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Com meio milhão de mortos, vacina pode frear pandemia, dizem especialistas

Para conter o avanço no número de casos e mortes, é preciso acelerar o ritmo da campanha de imunização; distanciamento social e uso de máscaras também são fundamentais

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 19/06/2021 às 21h21
Ato homenageia capixabas mortos pelo novo coronavírus na praia de Camburi, em Vitória
Brasil chegou à marca de 500 mil mortos por Covid-19 neste sábado (19). Crédito: Ricardo Medeiros

No dia em que o Brasil atingiu a marca de 500 mil mortes em decorrência da Covid-19, especialistas avaliam que a vacinação é a melhor estratégia para frear a pandemia no país. Com ritmo ainda lento, a campanha de imunização precisa ser acelerada, assim como devem continuar a ser estimuladas outras medidas de prevenção à doença, como o uso de máscara e distanciamento social.  O Brasil tem hoje apenas 11% da população com o ciclo de imunização completo (duas doses) e ainda convive com o risco de novas variantes, que podem levar a novas ondas de casos e óbitos. 

O diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira, ressalta que a  grande arma contra o vírus é a vacinação. Ele analisa que um dos principais problemas enfrentados no Brasil, desde o início da pandemia, é a falta de uma coordenação nacional no enfrentamento à doença e, além disso, o comportamento negacionista por parte de governantes e, principalmente, do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

"A gente não pode deixar de registrar total solidariedade às famílias e nossa revolta em relação à postura estapafúrdia do presidente em continuar negando a eficácia das vacinas, menosprezando principalmente a Coronavac por questões políticas, e também negando a eficácia das máscaras. É revoltante ter um presidente da República com essa postura. Essas mortes poderiam ser bem menores se, desde o início, o presidente se comportasse como um estadista e não como um irresponsável",  desabafa.

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Pablo Lira aponta que as melhores estratégias para impedir que o número de óbitos cresça ainda mais são acelerar o ritmo das imunizações contra o coronavírus e incentivar que a população respeite as medidas de proteção à doença, como o uso de máscaras e o distanciamento social. O diretor do IJSN explica que, para que haja segurança no convívio em sociedade, a meta é atingir entre 70% e 80% da população vacinada, mas, até o momento, apenas 11% dos brasileiros receberam as duas doses dos imunizantes.

"Além disso, sabemos que a vacinação começou em um ritmo lento, melhorou nos últimos meses, mas tem que ser melhor ainda. Medidas não farmacológicas devem ser adotadas, como o uso de máscaras, higienização e não aglomeração. E, nos momentos de pico, como ocorreu no mês de março, é necessário implantar outras medidas, como a quarentena adotada no Estado", argumentou.

"O BRASIL É UM DOS PAÍSES QUE MENOS TESTA NO MUNDO"

Com o surgimento de novas variantes do Sars-Cov-2 (coronavírus), que podem ser mais contagiosas e até mais letais, e sem vacinação num ritmo adequado, o risco para a população aumenta. Pablo Lira explica que uma das medidas para impedir a disseminação de novas mutações do coronavírus é a testagem em massa. O Brasil, porém, segundo o pesquisador, é um dos países que menos faz testes para Covid-19.

"O Brasil é um dos países que menos testa no mundo. São 270 mil testes para cada 1 milhão de pessoas. No Espírito Santo, são 375 mil testes para cada 1 milhão de pessoas. O Espírito Santo tem um indicador melhor que o nacional. O presidente deveria ter adotado desde o início o controle das viagens nos aeroportos, nos portos, controle de fronteira. O Paraguai está vivendo uma crise terrível e a fronteira com o Brasil não tem medidas efetivas, barreiras", pontua. 

"VIVEMOS EM UM EFEITO SANFONA"

Outro que aposta na aceleração da campanha de vacinação é o membro do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (NIEE) e professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Etereldes Gonçalves. Ele conta que a previsão de chegar às 500 mil mortes até a metade do ano, feita quando o país ainda lamentava 300 mil óbitos, foi concretizada. Para solucionar isso, porém, a resposta já existe.

"Duro é que dissemos que chegaríamos a 500 mil mortes até o meio do ano. Já sabemos o que precisamos fazer: acelerar vacinação. Só a vacinação pode nos livrar deste morticínio. Até termos vacinação em massa, ou seja, pelo menos 70% da população, temos que conter a disseminação e o surgimento de novas cepas. Isso com medidas de barreiras sanitárias, restrições de circulação e aglomeração de pessoas. Vivemos num efeito sanfona que favorece o vírus e, consequentemente, provoca mais mortes", observa.

Mesmo com uma possível aceleração da campanha de vacinação, porém, o professor faz uma previsão pessimista para quando os brasileiros poderão voltar à "vida normal". Na avaliação de Etereldes, o que causa preocupação é o surgimento de novas variantes do vírus que podem driblar a tecnologia das vacinas, caso a doença continue com o ritmo atual de disseminação.

"Os dados de alguns países que já vacinaram bastante mostram que o número de pessoas vacinadas que estão ficando graves e falecendo é grande. Se surgir uma variante que escapa do sistema de imunização vacinal, teremos uma grande onda de óbitos até adaptar as vacinas e imunizar a população novamente. É preciso aprender com o "bota casaco, tira casaco". Hoje nos resta torcer para o mundo acelerar a vacinação e, neste meio tempo, não surgir a tal variante."

No caso do surgimento de uma variante do coronavírus que consiga de fato enganar as tecnologias das vacinas disponíveis hoje em dia, Etereldes acredita que o processo de desenvolvimento de uma nova técnica de imunização será feito de forma mais rápida. Isso porque, conforme dito pelo professor, a adaptação dos imunizantes, com o conhecimento já adquirido, seria mais rápida. O desrespeito às medidas de proteção da contaminação, entretanto, ainda são fatores que preocupam.

"A ciência sabe o que fazer. Alguns países controlaram muito bem a doença em seus territórios. Mas não adianta controlar em um lugar e deixar correr solto em outro. Mas é certo que a adaptação da vacina deve ser bem mais rápida e a vacinação também. Mas até a imunizar a população novamente, certamente teremos uma nova grande e terrível onda de óbitos. O ideal seria a combinação do Reino Unido e Israel. Lockdown e vacinação rápida para frear a disseminação e diminuir a probabilidade de surgimento desta variante", finaliza o professor. 

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