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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Pequenos erros podem provocar enormes desastres

Um país não pode ser governado de modo instintivo, sem planejamento, tudo deve ser previamente estudado

Publicado em 25/02/2021 às 02h00
Atualizado em 25/02/2021 às 02h04
Setas de direção
É o caráter que dirá qual caminho deve ser tomado diante de tudo que temos que enfrentar. Crédito: aopsan/Freepik

“A tua piscina 'tá cheia de ratos / Tuas ideias não correspondem aos fatos / O tempo não para Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não para / Não para não, não para” (“O Tempo Não Para”, Cazuza e Arnaldo Brandão)

A criatividade humana, o conhecimento científico, a ambição racionalista é que deram ao homem condição de ir tão longe. Mas é preciso atuar com método, rigor, de modo organizado, para que possamos avançar, inovar. Para realizarmos qualquer coisa, mesmo a mais simples das ações, é preciso antes planejar, pensar em como fazê-lo.

No entanto, por força do hábito e sem nos darmos conta, o nosso cérebro, esta máquina maravilhosa que Deus nos deu, em muitas ocasiões coordena nossas ações de modo instintivo. Muitas pessoas acordam naturalmente assim que o dia amanhece, bastando que os primeiros raios de sol toquem a janela. Em seguida escovam os dentes com creme dental, dão uma penteada no cabelo, caminham até a cozinha, tomam um copo d’água enquanto esperam a água do bule esquentar para tomar uma xícara de café bem quente, e assim ter ânimo pra enfrentar o dia que têm pela frente.

Quem dirige há muito tempo, também o faz muitas vezes de modo quase inconsciente ao fazer uma curva, passar a marcha, dar seta numa conversão, pisar no freio, olhar pelo espelho, etc. Se sempre fazem o mesmo caminho de casa para o trabalho, parecem dirigir como se o carro tivesse um piloto automático.

Mas, se por qualquer motivo, num dia como outro qualquer, o motorista tinha planejado fazer algum desvio, para deixar, pegar ou comprar algo numa rua próxima àquela que ele percorre todos os dias, é provável que isso acabe passando em branco, ele se esqueça daquela alteração que deveria ter feito no percurso, só se lembrando ao chegar ao destino final. “Ih, caramba, bem que eu achava que estava esquecendo de algo!”

Mudanças no nosso comportamento podem ser provocados por diversas razões: problemas econômicos, dívidas; uma doença, tanto da própria pessoa quando de algum familiar; pressão no trabalho, seja por causa de um chefe mal-humorado, seja por um prazo pequeno para conclusão de algum serviço, entre tantas coisas que podemos ter que enfrentar. Diante de uma nova realidade adversa, é possível que acabemos alterando hábitos que já estavam arraigados na nossa rotina.

Já não acordamos com o raiar do sol, na verdade, passamos a despertar tarde, perdemos a hora... Se não esquecemos de escovar os dentes, quando afinal conseguimos nos levantar, podemos, porém, fazê-lo colocando creme de barbear ou alguma pomada dermatológica na escova... Melhor parar por aqui, e nem falar no que pode acontecer com a ideia de tomar uma xícara de café quente...

Mas o cérebro é algo poderosíssimo. Nossas rotinas vão se conformando ao longo da vida, a partir das nossas experiências, das lições dadas por nossos pais, mas também pela escola e pelo meio em que vivemos. Ao batermos de frente com alguma adversidade imprevista, somos capazes de compreendê-la, buscar meios de superá-la, retomando o controle da nossa vida.

Contudo, mais do que a rotina, é o caráter que importa conformar com tudo que aprendemos ao longo do tempo. É ele que dirá qual caminho deve ser tomado diante de tudo que temos que enfrentar, lembrando sempre que para viver a vida, é necessário enfrentá-la dia após dia.

Hábitos consolidados, caráter formado, ainda assim, sempre pode acontecer algum imprevisto, que nem sempre sabemos identificar, saber o que é, e agimos estranhamente, como se num lapso de tempo, num mínimo instante, tivéssemos esquecido tudo aquilo que tão bem dominamos, entendemos.

Reconhecer o erro, porém, é sinal de grandeza. Aliás, a ciência, atualmente tão valorizada (mas infelizmente também há quem a rechace), jamais exclui os erros em suas análises, pois são deles que se podem encontrar soluções até então enigmáticas ou desconhecidas, ou novas descobertas, ou até mesmo para correção de processos, determinando assim avanços para toda a sociedade.

Mas há situações em que pequenos erros podem provocar enormes desastres. Do mesmo modo, insistir no erro é tudo que não se deve, principalmente quando se trata de alguém que maneja um bisturi, pilota um avião, preside um país... E, muito menos, no caso de uma cirurgia, um voo ou uma presidência, jamais se pode chegar ao ponto de reagir tal como William Foster, o personagem de Michael Douglas, no filme “Um Dia de Fúria”.

O fato é que um país não pode ser governado de modo instintivo, sem planejamento, tudo deve ser previamente estudado. Se algo inesperado ocorre, provocando possíveis erros em alguma ação, é preciso rever rotinas, protocolos, para que novos imprevistos sejam evitados. Ao contrário do cidadão comum, um governo institucional não pode colocar por engano um creme de barbear na escova de dentes e tampouco pode ter nenhum destempero.

Diante de tudo isto, será que estou vendo “o futuro repetir o passado”, afinal, se o governo se diz liberal, e por isso foi eleito, qual a razão da troca de comando da Petrobras?

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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