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Coronavírus

Pandemia: como sair do absurdo que nos exaure?

Nesse momento, a atitude cívica é nos unirmos para derrotar o vírus, e nossa revolta deve estar direcionada para a única tarefa que irá mudar o rumo da pandemia: impedirmos sua circulação

Publicado em 18 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

18 mar 2021 às 02:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

Mulher com máscara para se proteger do coronavírus em casa; lockdown, isolamento, confinamento
Quarentena: a hora é agora e precisamos salvar as vidas de todos que ainda pudermos Crédito: Freepik
Como compreender o absurdo? Como dar significado àquilo que não tem sentido? O que a nós parece improvável, inexplicável e, por algumas vezes, sombrio. O absurdo é essa mescla de impressões e sensações que, ao exame rigoroso dos fatos, se contrapõe a uma certa realidade.
Vivemos nesse tempo do absurdo, condenados ao mito de Sísifo, um personagem da mitologia grega que foi obrigado a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, sendo que, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo,até o ponto de partida, por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço.
O absurdo nos circunda e na dura tarefa de empurrarmos a pedra ao cume da montanha, vamos nos adaptando na busca de sentido no rosto de um mundo ininteligível e que já não conseguimos explicar. O absurdo nasce da comparação. Quem sempre empurrou a pedra não tem como saber que a vida poderia ter outro sentido. O absurdo parece nos cercar quando, em contraposição com a realidade, há alternativa de uma outra possível ação.
Mas o absurdo não nos deixa pensar. Ele exige o esforço laborioso de empurrar a pedra. O absurdo nos exaure. E essa exaustão nos consome. A pergunta que se coloca é: como sair dele? Como, em meio à exaustão, conseguirmos nos reerguer e construir a esperança da mudança?
Há exatamente um ano, o Espírito Santo impunha medidas restritivas de mobilidade para impedir o vírus de circular. Naquele momento pandêmico, sabíamos muito pouco sobre o vírus e menos ainda do que nos esperava. Pouco a pouco, um esgarçamento social começou a ser evidenciado com carreatas de pessoas contrárias à única medida que tínhamos naquele momento. Uma contradição falsa e perigosa começou a se contrapor no paradigma saúde versus economia.
Digo falsa pois pessoas mortas não consomem, não movimentam a economia e não podem sequer protestar. A falta de coordenação nacional, somada ao negacionismo científico e à proliferação de informações falsas, nos levaram a um caminho com poucos pontos de convergência.
E fomos seguindo e contando os mortos. Famílias marcadas para sempre pela pandemia da Covid-19, outras com pouca empatia diante dessas perdas. É como se, no absurdo, vivêssemos em mundos diferentes, realidades opostas, mesmo assim, incrivelmente no mesmo tempo pandêmico. Um ano depois, o coronavírus mudou, ficou mais virulento e estamos obrigados a empurrar novamente a pedra para o cume da montanha. Enquanto as medidas de restrição precisam ser tomadas, estamos nós repetindo o mesmo enredo.
Era possível diminuir a pedra? Sim, caso tivéssemos vacinas em larga escala. Na cegueira de achar que ao chegarmos ao cume a tarefa estava finalizada, não nos preparamos para o momento que ela rolaria montanha abaixo, nos forçando ao início do trabalho. Nesse momento, nos resta a união para que a pedra possa ser menos pesada para todos.
Um pacto social para sairmos dessa pandemia se faz urgente. O Brasil representa hoje uma ameaça global pela possibilidade de emergência de novas variantes do vírus, ainda mais agressivas. A hora é agora e precisamos salvar as vidas de todos que ainda pudermos. A tarefa é de todos. Ainda que divergências no entendimento da pedra possam existir, a compreensão do seu tamanho e forma já não nos divide.
É preciso que possamos pensar como sociedade, deixar as diferenças, empurrarmos juntos essa pedra pandêmica e retornar o mais rápido possível para medidas efetivas que a ciência já comprovou: diminuição de circulação do vírus, utilização de máscaras filtrantes, ampliação de testagem e isolamento, monitoramento próximo dos casos diagnosticados e vacinação mais rápida possível.
Assim, poderemos retornar às nossas atividades com segurança e recuperar o direito de até nos revoltarmos com o absurdo. Nesse momento, a atitude cívica é nos unirmos para derrotar o vírus. E nossa revolta deve estar direcionada para a única tarefa que irá mudar o rumo da pandemia: impedirmos a circulação do vírus. Outros países já estão nos mostrando que isso é possível, que a esperança de sair desse tempo de absurdos é real, factível e urgente.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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