“Da janela lateral do quarto de dormir / Vejo uma igreja, um sinal de glória / Vejo um muro branco e um voo pássaro / Vejo uma grade, um velho sinal” (“Paisagem da Janela”, Fernando Brant / Lô Borges)
Ao tocar a persiana que protege o quarto da claridade diurna, os primeiros raios de sol me fazem abrir os olhos lentamente, até que acabo despertando. Sou sempre o primeiro a acordar aqui em casa, dizem que sou “madrugento”. A primeira coisa que faço após levantar-me é olhar pelo canto da janela, ali mesmo, no pequeno espaço aberto deixado pela persiana faceira. Observo a rua lá embaixo, esperando para ver se há algum movimento de pessoas, se há carros passando, se o sol já desponta radiante ou atrás de nuvens ou se será um dia chuvoso, pois sequer lembro qual era a previsão da meteorologia para o dia de hoje.
Parece que não vai chover, e que será mais um daqueles dias calorentos, esturricantes, infernais, perfeito pra uma praia, algo que, infelizmente, neste momento, nada mais é do que um sonho inalcançável, um desejo impossível, uma doce utopia... Como ainda é cedo, noto que a rua está praticamente deserta, sem nenhum movimento, a não ser o balanço das folhas das árvores que sombreiam paralelepípedos e calçadas já rachadas, todas elas deformadas pelas raízes destas mesmas árvores.
Sei que pelo horário não deveria mesmo ter ninguém caminhando na rua, mas a lembrança que estamos em plena quarentena, provocada por uma pandemia que parece que nunca terá fim, é que me faz pensar que provavelmente será mais um dia daqueles sem ver ninguém, a não ser aqueles com quem vivo, minha família. É muito bom não estarmos sozinhos! Que alegria poder compartilhar tudo isso juntos!
Permaneço mais alguns instantes observando a paisagem. E aí, noto que apesar de o dia já ter clareado, alguns postes encontram-se com a iluminação acesa; provavelmente o sensor deve estar com defeito, cujo efeito será sentido no nosso bolso, pois somos nós que pagamos a conta. Mas, quem, senão o povo, pra pagar a conta de tudo que dá errado neste país?
Hora de tomar um café; o jeito é ir até a cozinha, de onde tenho outra vista da paisagem que cerca a minha moradia, parecendo até que são dois lugares diferentes, o que me faz pensar em como são ricos de imagens o bairro onde moramos e a cidade em que vivemos, e que, muitas vezes, na correria do dia a dia, sequer paramos para admirar seus diversos cenários. Nada como um confinamento forçado para mudar nossa percepção das coisas.
Ponho um pouco de água no fogão. Quando ela esquenta, e a jogo no coador, já contendo o pó de café, sinto logo aquele cheiro que, entrando pelas narinas, nos dá algum ânimo, algo que tem se tornado mais raro, porém indispensável nestes tempos tão insanos como os que temos vivido.
“Quando eu falava / Dessas cores mórbidas / Quando eu falava / Desses homens sórdidos”
Café na xícara, perfumando o ambiente, então é hora de ligar a TV. Mas não há entusiasmo matinal que resista às notícias que vêm dos primeiros telejornais do dia, com tanta reportagem relacionada à Covid-19, falta de leitos de UTI, mortes, desrespeito da população ao isolamento social, mortes, festas clandestinas, mortes, governo negacionista, mortes, governo ausente, mortes, governo incapaz...
“Conheci as torres / E os cemitérios / Conheci os homens / E os seus velórios”
Se não dá pra ser alienado ao que passa no mundo, é preciso, porém, preservar a sanidade mental, evitando enfrentar parte desta realidade dura e cada vez mais desanimadora. A TV, que outrora se mostrou como uma criativa e animada janela pro mundo, hoje ou nos mostra desgraça ou bobagens. Como um tal reality show que, numa roupagem “moderninha”, adequada aos tempos de isolamento social, faz do escapismo uma simples fuga da realidade.
Uma xícara de café não basta. O sol já está quase a pino. Sua intensidade ilumina a paisagem com tanta força que deixa nossa visão extenuada, nossos olhos se veem sufocados.
Pra que lado olhar então? Com qual janela devo me conectar com o mundo buscando um pouco de leveza, ternura e poesia?
Lá fora parece que tá tudo reduzido a um sim ou não. É sol escaldante ou chuva torrencial. Ou se está em cima ou embaixo, à esquerda ou à direita, ou se está a favor ou é do contra. Aquela bela e entusiasmada complexidade construída por todos os que vieram antes de nós se vê simplificada de modo radical.
“Você não quer acreditar / Mas isso é tão normal / Você não quer acreditar / Mas isso é tão normal”
Ouço passos. O pessoal de casa já tá de pé. Teremos um dia intenso, porém juntos, na mesma janela.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta