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Auxílio emergencial salvou economia de recessão ainda mais profunda

Governo diz que país terá retomada em "V", quando a recuperação é abrupta como foi a queda. Mas especialistas dizem que indicadores ruins são reflexos de falhas no combate ao coronavírus pelo governo federal

Publicado em 01/09/2020 às 14h26
Coronavírus está trazendo impactos à economia
Coronavírus está trazendo impactos à economia - Coronavírus economia. Crédito: Freepik

auxílio emergencial de R$ 600 pago pelo governo federal a quase 70 milhões de brasileiros ajudou a “segurar” a queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre deste ano, que teve retração de 9,7% em relação ao trimestre anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Cinco parcelas do auxílio já foram pagas, e mais quatro estão previstas, apesar de o valor ter sido reduzido. Além do benefício criado para atender a população de baixa renda afetada pela pandemia, o governo liberou o saque emergencial do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), está pagando o abono do PIS/Pasep, antecipou o décimo terceiro de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Essas medidas ajudaram, principalmente, à população mais pobre, que teve a renda profundamente afetada pela crise causada pelo novo coronavírus. Com isso, o consumo foi impulsionado, e empresas também foram beneficiadas. A liberação de crédito e o programa de manutenção de empregos também ajudaram a socorrer os negócios.

O impacto das medidas foi comemorado nesta terça-feira pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, segundo o qual, estas, entre outras estratégias do governo, estão ajudando o país a sair da crise.

“Esse [resultado do PIB trimestral] foi o impacto inicial. Mas, na verdade, isso é um som distante. O som daquele impacto da pandemia lá atrás que é onde o Brasil ficaria caso não tivéssemos feito todas as medidas que fizemos. O que acontece é que nós, com essas medidas, conseguimos criar uma volta em V. A economia está voltando em V”, declarou.

Ministro da Economia, Paulo Guedes, em cerimônia no Palácio do Planalto
Ministro da Economia, Paulo Guedes, em cerimônia no Palácio do Planalto. Crédito: Edu Andrade/ Ascom/ ME

O movimento em “V” explica-se da seguinte maneira: após uma forte queda na economia, ocorre uma retomada semelhante, na mesma velocidade. Na visão de economistas, o movimento mais preciso no momento, na verdade, seria em forma de “U”, isto é, uma queda lenta, menos abrupta, seguida por uma retomada mais devagar.

Isso porque, apesar das medidas adotadas pelo governo terem contribuído para que a crise fosse minimizada num primeiro momento, a ajuda não foi o suficiente para impedir que o PIB do país apresentasse o pior resultado da série histórica do IBGE, iniciada em 1996.

Um dos motivos, segundo os especialistas, foi a demora do governo em combater o avanço da Covid-19, doença que já infectou mais de 3,9 milhões de pessoas e levou a mais de 120 mil mortos apenas no Brasil em quase seis meses. Além do impacto na saúde, o efeito disso na economia deverá ser sentido ainda por algum tempo.

Na avaliação do economista Wallace Millis, especialista em Gestão Pública, o fato de que o governo não adotou medidas mais rígidas para conter a doença logo no estágio inicial da pandemia no Brasil vai retardar o fim da crise, e fazer com que a economia do país continue se arrastando pelos próximos meses.

“Quanto mais rápido você faz o isolamento social, quanto mais imediato e completo ele é, maior é a retração, você tem uma queda acentuada naquele momento, mas depois consegue fazer a retomada. É como um movimento em ‘V’. Quando as medidas de isolamento não são efetivas, você não apenas não consegue achatar a curva epidêmica rápido o bastante como a crise se arrasta por um bom tempo. É a pior das combinações.”

O economista Marcelo Loyola Fraga destacou que os países que isolaram cidades inteiras, embora tenham sido considerados extremistas num primeiro momento, tem conseguido retomar as atividades e o ritmo de crescimento mais rapidamente.

“Mas o controle no país é uma questão difícil, pois passa por diversos poderes. É claro que o Brasil não é o único que ainda não retomou como deveria. Mas tivemos um problema sério de administração. Acharam que tudo se resolveria rápido e demoraram a agir, ou não agiram como deveriam. E uma hora a conta disso chega.”

RISCO AOS INVESTIMENTOS

Além de o fim da crise ter sido retardado, os auxílios pagos pelo governo não poderão se estender para sempre. Resta, então, acompanhar os resultados dos próximos meses. Embora as atividades estejam sendo retomadas gradualmente, a dívida pública já se aproxima de 100% do PIB, e os últimos resultados contribuem para a criação de um ambiente de incertezas, que deve impactar na vinda de investimentos para o Brasil.

“A preocupação maior dos investidores hoje é que, se a vacina demorar, poderemos ter um novo surto da doença, e, com isso, será preciso adotar novas medidas de contenção da doença no futuro. E investidor não é um tipo de pessoa que gosta de incertezas. A forma como o Brasil tem gerenciado a pandemia trouxe um risco maior em relação ao ambiente de investimentos. A gente arranhou um pouco a imagem do país lá fora. Essa situação toda, somada ao desempenho ruim, traz um marketing negativo”, frisou o economista Eduardo Araújo.

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