O bloco de poder e influência liderado por Renato Casagrande no Espírito Santo está em franca expansão. Além do crescimento do próprio partido (PSB), que acaba de filiar muitos prefeitos, o governo Casagrande tem projetado a sua sombra sobre agremiações que oficialmente nem sequer fazem parte da coalizão governista. Isso significa que o sistema de corpos celestes constituído em torno do Palácio Anchieta também está em plena expansão: mais satélites partidários gravitando ao redor do governador (o astro central nessa galáxia política, se quisermos nos ater à metáfora).
Além do PSB, o núcleo político de Casagrande, instalado no poder estadual, criou ramificações muito profundas sobre outras siglas que hoje não só fazem parte da base governista como se encontram inteiramente atreladas (para não dizer subordinadas) ao projeto político do governador. Podemos citar o PV, o PTB, o PP, o Podemos e o PDT.
O resultado prático disso é que, nas próximas eleições municipais, em algumas cidades, quem quer seja o prefeito eleito, o governo Casagrande não tem como perder. Um exemplo é Viana, onde o atual prefeito é Gilson Daniel (Podemos) e, entre os pré-candidatos a prefeito, estão o secretário estadual de Meio Ambiente, Fabrício Machado (PV), o presidente da Câmara, Fábio Dias (recém-filiado ao PSB), o vereador Cabo Max (PP), o ex-prefeito Demósthenes Soares (PTB) e o ex-superintendente da Polícia Rodoviária Federal no Espírito Santo Wylis Lyra, que ocupava cargo comissionado no Detran/ES até o início de abril e se desligou exatamente para participar da eleição.
Embora filiado ao MDB, Lyra estava no governo e faz parte de um MDB sobre o qual o grupo de Casagrande tem estendido os seus tentáculos, o que nos remete àquele outro ponto da análise: no universo político capixaba, até astros que não faziam parte do sistema Casagrande estão cedendo ao magnetismo natural de quem ocupa o Palácio Anchieta. Exemplos: MDB e PSDB (parcialmente); PSD, PSL e até o ainda nem fundado Aliança pelo Brasil.
MDB: CACHOEIRO E TIME MARCELINO
Partido de Paulo Hartung até o fim do seu governo, em 2018, o MDB já tem algumas alas sob notória influência do Palácio Anchieta. É o caso do MDB de Cachoeiro, cujo presidente municipal, Rogério Athayde, chefe do Procon/ES desde janeiro, já declarou à coluna que o partido pretende apoiar a reeleição do prefeito Victor Coelho (PSB) na cidade.
Nas últimas semanas, o partido do ex-deputado federal Lelo Coimbra perdeu alguns prefeitos para o próprio PSB, como os de Anchieta, Ibitirama, Santa Maria de Jetibá e Divino de São Lourenço.
E, na renhida disputa travada há cerca de um ano pela presidência estadual do MDB, Lelo chegou a acusar a interferência externa praticada por agentes do governo Casagrande em favor de seu concorrente interno, o também ex-deputado federal Marcelino Fraga. O governo nega esse movimento, que teria por objetivo deslocar o MDB da órbita de Hartung (de quem Lelo é aliado histórico) para a de Casagrande, por intermédio de Marcelino.
PSD: NEUCIMAR E ENIVALDO DOS ANJOS
Outro exemplo dessa expansão da “galáxia Casagrande” é o Partido Social Democrático (PSD), que esteve no âmago do governo passado de Hartung. O presidente estadual do partido, Neucimar Fraga, tem ensaiado o ingresso do partido no governo Casagrande.
Na Assembleia Legislativa, o mais incisivo defensor do governo é o deputado Enivaldo dos Anjos, ex-líder da situação no plenário, filiado ao PSD e pré-candidato a prefeito de Barra de São Francisco.
PSL: QUINTINO E NATHAN MEDEIROS (GANDINI/LUCIANO)
E o que dizer então do Partido Social Liberal (PSL)? Até fevereiro, sob a presidência do ex-deputado federal Carlos Manato, a legenda de direita estava centrada na oposição ao governo Casagrande. Agora, sob a batuta do deputado estadual Alexandre Quintino, aliado do governador, o PSL também passa a estar sob o controle indireto do Palácio Anchieta.
Prova maior disso foi a filiação, no dia 3 de abril, do secretário de Serviços de Vitória, Nathan Medeiros, ao PSL, saindo do próprio PSB, numa jogada para se viabilizar como vice na chapa do deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) à Prefeitura de Vitória. A candidatura tem a simpatia de Casagrande e também está integrada ao mesmo projeto de poder no plano estadual.
PSDB: MAMERI, LUIZ PAULO, MAX E RICARDO
Acrescente-se à conta o PSDB, outro pilar, ao lado do MDB, do governo passado de Hartung, cujo vice foi o tucano César Colnago. Desde o início do atual governo, “fragmentos cósmicos” do partido já haviam aderido a Casagrande, a exemplo do deputado estadual Emílio Mameri, cujo genro, Raphael Trés, é o diretor-presidente da Ceturb.
Com o retorno ao PSDB do ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas, que comandou até o início de abril o Instituto Jones dos Santos Neves, a influência de Casagrande sobre o ninho tucano também tende a se acentuar. Isso sem mencionar o prefeito de Vila Velha, Max Filho, muito bem relacionado com o governador, e o ex-senador Ricardo Ferraço, que se estabeleceu como aliado de Casagrande e, sem aparecer, tem colaborado muito com ele.
Circunstancialmente, o PSDB até esteve na coligação encabeçada por Casagrande em 2018, mas seu presidente regional, o deputado estadual Vandinho Leite, não é aliado do governo na Assembleia Legislativa.
ALIANÇA PELO BRASIL: MARCOS DO VAL
Por fim, até uma sigla que ainda nem sequer existe pode, em teoria, ir parar à sombra do gigante que está se transformando o governo Casagrande na geopolítica estadual: nos bastidores políticos, comenta-se que o direitista Aliança pelo Brasil, partido a ser fundado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), poderá ser conduzido no Estado, uma vez criado, pelo senador Marcos do Val (Podemos), outro aliado de primeira hora de Casagrande.
Ao contrário das demais, esta informação, no momento, ainda não passa de especulação, mas tem circulado fortemente no mercado político capixaba. Caso se confirme, o governador socialista pode colocar um pé (ou tentáculo) até no futuro partido de Bolsonaro.
É ou não é um autêntico Big Bang político?