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Publicado em 22 de agosto de 2025 às 18:33
Moradores de Vila Esperança, ocupação situada na região dos bairros Jabaeté e Normília da Cunha, na Grande Terra Vermelha, em Vila Velha, devem deixar suas casas até o início da segunda semana de setembro. Uma decisão expedida na quarta-feira (20) pela 6ª Vara Cível do Juízo de Vila Velha determinou a desocupação do terreno de quase 295 mil metros quadrados onde vivem mais de mil pessoas. >
➥ A área usada como moradia pelas famílias desde 2017 é de propriedade da Fazenda Moendas Empreendimentos e Participações Ltda., também conhecida como “Fazendinha 13” e, devido à ocupação, é alvo de uma briga judicial desde 2019. >
Em abril deste ano, uma decisão de reintegração de posse chegou a ser derrubada liminarmente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e, agora, a nova decisão da Vara Cível de Vila Velha prevê o uso de força policial, arrombamentos e demolições caso as famílias não deixem os imóveis no prazo estipulado.>
Na decisão assinada pelo juiz Manoel Cruz Doval (confira o documento abaixo), é destacado um plano de ação que prevê um auxílio em parcela única de R$ 2,2 mil para 135 famílias identificadas “em situação de desabrigo”. Segundo a prefeitura, o valor será pago pela empresa proprietária do terreno. A companhia também vai oferecer caminhões de mudança (confira nota completa ao fim da matéria).>
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Foram identificadas 664 famílias, sendo que 135 cumprem os critérios para recebimento do subsídio financeiro com finalidade habitacional, que será pago pela empresa autora da ação, no valor de R$ 2.222,00.>
O material ainda mostra que deve ser prestado atendimento às famílias antes da data final para saída voluntária, com suporte das pastas municipais de assistência social, mobilidade e desenvolvimento urbano. Além disso, na reintegração, a ocupação deve contar com serviços de saúde, assistência e segurança.>
Documento detalha as ações que devem ser feitas na Região da Grande Terra Vermelha nos próximos dias
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A ação, porém, não estaria em conformidade com as últimas decisões do Supremo Tribunal Federal, como destaca Maria Elisa Quadros, advogada que representa as famílias de Vila Esperança. Ela explica que o recente texto expedido pela 6ª Vara de Vila Velha mostra que o plano para a desocupação não é suficiente para garantir a integridade dos moradores. >
“Esse valor de R$ 2 mil é por família, não é por pessoa. Até o governo federal se mostrou disposto a liderar, por meio de seus programas de habitação, a destinação de verba para essa desapropriação, mas isso não avançou aqui no Estado”, aponta Maria Elisa.>
Em uma manifestação expedida sobre a situação da ocupação, a advogada aponta que a Prefeitura de Vila Velha, nos primeiros anos da ocupação, chegou a realizar estudos prévios sobre as famílias, mas que inconsistências sobre os moradores levaram à produção de um novo levantamento em 2022. Este último estudo, porém, como aponta a advogada, também estaria defasado para embasar as decisões em 2025.>
➥ Existem divergências sobre o número real de pessoas que vivem no espaço. Em uma estimativa dos próprios ocupantes, são mais de cinco mil pessoas vivendo no local. Para a Prefeitura de Vila Velha, com base em dados de 2022, são 640 famílias. Já para a Defensoria Pública do Espírito Santo (DPES), o assentamento tem 800 famílias. Não existem dados oficiais que comprovem os números. >
“O número real de famílias residentes já não corresponde aos dados mais antigos, razão pela qual se impõe a realização de novo levantamento técnico e atualizado”, cita a advogada da ocupação.>
Maria Elisa reforça que o plano de desocupação, ainda que destine recursos financeiros, indicação e auxílio para mudança, não assegura moradia digna e pode resultar em inúmeras famílias em situação de rua logo após a saída do terreno.>
“Uma solução adequada passaria, necessariamente, pela oferta de abrigos temporários; pela inclusão das famílias em programas habitacionais permanentes ou, ainda, pela utilização de recursos federais como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Programa Periferia Viva, que preveem linhas específicas para urbanização de favelas e produção habitacional”, diz a advogada.>
A Gazeta procurou pela defesa do proprietário do terreno, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem. A Defensoria Pública do Espírito Santo, responsável pelo ajuizamento do impedimento da primeira reintegração de posse — em defesa dos moradores —, também foi procurada, mas não enviou retorno. O espaço segue aberto para manifestação.>
Em conversa com a reportagem na tarde desta sexta-feira (22), a líder comunitária Adriana Paranhos, conhecida como “Baiana”, afirmou que os moradores de Vila Esperança receberam a nova decisão com indignação. Além disso, ela afirma que a comunidade se organiza para protestar em busca da manutenção da moradia. >
“O que nosso povo vai fazer é se mobilizar. Vamos às ruas porque não podemos aceitar essa situação. O que acontece é que querem tomar conta de uma área, expulsando as pessoas, mas vamos resistir”, diz Baiana.>
Segundo a líder comunitária, os moradores de Vila Esperança estão dispostos a negociar a permanência no terreno, já que “as famílias precisam continuar habitando suas casas e não podem sair de forma abrupta”.>
Em abril, após a primeira liminar que derrubou a reintegração de posse do terreno, A Gazeta visitou a comunidade. Na época, muitas famílias chegaram a deixar a ocupação, com medo de conflitos, já que a ação de reintegração previa — como na decisão atual — atuação policial e ação de oficiais de Justiça para cumprimento dos mandados de retomada da área. >
Entre os ocupantes que ficaram no terreno estão famílias de diferentes perfis e realidades. No começo de abril, enquanto ainda reorganizavam suas casas pela então iminente necessidade de mudança, os moradores contaram sobre a chegada até a vila, o medo de perder a casa e também sobre as expectativas sobre um possível processo de regularização do que querem reconhecer como bairro.>
Por outro lado, em nota enviada à reportagem em abril, a defesa da empresa proprietária do terreno salientou que a área sempre foi privada, sendo alvo de uma invasão desordenada e ilegal.>
O que diz a prefeitura
A Prefeitura de Vila Velha informa que o Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo (TJES) determinou, no dia 21 de agosto de 2025, a retomada da reintegração de posse das áreas das comunidades conhecidas como Vila Esperança e Vale Conquista, em Jabaeté, reconhecendo que se tratam de terrenos particulares.
As ações de reintegração de posse foram ajuizadas pelos proprietários em 2017 e 2019. Diante da decisão, as pessoas que ocupam a região deverão deixar o local, e a Prefeitura elaborou um plano para que, durante a reintegração, seja garantida a proteção social de famílias e indivíduos em situação de pobreza, vulnerabilidade e risco social, com foco na dignidade humana.
A desocupação será realizada pela Polícia Militar. A área foi mapeada e congelada em 2022, com base em dados cruzados de mais de 25 fontes, para orientar ações seguras e humanizadas. Foram identificadas 664 famílias, sendo que 135 cumprem os critérios para recebimento do subsídio financeiro com finalidade habitacional, que será pago pela empresa autora da ação, no valor de R$ 2.222,00.
A empresa deverá também disponibilizar veículos para transporte dos bens ao novo local de moradia do ocupante, com limitação territorial, compreendendo os municípios de Guarapari, Serra, Cariacica, Vitória e Vila Velha, ou ao local destinado à guarda provisória dos bens.
A empresa deverá disponibilizar um de local para guarda de móveis, que guarnecem as residências, entre os quais não estão incluídos: portas, janelas, madeiras, materiais de obras e afins, mantendo-os sob sua responsabilidade, por 21 (vinte e um dia) dias a contar da data da conclusão do processo de desocupação.
Também caberá à empresa comunicar às pessoas do local, por meio de placas na região mais próximo da ocupação, informações contendo os nomes das famílias e carros de som e telefone de contato de WhatsApp, meio pelo qual as famílias poderão entrar em contato.
Município
Cabe à Prefeitura de Vila Velha montar na região um espaço para atendimento das famílias, que receberão orientação e apoio. O trabalho contará com profissionais das secretarias de Assistência Social, Saúde, Desenvolvimento Urbano, Educação e Meio Ambiente. Dentro deste espaço, haverá atendimento psicossocial no dia da ação, realizado por equipe específica, para orientações e encaminhamentos conforme normativas em vigor.
Atendimento às famílias com crianças e adolescentes em idade escolar, para fins de informações sobre transferência para outra unidade escolar, se necessário.
Recolhimento adequado de animais doentes e animais em situação de maus-tratos. Em caso de animais abandonados, o município dará destinação conforme legislação em vigor, após análise da secretaria competente. Caso o ocupante demonstre interesse, poderá assinar Termo de Doação, com cláusula de irrevogabilidade, para que o município possa dar a destinação ao animal, após análise os técnicos.
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