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Empresários do ES são apontados como chefes de organização de lavagem de dinheiro

Ambos faziam parte do "núcleo financeiro" da organização e, segundo as investigações, comandavam as transações financeiras entre as demais empresas investigadas que totalizam R$ 800 milhões. Eles foram presos nesta terça-feira (15)

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 15/12/2020 às 22h56
Atualizado em 16/12/2020 às 10h33
Pablo David Eliseo Sandes e Wilson Cadouro, presos nesta terça-feira (15) na Operação Piànjú
Pablo David Eliseo Sandes e Wilson Caoduro, presos nesta terça-feira (15) na Operação Piànjú. Crédito: Fernando Madeira

Empresários do Espírito Santo foram presos nesta terça-feira (15) suspeitos de comandar uma organização criminosa que “prestava serviço” de lavagem de dinheiro para outras empresas, algumas delas investigadas pela Operação Lava Jato.

Segundo a Polícia Civil do Estado, responsável pela investigação, o grupo movimentou cerca de R$ 800 milhões em operações financeiras dentro e fora do país. Os recursos eram transferidos entre diversas empresas, algumas físicas, outras de fachada ou até criadas com documentos de identificação falsos, em nome de pessoas que não existem.

A Justiça determinou a prisão preventiva de 18 suspeitos, dois deles no Espírito Santo: Pablo David Eliseo Sandes e Wilson Marcelino Caoduro. Segundo a decisão proferida pela juíza Graciela de Rezende Henriquez, da 5ª Vara Criminal de Vitória, as investigações policiais apontam que eles seriam os cabeças da organização.

Também foi expedido mandado de prisão temporária contra cinco outras pessoas, sendo duas no Estado. Uma delas foi presa, porém a reportagem de A Gazeta não conseguiu confirmar o nome desse terceiro suspeito detido no Espírito Santo.

De acordo com os autos do processo, a organização era composta de três núcleos. O chamado núcleo financeiro era quem cuidava do gerenciamento do dinheiro, da origem e destino das movimentações.

O objetivo, segundo as investigações, era fazer com que o recurso proveniente de atividades ilegais passassem por diversas empresas através de operações financeiras aparentemente regulares e voltasse para sua origem “limpo”, sem rastros das ilegalidades.

MOVIMENTAÇÃO MILIONÁRIA

Um dos detidos, Pablo Sandes, é proprietário da Sandes Náutica, uma marina localizada em Jardim da Penha, às margens do canal. Segundo os autos, a quebra de sigilo bancário dele revelaram transações financeiras constantes entre ele, duas ex-companheiras e as empresas de fachada investigadas.

“Em análise aos resultados obtidos pelas medidas de afastamento de sigilo bancário dos investigados foi possível perceber o provável poder de gestão e de determinação de Pablo sobre as empresas ora investigadas”, diz a juíza em trecho onde argumenta pela concessão do mandado de prisão.

Pablo David Eliseo Sandes
Paulo Sandes, dono da Sandes Náutica, preso nesta terça-feira na operação. Crédito: Fernando Madeira

Uma dessas empresas era a CPRS Agenciamento, Transportes e Locações de Serviços, que anteriormente tinha o nome de Tresconsult. Essa última havia sido criada por Pablo, e foi depois transferida a um terceiro, que usou documentos falsos.

As diligências policiais, contudo, mostraram que o suposto dono atual da CPRS ia constantemente ao banco acompanhado do gerente da Sandes Naútica, funcionário de Pablo. Registros de e-mail também obtidos pela polícia mostram que o endereço da empresa na internet foi criado a mando de Pablo.

No período analisado, a CPRS recebeu créditos no valor de R$ 77.597.511,34 e débitos no mesmo valor. Ou seja, movimentou mais de R$ 155 milhões.

“A análise bancária indica a possível utilização da empresa CPRS como empresa fictícia com a finalidade de ‘passagem de valores’, com destinação de parcelas tanto aos investigados, quanto ao exterior. Um exemplo seriam os débitos a empresas chinesas, [...],por operações de câmbio de negócios aparentemente inexistentes e, ainda, outras operações de câmbio que totalizaram R$ 67.467.898,32”, aponta o processo.

Um dos investigados, teria confessado à polícia ter entrado no esquema a partir de reunião onde estavam Pablo e Wilson. Ele teria afirmado que, uma vez recebido o dinheiro de outras empresas investigadas, repassava o montante para contas no exterior indicadas pelos dois.

“Tal empreendimento, com movimentação tal elevada de dinheiro, possui o condão de interferir gravemente na economia, isso, sem mesmo considerar o potencial lesivo que essa suposta organização criminosa possui, quando verificado os indícios de que funcione como 'prestadora de serviços' de lavagem para outras organizações criminosas", grifou a juíza.

DINHEIRO ENVIADO PARA OS ESTADOS UNIDOS

Já Wilson Caoduro é dono da Akira Motors, concessionária da Suzuki em Vila Velha, e da Living Nautica, também em Jardim da Penha. As apurações da Polícia Civil apontam, até o momento, que ele estaria utilizando as contas bancárias de suas empresas para as transações de lavagem de dinheiro.

Além de terem sido percebidas transações financeiras entre a Living Nautica e outras empresas investigadas no Brasil, entre elas a CPRS, há indícios de que ele tinha relação próxima com duas empresas sediadas nos Estados Unidos que também fariam parte do esquema.

Uma delas teria sido criada por Wilson e transferida para um “laranja” posteriormente. Ele, inclusive, ainda utilizava o e-mail da empresa americana para fazer contato com outros membros da organização, segundo as investigações.

Wilson Caoduro
Wilson Caoduro foi preso na operação nesta terça-feira. Crédito: Fernando Madeira

Há ainda registros de movimentação financeira entre a Living Nautica e uma das empresas brasileiras investigadas, que é sucedido quase imediatamente de transação de mesmo valor para outra empresa americana.

A quebra de sigilo telemática mostrou ainda correspondências entre o empresário e outro investigado, suspeito de ser o responsável pela falsificação de documentos de operações de câmbio.

“O investigado Wilson possui indícios bastante contundentes de que assume posição de comando, com capacidade de determinação sobre as direções tomadas na organização criminosa, em voga, voltada à prática, dentre outros delitos, de lavagem de capitais”, escreveu a magistrada.

CARRÕES, IMÓVEIS E LANCHAS

Por suspeitar que os bens tenham origem ilícita, a Polícia Civil pediu que eles fossem indisponibilizados. Isso significa que eles ainda ficarão sob a posse dos acusados, porém não poderão ser vendidos ou transferidos para outras pessoas.

No caso de Pablo, foram indisponibilizados um Porsche Panamera, um Mercedes-Benz GLA, além de nove lanchas aquáticas e três lanchas.

Já Wilson teve um Maserati Granturismo, três motos aquáticas e sete lanchas colocados à disposição da Justiça.

Além disso, foram indisponibilizados quatro imóveis em Vitória registrados em nome de Pablo Sandes, mas cujos registros financeiros mostram que foram pagos por Wilson.

O QUE DIZ A DEFESA DOS ACUSADOS

Para a TV Gazeta, o advogado Ricardo Firme, que defende o empresário Wilson Caoduro, disse que é cedo para se pronunciar, porque é um inquérito grande, cheio de detalhes e ele ainda está se inteirando da denúncia.

Os advogados Rogério Feitosa e Ricardo Rocha, que defendem Pablo Sandes, disseram que o empresário está tranquilo e nega participação em qualquer esquema.

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