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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Prévia do PSB entre Sérgio Sá e Majeski foi constrangedora

Marcada supostamente para clarear o caminho do PSB na eleição a prefeito de Vitória, a prévia só mergulhou o partido em uma confusão ainda maior

Publicado em 18/02/2020 às 13h00
Atualizado em 18/02/2020 às 20h53
Vice-prefeito de Vitória, Sérgio Sá, e o deputado estadual Sergio Majeski, ambos do PSB. Crédito: Reprodução
Vice-prefeito de Vitória, Sérgio Sá, e o deputado estadual Sergio Majeski, ambos do PSB. Crédito: Reprodução

Pense num show cuja programação prevê a participação de dois artistas. O primeiro artista se apresenta, dá o melhor de si, toca o seu melhor repertório para agradar ao público. O segundo até sobe ao palco, mas só para informar a todos que não vai tocar ali porque o palco está irregular, houve falhas na venda dos ingressos etc. É um anticlímax, não? Pois assim foi a prévia do PSB de Vitória, realizada na noite desta segunda-feira (17).

Vencida pelo vice-prefeito Sérgio Sá, a prévia foi um evento constrangedor. Marcada supostamente para clarear o caminho do PSB na eleição a prefeito, só mergulhou o partido em uma confusão ainda maior. A proposta dos dirigentes era que dali saísse uma definição quanto ao nome do pré-candidato do partido na corrida rumo à Prefeitura de Vitória: Sá ou o deputado estadual Sergio Majeski. Não só a proposta como o discurso oficial dos dirigentes era de definição de candidatura. Mas o evento, que seria para gerar definições, parece só ter alargado as indefinições.

Ao fim da prévia, realizada no plenário da Câmara de Vitória, ninguém sabia dizer ao certo qual é o resultado prático e legal da votação feita naquelas circunstâncias. Ou melhor: cada um tem a sua própria interpretação sobre o significado do ato. Sérgio Sá, por exemplo, vencedor quase por aclamação, é afirmativo: a partir deste momento, considera-se o único pré-candidato do PSB com legitimidade para assim se apresentar. Majeski, por sua vez, tratou de comunicar a todos os colegas presentes, antes mesmo da votação, que, fosse qual fosse o resultado, seguiria tão pré-candidato quanto era ao entrar ali – por não reconhecer a legalidade e a legitimidade da escolha naqueles termos não previstos pelo estatuto do próprio partido.

A insegurança só foi acentuada pela condução dos trabalhos na prévia – confusa – por parte do presidente municipal do PSB, Juarez Vieira. Algumas plenárias do movimento estudantil são mais organizadas do que o que se viu na Câmara nesta segunda-feira. Ninguém – nem o presidente – soube informar, por exemplo, o número preciso de filiados ao PSB de Vitória que estavam habilitados a votar – as estimativas oscilavam de 300 a 500. Tampouco souberam precisar a quantidade de filiados que assinou a lista de presença.

Certo é que, votantes, com crachazinho levantado, houve apenas 62, sendo 60 deles eleitores de Sérgio Sá. O número é irrisório, considerado o tamanho estimado do PSB na Capital – aliás, ninguém pensou em estipular um quorum mínimo? Essa baixíssima representatividade também lança questionamentos sobre a legitimidade da “escolha”, feita assim. No visual, é possível afirmar que compareceram ao ato mais socialistas que os 62 que efetivamente votaram. E tal discrepância aponta para outro problema: o constrangimento alegado por alguns filiados, em razão da regra do voto aberto.

Como chamou atenção Majeski, muitos podem não ter ido com medo de sofrer alguma represália a depender do voto dado em público, sobretudo aqueles que têm cargo na Prefeitura de Vitória ou no governo estadual. No momento mesmo da votação, alguns dos presentes preferiram não votar – é importante registrar que, como Sá foi o primeiro a ser votado, sua vitória já estava estabelecida, por contraste visual. Quando veio o “quem vota o Majeski, levante o crachá”, dois apenas se levantaram.

À boca pequena, alguns admitiam o contrangimento em precisar se expor daquele modo. Antes da votação, uma moça no plenário chegou a questionar o voto aberto e a apresentar uma moção para que o votação fosse fechada, por meio de cédulas. Juarez colocou em votação a proposta da militante, amplamente derrotada em plenário. Outro ponto vulnerável do processo é a maneira como os filiados foram convocados para o ato: segundo Sá, ligações e contatos por redes sociais. Tudo muito informal.

MAJESKI: TÔ DENTRO, MAS TÔ FORA DISSO

O fato é que, desde que a direção municipal anunciou essa prévia, no fim de janeiro, há um conjunto de indícios de que esse “processo de escolha” foi arquitetado pelos dirigentes do PSB para marcarem Sérgio Sá com o carimbo de pré-candidato oficial do PSB e, por conseguinte, eliminarem Majeski do jogo ainda no aquecimento, dentro no vestiário.

A prévia foi toda preparada para ser a festa democrática de aclamação de Sá, que, diga-se, cumpriu seu papel dignamente. Mas faltou combinar com Majeski, que, em grande medida, “estragou a festa”. Enquanto Sá – ou melhor, sua numerosa claque – levou faixas de apoio à sua candidatura, Majeski levou críticas ao próprio processo de escolha por meio de prévia.

O espírito com que os dois pré-candidatos “entraram nessa disputa” também é revelador dos desencontros no PSB. Sá fez campanha para valer, deu telefonemas, pediu votos. Majeski inscreveu-se de maneira pró-forma e recusou-se a fazer campanha, como se dissesse: “Não quero participar dessa farsa, ou melhor, estou participando dela só para denunciá-la por dentro”.

Os respectivos discursos, antes da votação, também não poderiam ter sido mais distantes. Como autêntico pré-candidato, como alguém que de verdade queria muito a indicação, Sérgio Sá tratou de pedir votos e explicar aos presentes por que gostaria de representar o PSB na disputa pela prefeitura. E fez questão de sublinhar a sua ligação histórica com o partido – como a dizer, nas entrelinhas: “Diferentemente de Majeski, sou PSB de verdade”. Já a fala de Majeski também foi constrangedora: em vez de pedir votos (o que significaria sua legitimação ao ato), desfiou críticas e questionamentos ao próprio processo de escolha feito daquele modo.

Antecipando-se à derrota que ele sabia certa, o deputado declarou aos companheiros de partido, “previamente”, que não reconhecia a legitimidade daquela prévia e que portanto seguiria pré-candidato pelo menos até a convenção, qualquer que fosse o resultado daquele escrutínio.

Feita instantes antes da votação, a fala do deputado, de certo modo, conferiu ao escrutínio um caráter meramente simbólico: se um dos dois candidatos não reconhece de antemão o resultado e se está ali só para constar e para contestar a própria prévia – e se entende ter respaldo legal e estatutário para se manter no páreo até a convenção –, a prévia perde completamente a razão de ser. Ficou parecendo uma peça política, em que alguns atuaram voluntariamente enquanto outros foram atores involuntários, tragados para dentro do palco.

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