Conforme comenta o historiador Peter Burke em seu recém lançado livro “O Polímata”, Leonardo da Vinci, o gênio renascentista, apesar de ter se dedicado a diversas áreas do conhecimento, e talvez por isso mesmo, deixou inacabado muitos estudos, trabalhos e projetos. Mas não basta ele ter feito a “Mona Lisa", mesmo que tenha deixado inacabado, tal como se supõe, “A Virgem com o Menino e Santa Ana”? E ainda que a maioria dos seus projetos de artefatos mecânicos e militares não tenham sido finalizados ou postos em prática, seus estudos abriram a porta para futuros desenvolvimentos de projetos similares.
Ao longo da história humana, muitas invenções que se mostravam ideias promissoras, inovadoras, inexplicavelmente acabaram se tornando grandes fracassos comerciais, isto é, foram rejeitadas pelo público, ao passo que muitas outras se tornaram casos de sucesso no mundo empresarial.
E claro, algo semelhante ocorre no meio artístico, assim como na moda, onde determinados estilos caem na graça das pessoas, mesmo que muitas vezes a gente nem entenda como alguém pode usar tal tipo de roupa.
No meio industrial, é até curioso pensar como determinados projetos previamente pensados para se tornarem verdadeiros marcos sucumbiram. Um caso recente é o dos novos jatos 737 Max e 777 da Boeing. E o avião é exemplo de um artefato que vem sofrendo aprimoramentos tecnológicos e conceituais desde que ele foi inventado pelo brasileiro Santos Dumont.
De fato, na questão das patentes, registra-se não só algo totalmente inédito, como também cada processo de inovação, no que se chama “modelo de utilidade”, e que não deixa de ser um direito de propriedade intelectual. E também é possível registrar a forma e/ou a imagem de um objeto inventado, isto é, seu design.
O desenvolvimento de novos produtos demanda investimento financeiro, pesquisas, equipes qualificadas, elaboração de protótipos, testes, num processo que pode levar anos. Algo que começa simplesmente com uma boa ideia, mas que até o lançamento do produto muito trabalho terá que ser feito, sempre lembrando que, em muitos casos, uma vez concluído o projeto, ainda será necessário elaborar sua embalagem, montar uma estratégia de marketing, que pode incluir campanhas publicitárias. Ou seja, daquela “brilhante” ideia inicial, até que o consumidor tenha em mãos qualquer produto, muito tempo terá passado.
Muitas vezes, entre a ideia e a finalização do projeto de algum novo produto, são feitas pesquisas qualitativas para saber qual a possibilidade de aceitação da novidade pelo público-alvo. Ainda assim, mesmo com a(s) pesquisa(s) indicando alta probabilidade de êxito comercial do produto, só mesmo quando ele for lançado é que se saberá qual nível de sua aceitação em termos mercadológicos.
É também preciso considerar o custo tanto de desenvolvimento de qualquer novo produto, como o preço final que será cobrado ao chegar ao consumidor, que sempre levará em consideração a relação custo/benefício.
Sobre a questão do valor, peguemos como exemplo algo como uísque. Numa mesma marca, os uísques que estão armazenados há mais tempo, possuem maior valor, ainda que o custo da matéria prima, da mão de obra, da garrafa de vidro, do rótulo, da embalagem, da distribuição, etc., sejam o mesmo.
Há ainda o inexplicável aspecto que envolve a psicologia das pessoas, quando um produto se torna altamente sedutor, atraindo o desejo repentino de muita gente querer tê-lo de uma hora pra outra, fazendo com que o seu valor cresça vertiginosamente. Neste nosso verão da pandemia, mas calorento como todos os outros verões, a moda foi um copo térmico de uma determinada marca, que virou moda, fazendo com que seu preço de venda seja desproporcional ao seu custo de produção.
Mas se o tema é desenvolvimento de produto em tempos de pandemia, nada é mais relevante do que falar em vacina.
A lógica que envolve sua produção é a mesma de qualquer outro produto: uma ideia ou objetivo > proteger as pessoas do contágio do vírus; um público-alvo > todas as pessoas do mundo; a estratégia para sua concepção > montar uma equipe de cientistas e técnicos qualificados; tempo de elaboração > o mais rápido possível; custo do seu desenvolvimento > não importa, afinal estamos falando de vidas, e tem muito dinheiro sobrando no mundo, e neste ponto é importante mencionar que os mais ricos enriqueceram ainda mais no período pandêmico; estratégia de marketing > desnecessária, basta ouvir a ciência, não deem ouvido a idiotas negacionistas, como alguns pseudo governantes; probabilidade de sucesso > absoluto!
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta