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Publicado em 18 de março de 2026 às 18:55
A duplicação do trecho norte da BR 101 no Espírito Santo virou um pesadelo para uma família de Ibiraçu, cuja matriarca tem 100 anos e o patriarca, 90. Os moradores de um casarão centenário foram informados que terão até o dia 26 de março para deixar o local. Em função das obras, a Ecovias Capixaba, que administra a rodovia no Estado, prevê desapropriar esse e outros 19 imóveis que tiveram a utilidade pública declarada na região.>
O empresário Daniel Perut conta que a família ficou sabendo que precisaria abandonar o casarão em janeiro. Na ocasião, a avó dele, Aurora Perut Barbosa, de 100 anos, chegou a passar mal e ficou hospitalizada por cinco dias.>
"Depois que o oficial de Justiça foi na nossa casa, ela ficou cinco dias internada, muito abalada com essa notícia. Até hoje não está totalmente recuperada", conta.>
Ao todo, 13 familiares, de quatro gerações, moram no casarão, incluindo a matriarca Aurora e o patriarca Pedro Barbosa, de 90 anos.>
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"A minha família está naquela casa há mais de 100 anos. Foi construída pelo meu tataravô, Ângelo Peruti, e a esposa dele, Magda Ana Polese. Eles vieram da Itália, como imigrantes, de navio. Os primeiros lugares que eles chegaram foi em Santa Cruz, Aracruz, e depois vieram para Ibiraçu, onde construíram a casa", relembra.>
De acordo com o empresário, a concessionária ofereceu menos R$ 1 milhão em indenização. No entanto, levantamento feito pela família dá conta de que a área, que tem ao todo 6,7 mil m², vale cerca de R$ 6 milhões.>
Questionada por A Gazeta sobre o valor, a Ecovias Capixaba afirma que todos os processos seguem rigorosamente a legislação vigente. Disse ainda que as indenizações são definidas a partir de critérios técnicos, com base em vistorias detalhadas, medições e levantamento das características de cada imóvel.>
"Esses dados subsidiam a elaboração do Relatório de Metodologia Avaliatória (RMA), aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que estabelece parâmetros objetivos e padronizados para as avaliações, garantindo isonomia e transparência", informa a concessionária.>
Em 24 de fevereiro, a juíza Thaita Campos Trevizan, da Comarca Regional de Aracruz e da Rota do Buda, expediu uma liminar determinando que, caso a família não saia do imóvel até o próximo dia 26, pode haver desocupação com o uso da força policial.>
"Autorizo, desde já, a desocupação forçada do imóvel, podendo o oficial de Justiça requisitar força policial para auxílio no cumprimento da ordem judicial, nos estritos limites necessários, resguardada a integridade física dos envolvidos", determinou.>
No dia seguinte, a advogada da família entrou com um pedido na Justiça para que a decisão fosse revista. Na última sexta-feira (13), a solicitação foi indeferida e os efeitos da decisão liminar passaram a valer novamente. >
Para tentar preservar o imóvel, a família tenta fazer com que o casarão seja considerado um patrimônio histórico e cultural do município. A ideia recebeu sinalização positiva do presidente da Câmara de Ibiraçu, Breno Lucio Andrade de Oliveira (Podemos). "O imóvel, sem sombra de dúvidas, possui inegável valor histórico, cultural, arquitetônico e paisagístico e ambiental para a comunidade local e deve ser preservado", declarou.>
O prefeito Eduardo Marozzi Zanotti (Podemos), no entanto, afirmou que o município não encontrou viabilidade para tombar o casarão. "Não há procedimento adiministrativo de tombamento em curso ou medida de proteção patrimonial vigente em relação ao referido imóvel", manifestou o chefe do Executivo municipal.>
A discussão sobre o tombamento ainda foi parar na Assembleia Legilstiva do Espírito Santo (Ales). O deputado Coronel Weliton (PRD) apresentou o tema aos demais parlamentares e pediu para que fosse feito um diálogo com a Cãmara Municipal e a prefeitura para evitar a demolição do casarão.>
"O valor que a Ecovias ofereceu é insignificante, a família não consegue comprar outro terreno. Pedimos ao poder público e a sociedade cível que se mobilize em torno dessa injustiça que está sendo cometida", manifestou.>
Sobre a definição do traçado do Contorno de Ibiraçu, a Ecovias afirmou que foram estudadas diferentes alternativas técnicas, considerando aspectos de engenharia, ambientais e sociais. A solução adotada foi aquela que apresentou o melhor equilíbrio entre viabilidade técnica e menor impacto global para o município.>
Segundo a Ecovias, a preservação integral do casarão se mostrou inviável dentro dessas condições, uma vez que a única alternativa que possibilitaria sua manutenção implicaria a duplicação da rodovia no perímetro urbano, o que resultaria em um número significativamente maior de desapropriações, incluindo residências, comércios e estruturas de relevante valor social e cultural.>
A concessionária explicou ainda que no casos de imóveis produtivos, como áreas rurais, as indenizações consideram não apenas o valor da terra, mas também benfeitorias e outros componentes previstos na legislação, podendo incluir, conforme o caso, aspectos relacionados à atividade econômica desenvolvida na área. Além disso, o contrato de concessão prevê o Plano de Ação de Reassentamento (PAR), que contempla acompanhamento social das famílias impactadas, com apoio técnico ao longo de todo o processo.>
A Ecovias informou que as obras de duplicação da BR 101 e a implantação do Contorno de Ibiraçu são conduzidas com base em estudos técnicos, ambientais e sociais, com o objetivo de melhorar a segurança viária, a fluidez do tráfego e a qualidade de vida da população local, reduzindo especialmente o fluxo de veículos pesados no perímetro urbano do município. >
A empresa disse que o conjunto de áreas necessárias para a implantação do Contorno de Ibiraçu inclui cerca de 20 propriedades, entre áreas com e sem edificações. "Os processos seguem em diferentes estágios, incluindo tratativas administrativas e judiciais, conforme as particularidades de cada caso", explicou.>
Por fim, a Ecovias disse que permanece aberta ao diálogo com os proprietários para a construção de soluções consensuais, buscando conduzir o processo de forma respeitosa e responsável. "A concessionária reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e o diálogo, mantendo-se disponível para esclarecimentos e para a construção de soluções responsáveis junto às partes envolvidas", manifestou.>
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