativamente constante, o mercado reagiria com alta volatilidade, pressionando os preços para cima. Tal aumento impactaria diretamente os custos de produção, transporte e distribuição em praticamente todos os setores da economia", lembra.>
A economista lembra ainda que, para o cidadão comum, os reflexos seriam perceptíveis no dia a dia por meio do encarecimento dos combustíveis, da energia elétrica (quando as termoelétricas são ativadas) e de produtos básicos, uma vez que o custo logístico se elevaria em cadeia.>
"Para a produção e distribuição dos produtos, o petróleo é essencial. Nossa matriz de transportes é majoritariamente dependente do transporte rodoviário, que tem o petróleo como insumo principal. Quando o custo da gasolina e do óleo diesel aumenta, esses custos são repassados aos produtos. A inflação tenderia a se acentuar, comprometendo o poder de compra das famílias, sobretudo das camadas mais vulneráveis da população", afirma.>
O economista Ricardo Paixão lembra que, desde o início do conflito, ocorreram oscilações na cotação do petróleo.>
"Isso ocorre porque o mercado se move pela expectativa dos agentes econômicos. Se o Estreito de Ormuz for realmente fechado, o barril de petróleo pode chegar a US$ 130, quase o dobro do valor atual. O fechamento do estreito forçaria os exportadores a buscar rotas alternativas, o que encareceria o produto e criaria incerteza, elevando os preços do barril a proporções gigantescas", diz. >
Eduardo Araújo destaca ainda que, diante desse cenário, a tendência é de que o mercado financeiro fique em cautela. Empresas com custos ligados à energia podem sofrer, enquanto ações da Petrobras, por exemplo, podem se beneficiar da alta do petróleo.>
Outra questão importante apontada pelo economista é que, em momentos de tensão geopolítica, os investidores costumam migrar para ativos considerados mais seguros, como o dólar e os títulos do Tesouro americano. Isso acontece não devido ao petróleo diretamente, mas por conta do aumento da incerteza global. >
"Com isso, há uma saída de capital de países emergentes, como o Brasil, o que pode levar à valorização do dólar frente ao real. Os próximos dias serão decisivos: se o conflito escalar e o Estreito for efetivamente fechado, os impactos podem se intensificar, com reflexos sobre inflação, juros, câmbio e desempenho das bolsas ao redor do mundo", frisa.>
Já o economista Ricardo Paixão acrescenta que essa mudança no fluxo de capitais afeta diretamente a taxa de câmbio.>
"A alteração na taxa de câmbio impacta os preços de produtos importados, incluindo itens de beleza, azeite e até mesmo o trigo, do qual o Brasil não é autossuficiente e importa da Argentina. Um câmbio mais alto pode elevar o preço do pão de cada dia", afirma.>
Paixão afirma ainda que, com as expectativas negativas, as empresas podem hesitar em abrir filiais ou expandir projetos, resultando em projetos engavetados. Isso acarreta menos empregos e renda, podendo levar à instalação de uma recessão na economia. >
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