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Coronavírus

Pandemia: março de 2021 é a continuação de um filme ruim

É algo como “Pandemia 2, A Variante Mortal”. Nesta sequência, o foco é a corrida da imunização, que encontra obstáculos logísticos, econômicos e, pasmem, ideológicos

Publicado em 23 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

23 mar 2021 às 02:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Imagens da chegada dos pacientes de Manaus infectados pelo coronavírus ao Hospital Jayme dos Santos Neves, na Serra
A adoção de medidas corretas de combate à pandemia ao redor do mundo, enquanto o negacionismo pauta decisões locais (federais), cria um abismo entre o mundo e o Brasil Crédito: Fernando Madeira
Março de 2021 tem se mostrado como a continuação de um filme ruim, mas que teve notável sucesso de bilheteria, o que impulsionou uma continuação mequetrefe. Para dar alguma audiência, já que a surpresa da ideia original não mais existe, os produtores tiveram que apelar para novos atrativos, como a maior gravidade da situação. É algo como “Pandemia 2, A Variante Mortal”.
Continuações mantêm a essência do filme original (no caso, o coronavírus), mas se apresentam de forma mais grave (as novas variantes são mais transmissíveis e mais letais, especialmente a P.1). Se em “Pandemia” o desafio era descobrir a vacina, na sequência o foco é a corrida da imunização, que encontra obstáculos logísticos, econômicos e, pasmem, ideológicos.
O público, já cansado de repetições, não se importa tanto com o sucessor (salvo exceções, como “The empire strikes back” ou “Terminator 2”, muito melhores que os primeiros). Em “Pandemia 2”, o público já está cansado e com menos medo do vírus, despreza regras de distanciamento e critica incisivamente as determinações de quarentena.
Os números da franquia? O PIB brasileiro encolheu 4,1% em 2020. O desemprego, superando a série histórica, alcança 14%, valendo ressaltar que durante o distanciamento social, mais trabalhadores deixaram de procurar emprego. Só entre os informais, mais vulneráveis e que representam cerca de 40% da mão de obra economicamente ativa, houve uma queda de 10,2% no número de ocupados, o dobro da queda entre os “celetistas”.
A redução da atividade econômica trouxe, ainda, uma perda de arrecadação tributária na ordem de quase 7% no âmbito federal (aproximadamente R$ 58 bi). Já a lentidão da imunização deve representar perdas estimadas em R$ 131,4 bi face a renda não gerada. Isso tudo sem contar com os quase R$ 530 bi gastos com as diversas medidas de contenção de prejuízos e combate à pandemia.
Agora em março o governo federal lançou a segunda rodada do auxílio emergencial, deveras desidratada, mas ainda não conseguiu encontrar fontes de custeio para o programa de suspensão de contratos ou redução de jornada, compensáveis pelo benefício emergencial. Como dito em artigo anterior, o cobertor é curto e a fonte secou. Modelos emergenciais resolvem no curto prazo, mas não se sustentam. Repetir a dose pode ser um fiasco.
A carta, denominada “O País Exige Respeito; a Vida Necessita da Ciência e do Bom Governo – Carta Aberta à Sociedade Referente a Medidas de Combate à Pandemia”, além de apresentar um resumo da caótica situação econômica e algumas críticas fundamentadas aos erros de políticas públicas tomadas pela atual administração, sugere medidas indispensáveis ao combate à pandemia e recuperação econômica.
A primeira medida, e não poderia ser outra, é a aceleração do ritmo da vacinação. É a medida eficaz e mais barata. Se o Brasil mantiver a média de 177 mil doses por dia, levará 3 anos para completa imunização, o que pode ser inútil uma vez que permite a disseminação de possíveis novas variantes imunes à vacina. Deve-se, portanto, aumentar a oferta, produzindo e adquirindo de todos os laboratórios possíveis, além de excedentes de outros países. Em termos logísticos, a carta lembra que em 1992 o país conseguiu vacinar 48 milhões de crianças em um mês. O problema está apenas na aquisição do imunizante.
Segue com o incentivo ao uso de máscaras (sugerindo a devida distribuição gratuita e orientação educativa), bem como o implemento de medidas de distanciamento social. Neste aspecto, o foco é o estímulo ao trabalho a distância, dentro de uma combinação que possa reduzir a transmissão de vírus, minimizando a perda de produção e efeitos econômicos deletérios. Para tanto, dadas as diversas realidades encontradas no país, sugere-se que as decisões sejam locais, ainda que sob coordenação do combate à pandemia em âmbito nacional.
Sobre o distanciamento social, a carta apresenta evidências confirmadas de que os programas de amparo (auxílio emergencial e benefício emergencial de emprego e renda) fazem aumentar o respeito às regras de isolamento. No tocante ao funcionamento de escolas, também mediante estudos, diz o texto que inexiste correlação entre sua abertura e o aumento de casos de Covid-19.
Observa-se, diante de todo o cenário, que estudantes pobres têm menos acesso à educação neste momento, aumentando a desigualdade na formação de capital humano. A proteção dos “celetistas” é ainda maior que a dos informais, esticando a desigualdade no mercado de trabalho. Por fim, a adoção de medidas corretas de combate ao redor do mundo, enquanto o negacionismo pauta decisões locais (federais), cria um abismo entre o mundo e o Brasil. Caso as medidas acima não sejam levadas a sério, essa franquia não terá nenhum final feliz. Encerramos com a frase final da carta: “O Brasil exige respeito”.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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