ASSINE

Entenda por que a 4ª onda da Covid no ES é menos letal, mas tem explosão de casos

Em ondas anteriores, quando a Ômicron ainda não estava no radar, mais pessoas morriam pelo coronavírus no Espírito Santo em um cenário com menos casos da doença

Tempo de leitura: 5min
Vitória
Publicado em 23/01/2022 às 10h47
Covid-19
Covid-19: quarta onda registra mais casos do que em toda a pandemia. Crédito: Pixabay

Espírito Santo tem alcançado os maiores números de casos diários da Covid-19 desde o início da pandemia. Os registros em 24h ultrapassaram 11 mil pessoas infectadas na última segunda-feira (17). A tendência é seguida em todo o Brasil, que bateu o recorde no dia seguinte, com mais de 200 mil infecções.

Porém, ao passo que o número de casos da doença chega a um patamar nunca antes visto no Estado e no país, a quantidade de mortes, felizmente, não tem crescido na mesma velocidade. Em ondas anteriores, quando a Ômicron ainda não estava no radar, mais pessoas morriam pela Covid  em um cenário com menos casos da doença. Ou seja, a letalidade da quarta onda é menor.

Mas o que poderia explicar um aumento no número de casos sem que houvesse um crescimento acelerado na quantidade de óbitos? Para especialistas ouvidos por A Gazeta, a cobertura vacinal e a característica da variante Ômicron são os principais fatores do crescimento dos números em velocidades diferentes.

A comparação com períodos anteriores mostra que há um aumento nas mortes por Covid no Estado, mas sem um pico de crescimento como acontece entre os casos da doença. A quantidade de mortes, aliás, não pode ser desprezada, afirmam especialistas.

De acordo com o infectologista e professor da Emescam Lauro Ferreira Pinto, entre as duas causas apresentadas, a mais importante é a vacinação. O médico explica que a elevada cobertura vacinal entre adultos no Espírito Santo gera uma proteção, evitando que essas pessoas ocupem leitos de UTI com quadros graves ou morram em decorrência da Covid.

Apesar da cobertura vacinal, ainda é possível que pessoas completamente imunizadas procurem o sistema ambulatorial ou hospitalar. As vacinas não impedem a infecção, mas diminuem os riscos de uma evolução para quadros graves da Covid.

No Estado, 81% do público geral apto a receber a vacina está completamente imunizado, de acordo com o Painel Vacina e Confia. São quase sete milhões de doses aplicadas desde o início da campanha de imunização, em janeiro de 2021.

Mais de 80% das pessoas aptas a receber a vacina no ES estão imunizadas
Mais de 80% das pessoas aptas a receber a vacina no ES estão imunizadas. Crédito: Painel Vacina e Confia

Atualmente o Espírito Santo tem mais de 77% dos leitos UTI/enfermaria ocupados por pacientes com a doença, segundo informações do Painel Covid-19. A elevação do número de leitos ocupados ainda não representa uma preocupação, uma vez que há capacidade de ampliar a disponibilidade.

Ocupação de leitos ultrapassa 77% no ES
Ocupação de leitos ultrapassa 77% no ES. Crédito: Painel Covid-19

Em entrevista à Rádio CBN Vitória, o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, ressaltou a importância da vacinação na estabilidade do número de óbitos e casos graves, mas disse também que os capixabas precisam entender o "alto risco" no atual estágio da pandemia.

"Sem dúvida a vacinação é um sucesso internacional no controle da pandemia em número de óbitos e internações. No entanto, precisamos ter cautela na comunicação de risco, não podemos considerar aceitável variações de patamares que já alcançamos antes. Há uma transmissão descontrolada da doença. A vacinação impediu que a quarta onda tivesse repercussão entre as mortes, o que seria avassalador. Uma variante tão infecciosa com casos que poderiam evoluir a óbito", comentou.

Além do impacto das vacinas aplicadas contra a Covid-19, infectologistas também detalham a diferença entre a Ômicron e outras variantes descobertas desde o início da pandemia. A Ômicron é a quinta e mais recente mutação classificada como variante de preocupação pela Organização Mundial de Saúde. Já há registros de predominância da variante em todo o Brasil, inclusive no Espírito Santo.

Lauro Ferreira Pinto

Médico infectologista

"Temos casos menos graves, em primeiro lugar, por causa da vacinação, sem sombra de dúvida. Em segundo lugar, a variante é um pouco menos grave. Trabalhos mostram que ela se concentra mais nas vias aéreas superiores, na garganta, na faringe e menos nos pulmões. Mas a principal razão é a vacinação"

Ainda de acordo com Lauro Ferreira Pinto, é evidente que a Ômicron está espalhando com uma velocidade muito maior que outras variantes, como a Delta. Segundo o médico, não é possível afirmar, porém, que os números de hospitalizações e mortes ficarão estáveis durante todo o período da quarta onda.

"Em algum momento podemos ter mais hospitalizações e mortes. Não na mesma proporção que em outras ondas, mas vamos ter. É preciso lembrar que pessoas com mais de 80 anos e com muitas comorbidades, mesmo vacinadas, são colocados em risco por causa de uma gripe mais séria. Algum impacto a Ômicron vai ter", afirma.

O crescimento no número de mortes, mesmo sem a velocidade do aumento de casos, deve ser um ponto de observação, defende o infectologista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Crispim Cerutti Júnior. Em entrevista à reportagem de A Gazeta, o médico avaliou que um aumento de casos gera naturalmente um aumento no número de mortos pela Covid-19.

Crispim Cerutti Júnior

Médico infectologista

"Temos que enfatizar o volume de casos provocados pela variante Ômicron mais do que o efeito em cada um dos infectados. Houve diminuição da quantidade de óbitos em comparação com ondas anteriores. Mas se os casos aumentarem, o percentual de mortes, mesmo que pequeno, pode representar uma grande quantidade de adoecidos. Quanto maior a circulação da variante, mais mortes"

4ª ONDA VAI DEMORAR PARA ACABAR NO ESPÍRITO SANTO?

O aumento da curva de casos é registrado dias depois das festas de final de ano. Aglomerações foram registradas no Estado entre o Natal e o Réveillon. Para o infetcologista Crispim Cerutti Júnior, os números da pandemia no Estado foram afetados pelas contaminações durante as festas.

Mas quando perguntados por A Gazeta se o Espírito Santo está perto do declínio da onda, infectologistas concordaram ao dizer que os números podem aumentar ainda mais.

Crispim Cerutti argumenta que: "Pelo que podemos analisar de outros lugares, a onda pode ser ainda maior. O declínio nos casos não deve demorar, mas ainda não vislumbramos esse momento. Países europeus tiveram queda nos casos em um período mais curto do que em ondas anteriores, mas ainda não é o nosso cenário."

Já Lauro Ferreira Pinto pondera: "Acho que ainda não chegamos ao pico. É difícil prever, mas a experiência em outros países mostrou que a Ômicron tem uma curva mais rápida. São quatro, seis ou sete semanas. Acredito que estejamos entre a terceira e quarta semana."

ALERTA PARA CUIDADOS

Apesar de menos letal, a 4ª onda da pandemia no Espírito Santo não é inofensiva. Muito pelo contrário. Para Crispim Cerutti, o comportamento adotado pelas pessoas têm sido determinante para que a Ômicron continue se espalhando.

"Estamos percebendo que a variante atinge indistintamente as pessoas, não há um grupo de risco. De uma forma geral, as pessoas estão muito relaxadas, saindo sem máscara, se tocando, sem cuidados com a higiene das mãos. Isso é o bastante para a circulação da Ômicron", afirma o médico.

O uso da máscara continua sendo obrigatório no Espírito Santo e ainda é recomendada para evitar a transmissão da Covid-19. Higiene das mãos e o distanciamento social também são estratégias válidas para evitar a infecção pela Covid.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.