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Doutor em Doenças Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaço quer refletir sobre saúde e qualidade de vida na pandemia.

Brasil precisa urgentemente de um debate sério sobre programa de vacinação

Brasília perdeu tempo com birras políticas, negou a gravidade da pandemia e só nos atrasou em uma corrida que é mundial

Publicado em 14/01/2021 às 02h01
Divulgação
Caso surjam janelas de oportunidades para incorporar outras vacinas no Brasil, devemos fazê-lo. Crédito: Paul Biris

Ano novo, pandemia velha! Iniciamos 2021 com desejo de “cancelar” 2020, deixando para trás um ano desafiador, mas não há como esquecer da pandemia, mais ativa que nunca. O Painel Covid do Espírito Santo contabiliza perto de 5390 óbitos. São milhares de famílias capixabas enlutadas. Hoje, pesquisas atualizaram a mortalidade da Covid para algo próximo a 0,3%. 

Usando número de óbitos é possível estimar que perto de 1,7 milhão de capixabas já foram contaminadas pelo novo coronavírus, cerca de 44% da população do Espírito Santo. Antes imaginávamos que lugares com esse patamar estariam protegidos por alguma imunidade cruzada causada por “velhos” coronavírus de circulação antiga. Ledo engano. Manaus que o diga! 

Hoje imaginamos que a Covid continuará a ceifar vidas até atingir 80 ou 90% de contágio. Ou seja, se continuarmos nessa indisciplina quanto a distanciamento e máscaras, poderemos ter ainda 3000 ou mais vidas capixabas perdidas. Isso sem falar na reinfecção que hoje sabemos que existe. Enfim, acreditar na imunidade de rebanho pela doença como forma de controle da Covid-19 (“todos vamos pegar”) pressupõe descaso pela vida humana.

São essas as razões óbvias da urgência pelas vacinas. Brasília perdeu tempo com birras políticas, negou a gravidade do problema e só nos atrasou em uma corrida que é mundial. É óbvio que qualquer vacina pode ter efeitos adversos, leves na maioria dos casos, mas seus benefícios são infinitamente maiores que os riscos.

Na verdade, o governo federal apostou apenas na vacina da AstraZeneca/Fiocruz, (que atrasou conclusões da fase 3, por um erro no ensaio) e ficou torcendo contra a do Butantan, por disputa eleitoral antecipada. Os sucessivos atrasos da divulgação dos dados da Coronavac (SINOVAC/Butantan) e a divulgação meio truncada da eficácia final (50,3%) só pioram a qualidade da discussão. 

O país precisa urgente de um debate sério e engajamento o mais rápido possível em um programa público de vacinação. Vacinas com eficácia menor podem ser úteis, mas irão exigir uma cobertura ainda maior. Caso surjam janelas de oportunidades para incorporar outras vacinas, devemos fazê-lo! Estamos perdendo tempo. 

Todo esforço é bem-vindo para reduzir essa escandalosa perda de vidas humanas e permitir o retorno da vida tal como a conhecíamos. Não adianta ter ilusões! Até aqueles mais insensíveis à perda de vidas humanas vão perceber que o retorno pleno da atividade econômica, especialmente no setor serviços, demanda saúde e segurança, o que exige vacinação.

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