O presidente Jair Bolsonaro parece ter mesmo compromisso com o erro (ou com a autossabotagem). Com o Brasil e seu próprio governo já em chamas, joga mais gasolina no incêndio. Em plena pandemia do novo coronavírus, num momento em que sua popularidade já está em franca queda nas pesquisas de opinião, o presidente conseguiu criar uma crise com seu ministro mais popular, cujo desfecho, o pedido de demissão de Sergio Moro, tende a corroer ainda mais seu já abalado capital político.
A decisão de Bolsonaro de substituir o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, contra a vontade de Moro, veio no pior momento possível, politicamente falando, para seu governo e para o próprio presidente. A inoportuna decisão foi a gota d'água que levou o agora ex-ministro da Justiça a entregar o cargo, na manhã desta sexta-feira (24), pondo fim a uma relação turbulenta e marcada por desentendimentos entre os dois desde meados de 2019.
Neste momento que já era crítico para o atual governo, a saída de Moro deve levar Bolsonaro a perder parte considerável da adesão que sempre encontrou em um segmento muito importante da sua heterogênea base de apoio na sociedade brasileira: os “lavajatistas”. Trata-se daqueles eleitores que são, antes de tudo, apoiadores incondicionais da Operação Lava Jato – leia-se de Sergio Moro. Para muitos desses eleitores, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, mas o deus na Terra tem nome e atende por Sergio Moro.
Boa parte desse eleitorado votou em Bolsonaro e o apoia (ou, pelo menos, o apoiava até agora) enxergando no ex-deputado a personificação da ideia de combate implacável à corrupção, promessa com a qual o presidente realmente se elegeu. O dia a dia do governo até aqui já vinha revelando a distância entre expectativa e realidade. Mas a saída de Moro agora põe em xeque, em definitivo, a veracidade desse compromisso de Bolsonaro com o combate à corrupção. Afinal, Moro era, justamente, o ministro que simbolizava esse suposto compromisso.
No que então foi considerada uma jogada política de mestre, logo após ter se sagrado vencedor nas urnas em 2018, Bolsonaro convidou o então juiz para sua equipe, prometendo-lhe carta branca, precisamente para transferir para seu embrionário governo não só o carisma de Moro mas, acima de tudo, o simbolismo encarnado por ele, no imaginário social brasileiro, em termos de seriedade e enfrentamento à corrupção.
A partir do momento em que Moro deixa o cargo, não é só a pessoa do ex-juiz que se desvincula do governo Bolsonaro. É, antes de tudo, o selo de “tolerância zero com malfeitos no poder público”.
Até porque, mais que a saída de Moro, é preciso sublinhar a maneira como ele decidiu sair. Em primeiro lugar, deixou claro que Bolsonaro já não o queria no ministério. A decisão final pode ter sido de Moro, mas a verdade é que ele praticamente se viu forçado a tomá-la. Politicamente, já não havia espaço algum para ele no governo.
Desde o início de 2019, Bolsonaro rasgou sem rodeios a promessa feita a Moro quando o convidou, e logo a pretensa “carta branca” veio com “poder de veto”. Há meses, o ex-juiz vinha acumulando derrotas em divergências com Bolsonaro e, falemos francamente, algumas humilhações públicas impostas a ele pelo presidente.
Em segundo lugar, Moro deu a entender que decidiu tomar essa decisão agora para preservar sua história e sua imagem e por não querer compactuar com uma série de determinações de Bolsonaro muito pouco republicanas – para dizer o mínimo. Em seu pronunciamento, Moro repetiu dezenas de vezes as palavras “interferência política”. Apontou contínuas gestões de Bolsonaro para controlar pessoalmente a Policia Federal, pretendendo inclusive receber informações diretas sobre o andamento de inquéritos e nomeando pessoas escolhidas a dedo por ele (à revelia de Moro) para cargos estratégicos.
Foi nesse sentido, segundo Moro, que Bolsonaro derrubou Valeixo, homem de confiança do ex-juiz. Também foi com esse intuito, de acordo com Moro, que o presidente lhe comunicou a decisão de mudar a chefia de várias superintendências da PF, como a do Rio de Janeiro, onde paira um inquérito que sempre o incomodou contra seu filho 01, Flávio Bolsonaro.
Como se não bastasse, conforme Moro revelou, Bolsonaro pediu-lhe que interferisse diretamente (para bom entendedor, interrompesse) em inquéritos que tramitam no STF – onde, por exemplo, seu filho 02, Carlos Bolsonaro, é investigado por causa da atuação do chamado “gabinete do ódio”. Nas palavras do próprio Moro, isso preocupa muito.
E preocupa mesmo. O que Moro indicou é que o presidente viria atuando pessoalmente para blindar aliados e familiares, com o objetivo de abafar e obstruir investigações da PF que possam atingi-los – e, por conseguinte, também a ele. Isso é gravíssimo. Representa violação acintosa da autonomia necessária aos trabalhos da Policia Federal (e do MPF, a propósito).
Tudo considerado, já há muitos juristas e analistas que veem, nas declarações de Bolsonaro, indícios para a imputação de crimes de responsabilidade. Em outras palavras, fundamentos para pedido de impeachment. É preciso ter calma nessa hora. Mas a gravidade dos fatos é gritante.
Enfim, o presidente BolsoNero, adorador de armas de fogo, consegue dar mais um tiro no pé. Um tiro que pode lhe custar caro politicamente. De imediato, é certo que lhe custará apoio popular. No limite, pode lhe custar o cargo.