“Tá tudo dominado”. Ou quase tudo. Tendo como símbolo uma pombinha, mas bico de pelicano (e daqueles com barriga muito grande), o Partido Socialista Brasileiro (PSB) prepara-se para “passar o rodo” de fora a fora no Espírito Santo, nas eleições municipais de outubro, expandindo consideravelmente o número de prefeitos eleitos pela legenda. E, a princípio, parece ter tudo para isso, a julgar pelo número expressivo de prefeitos atualmente com mandato, de norte a sul do Estado, que o partido está "contratando" e que tentarão se reeleger em outubro.
Em geral, por terem a máquina pública nas mãos, prefeitos no exercício do mandato que concorrem à reeleição costumam entrar na disputa municipal como francos favoritos, especialmente em municípios pequenos (onde os cidadãos dependem muito mais dos serviços, e não raro até dos empregos, proporcionados pela prefeitura), a não ser que tenham realizado realmente um primeiro mandato muuuuuito ruim.
O detalhe é que, antes da temporada de trocas partidárias, o PSB tinha um número bem modesto de prefeitos no Espírito Santo: apenas quatro. A maior cidade sob o comando do partido do governador Renato Casagrande atualmente é Cachoeiro de Itapemirim, com o prefeito Victor Coelho. Além dele, o PSB tem Mário Sérgio Lubiana à frente de Nova Venécia; Vavá em Santa Leopoldina; e Felismino Ardizzon em Rio Bananal (cidade que, a título de curiosidade, foi governada por prefeitos de sobrenome Casagrande entre 1983 e 2004*).
Entretanto, após o encerramento do prazo de troca de partido para quem vai participar das eleições, a lista de “contratações” do PSB, entre os atuais prefeitos, é significativa (e, diga-se de passagem, meio sem critérios: “agrega” gregos e troianos). Confirmadíssimos nós temos:
. Cacau Lorenzoni, de Marechal Floriano (ex-PP);
. Fabrício Petri, de Anchieta (ex-MDB);
. Hilário Roepke, o Gatinha, de Santa Maria de Jetibá (ex-MDB);
. Reginaldo de Souza, de Ibitirama (ex-MDB);
. Eleardo Brasil, de Divino de São Lourenço (ex-MDB)
Deve-se registrar, ainda, que o PSB chegou a filiar, em meados de fevereiro, o então prefeito de Conceição da Barra, Chicão (ex-PSDB), com direito à presença da vice-governadora Jaqueline Moraes e do secretário estadual de Agricultura, Paulo Foletto (ambos do PSB), no ato de assinatura da ficha de filiação ao partido.
Todavia, poucos dias depois – em mais um forte indicativo da falta de critérios que tem presidido as “contratações” por parte do PSB –, Chicão teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que já marcou, inclusive, eleição suplementar no município, no dia 21 de junho, para escolha do prefeito que exercerá um mandato tampão até o fim do ano.
Não satisfeito em “roubar” prefeitos de outras agremiações – marcantemente, do MDB –, o partido do governador acabou de filiar alguns ex-prefeitos com recall político nos respectivos municípios, a exemplo de Ademar Devens (ex-PSD), prefeito de Aracruz por dois mandatos (2005-2012), e de Gilmar Borges (ex-PSD), que já administrou Fundão por três mandatos, sendo o último encerrado em 2004.
A Região Metropolitana também é um retrato dessa “gula político-eleitoral”, ou melhor, desse planejamento ambicioso do PSB para o pleito de outubro. Hoje, a menos de seis meses do 1º turno (marcado para 4 de outubro), o partido de Renato Casagrande possui pré-candidatos a prefeito nas sete cidades que compõem a microrregião administrativa:
Em Fundão, o já citado Gilmar Borges; em Guarapari, o ex-vereador Gedson Merizio, recém-exonerado da subsecretaria estadual de Turismo, precisamente para disputar a eleição; em Viana, o presidente da Câmara Municipal, Fábio Dias (ex-PT), outro recém-filiado;
Em Vila Velha, o PSB tem a pré-candidatura do deputado federal Ted Conti, que acaba de transferir o domicílio eleitoral de Guarapari para a cidade vizinha; na Serra, o pré-candidato da sigla é o deputado estadual Bruno Lamas, também exonerado, na última quinta-feira (2), do cargo de secretário estadual de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social, de modo a se manter apto a concorrer a prefeito.
Em Cariacica, o pré-candidato socialista é o professor e ex-vereador Saulo Andreon. Finalmente, na Capital, o partido consolidou a pré-candidatura do vice-prefeito Sérgio Sá, que derrotou o deputado estadual Sergio Majeski em prévia realizada pela Executiva Municipal do PSB no dia 17 de fevereiro. Entretanto, como Majeski permanece no PSB, ainda pode, tecnicamente, ser candidato a prefeito de Vitória pelo partido (por outra sigla, não mais).
Além de Majeski e Lamas, o PSB pode lançar seu terceiro deputado estadual a prefeito de Baixo Guandu: Dary Pagung, outra “contratação” relativamente recente, reeleito deputado em 2018 pelo PRP, partido que não superou a cláusula de barreira naquele pleito e se fundiu ao Patriota em 2019.
O primeiro suplente do partido na Assembleia, Eustáquio de Freitas, deverá agora “devolver” o mandato para Bruno Lamas. Ele deve ser reacomodado em algum cargo relacionado à articulação política do governo Casagrande, na Casa Civil, enquanto também se prepara para concorrer à prefeitura de sua cidade, São Mateus. Em 2016, Freitas disputou o mesmo cargo, tendo sido derrotado por Daniel da Açaí (PSDB).
O número, como se vê, é mesmo grande. Isso sem falar nos vários pré-candidatos que não são filiados ao PSB, mas a partidos extremamente integrados ao projeto de poder liderado hoje no Estado pelo partido de Casagrande: o Partido Verde (PV), o Progressistas (PP), o Podemos, o Avante e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
Tais pré-candidatos, mesmo não se lançando pelo PSB, na certa estarão no palanque do governo estadual e se apresentarão ao eleitorado como concorrentes apoiados pelo Palácio Anchieta. A título de exemplo, podemos citar os deputados estaduais Marcos Garcia (PV), em Linhares, e Renzo Vasconcelos (PP), em Colatina.
Esse projeto de poder ousado do grupo de Casagrande, visando à hegemonia política de norte a sul do Estado, passa diretamente pelo êxito nas eleições de outubro.
A ATRAÇÃO MAGNÉTICA DO GOVERNO
O magnetismo exercido pelo partido da vez instalado no governo estadual é um fenômeno habitual. Na última eleição municipal, realizada em 2016, com o então governador Paulo Hartung filiado ao MDB (e Michel Temer na Presidência da República), o partido presidido no Estado pelo então deputado federal Lelo Coimbra elegeu nada menos que 16 dos 78 prefeitos, ou 1/5 da totalidade, incluindo os de Linhares (Guerino Zanon) e de Colatina (Sérgio Meneguelli, que deixou o partido antes do fim do mandato e acaba de se filiar ao Republicanos).
Cabe notar que agora o MDB foi precisamente o partido que mais sofreu com o assédio do PSB sobre os seus quadros investidos de mandato nas prefeituras municipais.
* Jacinto Casagrande e João Carlos Casagrande, que teve como vice José Nivaldo Casagrande, estão entre os primeiros prefeitos de Rio Bananal, após a emancipação do município localizado na Região Norte do Estado. No total, quatro mandatos.