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"Quantas mães estão comigo, com o coração partido?”, diz mãe de Milena

Após a condenação dos seis réus envolvidos no assassinato da médica, Zilca Gottardi lembra de outras mães que sofrem pela perda de suas filhas, vítimas de feminicídio

Douglas e Zilca Gottardi, familiares da médica Milena Gottardi
Douglas e Zilca Gottardi, familiares da médica Milena Gottardi. Crédito: Vitor Jubibi / Arte A Gazeta

Emocionada e abraçada ao filho Douglas Gottardi, a mãe de Milena, Zilca Gottardi lembrou a dor de outras mães, que também perderam as suas filhas vítimas de feminicídio.

Zilca Gottardi

Mãe de Milena Gottardi

"Eu sinto que é necessário fazer justiça. Assim como eu perdi a minha filha, que é uma dor muito doída, outras mães também sofrem. Quantas mães estão comigo, com o coração partido, cortado? Muitas sem condições de ver a justiça sendo feita. Estou com elas em meu coração"

Além de lembrar a dor de outras mães, Zilca pontuou a satisfação da família com a condenação dos réus. “Nós conseguimos o que queríamos aqui: pena máxima. Todo mundo ficou muito envolvido com a gente, sofrendo com a gente, nos ajudando. Com uma equipe maravilhosa, uma equipe unida, conseguimos chegar nesse final e obter justiça”, pontuou.

Quem também falou sobre a sentença foi Douglas Gottardi, irmão de Milena. Abraçado à mãe, ele falou sobre a importância de Milena, a saudade e como as prisões darão paz à família, sobretudo à criação das filhas da médica, que estão sob a guarda dele.

Depoimento da mãe e do irmão de Milena Gottardi

"A justiça foi feita, os réus vão pagar pelo que eles fizeram, mas a gente vai embora agora (do fórum) e ela não vai estar lá mais (em casa). Nunca mais a gente vai vê-la. A justiça está sendo feita, mas realmente o coração vai ficar magoado, machucado, para sempre", disse.

HOMENAGEM ÀS FILHAS DE MILENA

sentença de condenação das seis pessoas responsáveis pelo assassinato da médica Milena Gottardi também traz uma homenagem às suas duas filhas. Em um trecho o juiz Marcos Pereira Sanches, que presidiu o Tribunal do Júri, citou Lewis Carroll, autor de “Alice no País das Maravilhas”:

Trecho da sentença

Juiz Marcos Pereira Sanches, que presidiu o Tribunal do Júri, cita Lewis Carroll

"Entendam os seus medos, mas jamais deixem que eles sufoquem os seus sonhos"

No documento ele observa que, embora as pequenas — de 13 e de 6 anos atualmente — não vivam no país das maravilhas, carregam em si a força e a garra de todas as mulheres. “Hoje representadas na figura da avó materna, dona Zilca Gottardi, e com o amor e apoio dos que as acolheram seguirão seus caminhos na esperança de dias melhores”, pontua o juiz.

É dito ainda que a médica assassinada deixou duas crianças em tenra idade, que, muito cedo, tornaram-se órfãs de mãe. “Justamente em um momento extremamente sensível da vida humana, momento de formação moral, intelectual, religiosa, psicológica e afetiva, deixando-as com uma espécie de vácuo sentimental, que só não foi ainda pior em razão da firme presença e cuidados dispensados pelos familiares da vítima”.

Mas destaca que por mais que os familiares se esforcem, não serão suficientes para substituir a presença e o amor da própria mãe. Observa ainda que o assassinato trouxe consequências incalculáveis para o resto das vidas das crianças.

“Havendo, inclusive, a informação da necessidade de acompanhamento psicológico e que a filha mais nova sempre chamava chorando pela mãe, e tanto se torna mais grave diante da presumível hipossuficiência econômica das incapazes aliado ao desamparo financeiro decorrente da morte da vítima, a qual, antes de ser morta, chegou a escrever uma carta pedindo para que as filhas ficassem sob a guarda do seu irmão”, diz o texto da sentença.

carta a que o juiz se refere foi escrita por Milena Gottardi e registrada em cartório no dia 6 de abril de 2017, cinco meses antes do crime. Nela a médica relata detalhes do seu cotidiano, as dificuldades que enfrentava para obter a separação de Hilário e o medo de ser morta. E fazia um pedido à justiça: se algo acontecesse a ela, que as filhas ficassem com o seu irmão, Douglas Gottardi. Pedido que foi atendido e hoje ele detém a guarda definitiva das crianças.

ENTENDA O CASO

Milena foi baleada na cabeça no estacionamento do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), onde trabalhava, em 14 de setembro de 2017, e teve a sua morte declarada no dia seguinte, deixando duas filhas, que na época tinham um ano e dez meses e nove anos. De acordo com o Ministério Público Estadual (MPES), o motivo do crime foi porque Hilário não aceitava a separação, o que o fez "nutrir um sentimento de ódio contra a médica".

Milena Gottardi: do crime ao julgamento dos réus

Em um dos julgamentos mais longos da história da Justiça capixaba, que durou oito dias, seis pessoas foram condenadas como responsáveis pelo assassinato da médica Milena Gottardi. O júri decidiu na noite desta segunda-feira (30), que o ex-policial civil e ex-marido da médica, Hilário Frasson, foi o principal mandante do crime.

Todos vão cumprir a pena em regime fechado e não poderão recorrer em liberdade. Os seis condenados, além da prisão, terão que indenizar, juntos, a família de Milena Gottardi em R$ 700 mil. A sentença foi lida pelo juiz Marcos Pereira Sanches. 

Como mandantes do crime, Hilário e Espiridião receberam a pena máxima de 30 anos de reclusão, pelos crimes de feminicídio, homicídio qualificado e fraude processual. Na soma das penas, Hilário ficaria com 42 anos de prisão, enquanto Esperidião contabilizaria 34 anos e oito meses. Como o teto penal brasileiro é de três décadas, o tempo de punição foi fixado em 30 anos.

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