Em Vitória, temos o deputado estadual Lucinio de Assumção (Patriota; capitão da reserva da Polícia Militar do Espírito Santo) e o ex-comandante-geral da PMES Nylton Rodriges (Novo; coronel da reserva). Em Cariacica, Sérgio Lopes de Assis (PTB; subtenente dos Bombeiros Militares) e o vereador Joel da Costa (PSL; cabo da reserva da PMES).
Em Vila Velha, Wagner Borges (PL; tenente-coronel dos Bombeiros Militares). Em Viana, o vereador Max Daibert (PP; cabo da reserva da PMES). Em Guarapari, Daltro Ferrari (PSD; coronel da PMES). Em Cachoeiro, Paulo Sérgio Alemães (PTB; subtenente da PMES).
Todos os membros da tropa relacionada acima são candidatos a prefeito das respectivas cidades, pelos respectivos partidos citados entre parênteses. Também como ponto em comum, todos são oriundos de forças militares, ocupando as respectivas patentes informadas entre parênteses.
O tamanho da lista impressiona, mas veja bem: estamos considerando apenas os que são cabeças de chapa e um recorte que compreende somente a região metropolitana e as três cidades mais populosas do interior do Espírito Santo. Há muito mais.
Na reserva (ainda que na ativa) desse time que joga de uniforme militar, temos também um número considerável de candidatos a vice-prefeito nessas mesmas cidades. Em Vitória, Capitão Assumção terá como vice quase o seu reflexo no espelho, porém na ativa: o também capitão da PMES Hélio Martinelli Tristão (PTB). Em Vila Velha, na chapa puro-sangue do PSL, encabeçada por Amarildo Lovato, o vice será o tenente-coronel da PMES Carlos Alberto Foresti.
Em Colatina, o capitão da reserva da PMES Aloir da Silva (Avante) é o nome mais cotado para ser o companheiro de chapa da professora Maricelis (Cidadania).
Já Cachoeiro, cidade muito conservadora e bolsonarista, superou-se. Além da candidatura do subtenente Paulo Sérgio a prefeito, tem três militares como candidatos a vice, incluindo o da chapa do atual prefeito, Victor Coelho (PSB): o coronel da PMES Ruy Guedes (Podemos). Os outros dois são o sargento Luciano Missias (PRTB), vice de Jovelino Schiavo, da mesma sigla, e o Capitão Sousa (Rede), também da PMES, vice de Joana Darck (PT).
A eleição na Serra não tem nenhum representante dessa escalação fardada, mas cabe um registro póstumo: morto em um acidente de carro na BR 101, em fevereiro, o vereador Cabo Porto queria concorrer à prefeitura da cidade pelo PSB.
Apesar de todos eles convergirem na origem militar, é preciso matizar um pouco a lista e observar algumas nuances. A influência do “fator Bolsonaro” nesse expressivo número de candidatos é muito óbvia, mas não necessariamente todos participam do mesmo “regimento político”.
SOLDADOS DO BOLSONARISMO
A maioria tem vínculo evidente com o bolsonarismo, isto é, defendem incondicionalmente o presidente, seu governo e sua ideologia, manifestando notória identidade política com o capitão da reserva do Exército que governa o país – tendo ainda, vale lembrar, outro militar como vice-presidente: o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB).
Exemplos muito claros desse pelotão bolsonarista são a chapa de Assumção em Vitória, o Subtenente Assis em Cariacica e todo o exército de candidatos abrigados no PTB reorientado pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson. Tanto aqui como no resto do país, a sigla servirá, nesta eleição, praticamente como um partido militarista que dará legenda temporária a candidatos com esse perfil.
Há outros nomes em nossa lista que não se identificam abertamente como seguidores fervorosos de Bolsonaro, mas se declaram, como ele, “conservadores de direita”, o que de certo modo os aproxima. É o caso de Wagner Borges, em Vila Velha, para citar um exemplo.
BOLSONARISTA ÀS AVESSAS
Por outro lado, há pelo menos um exemplo de militar cuja candidatura tem tudo a ver com Bolsonaro e com o bolsonarismo, mas como reação e contraposição a esse movimento de direita militarista que encontra no presidente sua principal matriz e referência país afora. É o Capitão Sousa, que não só será vice de uma candidata do PT a prefeita de Cachoeiro como integra o movimento “Policiais Antifascismo” (por evidente, contrário a Bolsonaro).
MILITARES HARTUNGUISTAS
E existe ainda, nessa lista, pelo menos dois candidatos que têm relação política muito maior e mais clara com o ex-governador Paulo Hartung (sem partido), um crítico contumaz das ideias do presidente da República desde antes da eleição de 2018. Ambos foram importantes colaboradores no 1º escalão de governos de Hartung no Estado. São eles: o coronel Daltro Ferrari, ex-chefe da Casa Militar, e o também coronel Nylton, que, na reta final da última administração de Hartung (de abril a dezembro de 2018), chegou a ser secretário estadual de Segurança Pública.
Antes disso, Nylton assumiu o comando-geral da tropa no início da greve da PMES (apoiada a distância por Bolsonaro), em fevereiro de 2017, e ajudou a debelar o movimento paredista. Diga-se de passagem, a lista também traz participantes da referida greve, como os já citados Foresti e Assumção.
É MUUUUUUITO MAIS COMPLEXO
Uma nota especialmente curiosa é que a eleição em Vitória colocará frente a frente Assumção e Nylton. Adversários na greve e no seio da PMES, ambos se declaram de direita e conservadores, mas têm perfil, militância e interpretação completamente distintas sobre esse conceito.
Isso prova o quanto é mais complexo isso que se convenciona chamar de “nova direita brasileira” e o quanto é vago e impreciso reduzir a discussão política no país a um duelo binário entre “direita” e “esquerda”, como se houvesse tão somente essas duas categorias estanques e como se cada uma delas correspondesse a um campo coeso e unificado. Longe disso. Há várias direitas (e têm brigado muito entre si), assim como sempre houve várias esquerdas (que historicamente brigam entre si).
Seja como for, findo o período das convenções partidárias, na última quarta-feira (16), é possível concluir que, nesta eleição municipal de 2020, teremos um número descomunal de militares disputando mandatos eletivos, inclusive no Espírito Santo.
Neste sábado (19) identificamos o fenômeno. É preciso, contudo, compreender suas razões. Como explicar essa presença maciça, sem precedentes na era democrática inaugurada em 1985 (com o fim da ditadura militar), de militares buscando espaços de poder pelo voto popular nos municípios? É o que a coluna responderá neste domingo (20).
Um abraço, bom sábado e até lá!