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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Lelo detona: “Casagrande é assombrado pelo fantasma de Hartung”

Presidente estadual do MDB acusa governador de vir agindo pessoalmente em favor de chapa de Marcelino Fraga para que ele perca o comando do partido. Motivo seria medo de Hartung: “Ele não desencarnou do Paulo. Deve ir dormir pensando nele”

Publicado em 17/02/2020 às 23h35
Atualizado em 17/02/2020 às 23h37
Para Lelo, Casagrande se sente assombrado for fantasma de Paulo Hartung. Crédito: Amarildo
Para Lelo, Casagrande se sente assombrado for fantasma de Paulo Hartung. Crédito: Amarildo

Cansado de travar no vestiário, sem aparecer, o duelo em que se transformou a disputa pelo poder no MDB do Espírito Santo, Lelo Coimbra resolveu calçar as luvas e subir no ringue. Mas, no outro corner, o adversário que aparece em sua entrevista não é seu oponente interno no MDB – o ex-deputado federal Marcelino Fraga – e sim o governador Renato Casagrande (PSB). Em uma entrevista repleta de declarações duras, o presidente estadual do MDB mira, principalmente, o queixo do governador.

Pela primeira vez, Lelo dispara publicamente algo que ele e seus aliados já acusam há muito tempo a baixa voz: o Palácio Anchieta viria operando, via Secretaria de Governo e na figura do próprio governador, a fim de levar votos para Marcelino e derrotá-lo na convenção estadual do MDB. “Quem está disputando o partido não é Marcelino, mas sim o governo Casagrande.”

Isso, sempre segundo Lelo, por conta de outro personagem: Paulo Hartung. Ou, mais precisamente, do “fantasma do ex-governador” e do medo nutrido por Casagrande de que, se Lelo permanecer no comando do MDB, Hartung usará o partido como plataforma contra ele no Estado.

“Na sexta-feira, o governador, pessoalmente, chamou um delegado do MDB no Palácio Anchieta para pedir voto pro Marcelino. Isso no dia em que a população estava sofrendo com bandido na rua, e ele pedindo voto pra partido. É o avesso do avesso do avesso!”, acusa Lelo, sem nominar o delegado e repetindo uma das citações preferidas do próprio Hartung.

“O Paulo Hartung desencarnou da política capixaba, mas parece que continua sendo o tempo todo um fantasma para o governador. É impressionante como esse fantasma fez com que ele recebesse delegado do MDB no dia em que a população sofria com ataques. O Paulo desencarnou da política do Estado, mas o Renato não desencarnou do Paulo. Eu não sei se isso é paixão ou se é temor. Virou assombração. Ele deve ir dormir pensando no Paulo”, ironiza.

Apesar de todas as evidências, Lelo evita falar em crise no MDB-ES: “A crise é o fantasma de Paulo Hartung, com o qual está lidando quem trabalha contra mim”, insiste. Ele admite, porém, que o interminável impasse sobre a direção estadual do partido gera instabilidade para os emedebistas a menos de dois meses para o fim do prazo para filiação dos pré-candidatos nas próximas eleições municipais (4 de abril).

Na última sexta-feira (14), a Justiça decidiu que a chapa de Marcelino (Muda MDB) poderia participar, sub judice, da convenção estadual marcada para domingo (16) pela Comissão Estadual Provisória, presidida por Lelo, líder da chapa MDB Independente. No sábado (15), alegando instabilidade jurídica, Lelo cancelou a convenção. Mesmo assim, no domingo, Marcelino e seus apoiadores promoveram uma convenção improvisada, com urna de papelão, na Praça Getúlio Vargas, no Centro de Vitória.

Para Marcelino, o ato teve valor legal. Para Lelo, já entrou na galeria do folclore político. “A convenção, aliás o evento na praça, que está mais para folclore do que para qualquer evento partidário, não tem valor legal algum. Não tem nenhum elemento nem de âncora judicial nem de âncora política. É um movimento de quem não aceitou que a convenção fosse supensa.”

Confira, abaixo, a entrevista completa de Lelo:

O senhor reconhece a legalidade e a legitimidade da convenção de domingo, na Praça Getúlio Vargas?

Foi um ato realizado na rua, fruto do constrangimento. Pessoas que têm cargo no governo tiveram que ir lá. Os votos reais que contabilizamos do Marcelino são vinte dos 79 delegados. Ele mostrou o tamanho dele nesse processo. Agora, o que não dá mais é para conviver com as artimanhas que têm marcado este processo. Quem está disputando o partido não é Marcelino, mas sim o governo Casagrande.

No vídeo que gravou no último sábado para justificar o cancelamento da convenção, o senhor fala em “pressões externas indevidas”. O governo Casagrande está pressionando aliados do senhor em favor da chapa de Marcelino?

Isso não é novo, mas desta vez está muito intenso. Houve presença do governo neste processo o tempo todo. Mas, neste momento, o que mais me chamou atenção foi a presença do governador. De quinta-feira [13] para cá, o grande movimento se deu via Secretaria de Governo, mas houve também a presença muito forte do governador, segundo registro de prefeitos: “Olha, o governador me ligou dizendo 'não vá' e, se for, vote na chapa de Marcelino”. Na sexta-feira, o governador, pessoalmente, chamou um delegado do MDB no Palácio Anchieta para pedir voto pro Marcelino. Isso no dia em que a população estava sofrendo com bandido na rua, e ele pedindo voto pra partido. É o avesso do avesso do avesso! E o pior é que o discurso o tempo todo é o fantasma do Paulo Hartung. É impressionante! Um ano de governo, e o governador ainda tem o Paulo Hartung na cabeça como se fosse uma ameaça permanente a ele. O Paulo Hartung desencarnou da política capixaba, mas parece que continua sendo o tempo todo um fantasma para ele. É impressionante como esse fantasma fez com que o governador recebesse delegado do MDB no dia em que a população sofria com ataques. O Paulo desencarnou da política do Estado, mas o Renato não desencarnou do Paulo. Eu não sei se isso é paixão ou se é temor. Virou assombração. Ele deve ir dormir pensando no Paulo.

Então o senhor afirma, categoricamente, que Paulo Hartung não está exercendo nenhuma influência nessa eleição do MDB-ES?

Pelo contrário. Paulo Hartung não está mais no MDB. Quem está disputando a eleição não é ele. Não tem nenhuma influência neste processo. Nenhuma. Não converso com o Paulo sobre isso. Essa disputa está posta. O Paulo está em outro movimento, nacional. Como eu disse, o Paulo desencarnou da política do Estado, mas o Renato não desencarnou do Paulo.

Essa indefinição se arrasta há quase um ano, com pelo menos duas convenções canceladas. Que desfecho o senhor vislumbra para o impasse? Haverá convenção de fato e decisão no voto em algum momento?

Em primeiro lugar, o MDB tem 69 dos 78 municípios com diretórios consolidados. Os diretórios municipais estão estabilizados. Neste momento, a nossa energia deve ser para dar estabilidade aos municípios ao longo deste mês de março, decisivo por três aspectos: a janela para vereadores com mandato poderem trocar de partido, o fim do prazo para troca de domicílio eleitoral [4 de abril] e o fim do prazo para fiiliação de candidatos [mesma data]. Isso não é bom, mas é com esse cenário que nós vamos lidar.

O MDB no Espírito Santo está em crise?

Não. O partido tem uma disputa, que é essa. E a crise, quem está conduzindo são os agentes externos, que acham que, se o MDB for conduzido por mim, será plataforma para Paulo Hartung. A crise é o fantasma de Paulo Hartung, com o qual está lidando quem trabalha contra mim.

Alguns emedebistas comentam que esse impasse é muito ruim para o partido e para seus pré-candidatos no Espírito Santo, em termos de planejamento eleitoral, já que o MDB chega às vésperas do prazo final de filiações de candidatos sem que eles tenham clareza sobre o comando do próprio partido. Concorda com isso?

Sem dúvida. Toda instabilidade é ruim em quaisquer circunstâncias e para qualquer grupo. Mas essa segurança será dada a todos.

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