Perdeu, doutor! Perdeu!
Há 26 anos sofri um sequestro relâmpago em um domingo à tarde, em Vitória. Durante as oito longas horas em que permaneci subjugado e rendido, tendo uma arma na cabeça, procurei manter o sangue frio e sobreviver sob intenso estresse. Bem, isso ficou para trás. Sou forçado a recordar esse episódio agora, quando um desafio muito maior tortura e paralisa no tempo nossa sociedade. Após um ano de pandemia, perdemos todos, uns mais que outros, porque as crises não são socialmente justas. Aliás, tendem a acentuar as desigualdades sociais.
Penso que se um escritor criasse um roteiro do que fazer de errado, talvez não conseguisse um festival de desencontros tão perfeito como a experiência brasileira de combate à pandemia. Desde o primeiro dia, o governo federal subestimou a crise sanitária, defendendo que a vida seguisse normal, para preservar empregos.
Até hoje, com a maioria das unidades da federação entrando em colapso, sem leitos e sem medicamentos, o governo federal permanece em sua guerra e conflitos com governadores e prefeitos, que, por sua vez, “batem cabeças” sem achar o tom do que fechar e quando fechar. Enquanto isso, a experiência mundial mostra que medidas restritivas extremamente duras e curtas são eficientes em reduzir a transmissão do vírus.
O clima de polarização contaminou toda a sociedade, contribuindo para sabotar medidas de contenção da pandemia. Um isolamento “à brasileira”, mal feito e interminável, com os mais jovens interagindo à vontade, com aglomerações e festas clandestinas, garante a liberdade do vírus se transmitir e variar à vontade, com novas cepas de poder imprevisível.
Até o uso de máscara virou uma questão ideológica, copiando nossos irmãos da América do Norte no que tem de mais grotesco. Com arrogância e desprezo, perdemos a janela inicial da vacinação que segue a conta gotas. EUA, Reino Unido, Israel e Chile, por exemplo, saíram na frente e vão colher frutos da vacinação inicial.
Infelizmente, não há previsão a curto prazo de alívio da crise sanitária e humana que vivemos. Quem nos governa é o novo coronavírus. Altos e baixos na curva de contaminação dependem de esgotamento de pessoas suscetíveis a ele. Devemos ter semanas/meses sombrios pela frente. Perdemos todos, e muito, em vidas e empregos. Precisamos mais do que nunca de resiliência, sangue frio e sabedoria para sobreviver a esse pesadelo a que fomos submetidos.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta