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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

Nunca foi tão fácil ler, mas cada vez se lê menos

Segundo o IBGE, item que teve maior queda de vendas no comércio foi o de livros, jornais, revistas e papelaria

Publicado em 18/02/2021 às 02h00
Atualizado em 18/02/2021 às 02h04
Tablet, livro digital, Kindle
Formato digital facilitou o acesso à leitura. Crédito: Pixabay

Conforme divulgado dias atrás pelo IBGE e como era de se esperar, as vendas no comércio caíram em 2020 no Brasil. Teve a pandemia, é claro, mas que se somou a uma crise econômica crônica, diante de um governo que até agora não conseguiu realizar nada significante para tirar o país da trava e assim, certamente, o aperto se perdurará ainda por um bom tempo e que tem como uma das suas consequências o aumento da pobreza.

No entanto, no conjunto das vendas no varejo, alguns setores cresceram, até de modo bastante positivo, como o de material construção e o de eletrodomésticos, em função do maior tempo que as famílias passaram a ficar em casa por causa do isolamento social, e assim resolveram fazer uma reforma no espaço doméstico ou deixá-lo melhor equipado.

Mas ficando também mais tempo isolados em nossas residências, imagina-se que teríamos mais tempo para nos dedicar, por exemplo, à leitura, tal como tenho feito durante o todo esse confinamento. O trabalho remoto tem proporcionado um ganho de tempo, antes gasto em deslocamento casa/trabalho que, se bem aproveitado, permite que a gente faça coisas que até agora não fazíamos sempre com a velha desculpa da falta de tempo.

É verdade que a enorme quantidade de afazeres domésticos também nos pegou pelo calcanhar, e muitos estão tão atrapalhados com tanta coisa pra fazer ao mesmo tempo que agora estão com saudade até de enfrentar um engarrafamento, um ônibus lotado a caminho ou na volta do trabalho, comer um PF na rua.

Se a população pobre e desempregada mal tem o que comer, ler um livro então é algo impensável, mesmo que tais pessoas tenham muito tempo disponível. O restante do povo, porém, que possui condição econômica e cultural bastante privilegiada quando comparada com aqueles que se encontram em situação vulnerável, bem que poderia usar seu tempo livre com coisas edificantes, entre elas a leitura.

Daí que pra muitos de nós, amantes da arte e da cultura, é angustiante saber que na mesma pesquisa do IBGE sobre o setor varejista, o item que teve maior queda foi o de livros, jornais, revistas e papelaria.

As razões são várias, e uma delas o próprio instituto detecta, pois é resultado da “influência da contínua substituição dos produtos impressos pelo meio eletrônico e redução de lojas físicas”.

Junta-se a isso a tendência do mundo contemporâneo pela instantaneidade, que atinge principalmente os mais jovens, que cada vez leem menos, e quando o fazem, muitas vezes é de modo forçado por conta de algum trabalho escolar ou universitário. E aí quase sempre eles preferem textos resumidos, sintéticos, buscando uma resposta imediata naquela pequena sequência de letras, palavras, frases e parágrafos que preenchem algumas páginas e que, para muitos deles, nada significam. Uma chatice!

Mas é claro que o impacto negativo da atividade econômica relacionada ao conteúdo literário e jornalístico não é só uma questão de transformação da base tecnológica do papel para o digital, pois se pode considerar que existe muita história e informação para serem acessadas e lidas em telas de vidro, tais como celulares, tablets e computadores, ou mesmo nos e-books, cada vez mais populares, pelo menos para quem ainda tem na leitura um hábito salutar.

Na verdade, nunca foi tão fácil ler, pois hoje existe muito material disponível, por preços baixos, às vezes até gratuitos, e acessível com apenas alguns cliques, e o paradoxo disso é que cada vez se lê menos. A migração do texto escrito do papel para o digital, com enorme redução do custo de impressão gráfica, distribuição e venda em lojas físicas de livros, jornais e revistas em nada influencia o conteúdo do que se lê, o que, afinal de contas, é o que importa aos leitores.

No entanto, se a situação do livro já não anda muito boa, é assustador saber que “nada tá tão ruim que não possa piorar”. Pelo projeto da reforma tributária do atual governo, o mesmo que nada conseguiu até agora para destravar o país, os livros pagarão imposto, cuja tributação hoje é isenta, elevando seu custo em até 20%.

Livro é algo que nos faz imaginar um mundo melhor, alternativo, expande nossa mente, nos faz viajar, rir, sonhar. Ler torna muito mais acessível o fascínio que é a criatividade humana, nos aproxima do conhecimento científico, expande a inteligência. A leitura, seja ela em livros, revistas ou jornais, nos dá informação, nos conecta com o outro, fazendo-nos criaturas mais sensíveis e resilientes.

Tudo ao contrário do que se vê no momento atual, quando há quem prefere fazer deste um país de homens e armas, e não um país de “homens e livros.”

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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