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Execução em Vitória e tiroteios em Planalto Serrano insultam a sociedade

Crimes como o desta manhã na Avenida Jerônimo Monteiro fazem a sensação de insegurança disparar, por expor a fragilidade das normas estabelecidas que inibem a criminalidade

Publicado em 09/06/2021 às 16h40
Morte
Imagens do videomonitoramento flagraram toda a ação no Centro de Vitória na manhã desta quarta-feira (09). Crédito: Reprodução/TV Gazeta

Na reunião desta quarta-feira (09) para a elaboração do editorial diário deste jornal, duas situações da segurança pública no Estado  colidiram. De um lado, a indignação com a violência testemunhada quase diariamente, nas últimas duas semanas, pelos moradores de Planalto Serrano, na Serra. Do outro, o alívio proporcionado pela coluna de Leonel Ximenes que mostrava que Vitória havia completado um mês sem registro de homicídios, uma marca importante para qualquer município, ainda mais significante para os da Região Metropolitana. Lamentavelmente, a violência sistêmica é dinâmica demais e, enquanto a "Opinião da Gazeta" era definida, dois assassinatos na Capital entraram para as estatísticas.

Em um dos casos, registrado no Centro de Vitória por volta das 10h desta manhã, os criminosos não tiveram qualquer tipo de pudor: abriram fogo diante de dezenas de pessoas que formavam fila na frente do Edifício das Repartições. Imagens do videomonitoramento flagraram toda a ação. Além de um homem de 27 anos ter sido executado, duas mulheres que estavam no local foram baleadas, evidenciando o perigo que o cidadão corre quando a ousadia dos bandidos não parece temer a lei e a ordem. No prédio, está localizado o Escritório Social - vinculado à Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) -, na Avenida Jerônimo Monteiro, uma das mais movimentadas do Centro. O Escritório Social presta atendimento aos egressos do sistema prisional.

Assim, a própria Sejus informou que a vítima — morta ali mesmo na calçada, alvejada na cabeça — "cumpriu pena no sistema prisional no período de 06/10/2018 a 04/12/2020 pelo crime de tráfico de drogas". Ele também possui passagem por homicídio". O passado criminal desse homem não justifica a sua morte, por qualquer motivo. O sistema de regras dos criminosos, com seu modelo de justiça à bala, é o que tem feito crescer as mortes nos bairros dominados pelo tráfico. E, esse crime horroroso, em plena luz do dia, numa das principais avenidas da cidade, é uma afronta à sociedade e mostra que essa guerra está indo longe demais.

Basta acompanhar a rotina do medo vivida pelos moradores de Planalto Serrano, na Serra,  que nas últimas duas semanas estão convivendo com o acirramento do terror promovido pelas gangues que brigam pelo controle do tráfico no bairro. Os relatos de tiroteios nos últimos dias chegam com uma frequência assustadora.  "De 15 dias para cá estamos vivendo na Faixa de Gaza, no terror. Não tem horário ou dia certo para ter tiroteio", relata uma moradora que não quis se identificar por segurança. É impossível não se compadecer quando o temor se entranha na rotina de quem é vizinho da violência sistematizada.

Desde janeiro, quando o chefe de um dos quatro grupos que dominam o tráfico no bairro foi preso, as movimentações para a ocupação desse espaço vago deram início a uma onda de violência que interfere diretamente na vida dos moradores. Do fim de maio para cá, os tiroteios têm ocorrido praticamente todo dia. Duas pessoas morreram, uma jovem de 20 anos e um homem. Outras três pessoas foram baleadas. E o que mais intriga é o desaparecimento de um barbeiro de 24 anos após uma dessas trocas de tiro, no último sábado (9). A mãe conta que testemunhas afirmam que ele foi colocado dentro de um carro após ser alvo de tiros.

A situação de pânico vivenciada pelos moradores de Planalto Serrano em nada se distingue da rotina de quem vive em outros bairros violentos da Grande Vitória. As notícias dos tiroteios recentes em Andorinhas, na guerra contra os vizinhos de Itararé e Bairro da Penha, também expuseram esse drama. Os bairros do maciço central de Vitória se alternam nessas ondas de violência. E os demais municípios não ficam de fora, com os avanços e recuos das facções determinando fronteiras entre aliados e rivais. 

O primeiro quadrimestre de 2021, em números gerais comparados com 2020, teve uma diminuição de 13,47% dos homicídios em todo o Espírito Santo. Mas vale lembrar que o mesmo período de 2020 foi marcado pela disparada da violência, que incitou até mesmo a troca de comando na Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social (Sesp). Os números de 2021, se comparados com o mesmo período de 2019, registram um aumento de 5,28% no número de assassinatos.

As estatísticas são o termômetro para a adoção de políticas públicas, mas crimes como o desta manhã no Centro de Vitória fazem a sensação de insegurança disparar, por expor a fragilidade das normas estabelecidas que inibem a criminalidade. Manaus e diversas cidades do Amazonas estão passando por um momento de caos na segurança pública, incitado por lideranças criminosas nos presídios, o que mostra o risco que o país vive ao não conseguir desmontar as conexões do tráfico, tanto no nível nacional quanto no local. No Espírito Santo, essa violência, no Centro da Capital ou nos bairros periféricos, é inaceitável, e a rede do crime que as promove precisa ser desarticulada.

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