Não é de hoje que o mercado de trabalho vem mudando drasticamente. De um mundo ainda pré-pandêmico já víamos a desindustrialização e o arrefecimento da economia mundial, novas tecnologias mudando todo o meio produtivo e de distribuição, forçando marcas tradicionais a se reinventarem ou reduzirem a amplitude de seus produtos a nichos de mercado (como ocorreu com a Ford).
No Brasil, a queda do dinamismo industrial já remonta os anos 90. Com a abertura econômico-financeira e políticas de controle inflacionário (e altas taxas de juros), diversas empresas nacionais não tiveram acesso a crédito para investimento em novas tecnologias e perderam competitividade para as estrangeiras.
Buscando sustentabilidade e maior desempenho, empresas se renovam a cada dia, reorganizando processos, enxugando gastos e inovando na entrega. A superespecialização se tornou necessária. Qualquer atividade, por menor que seja, que não faça parte do seu núcleo de desenvolvimento do negócio, é terceirizada, afinal, não faz sentido usar o caro tempo da empresa para executar atividades que um especialista faz melhor e mais barato.
E é assim para todos os tipos e tamanhos de negócio. Imagine-se uma cafeteria cuja especialidade é fornecer o melhor café possível (capixaba, evidentemente). Considerando que o cliente, para acompanhar seu delicioso cappuccino, espera que seja oferecida uma deliciosa guloseima adocicada, o empresário não vai mandar o barista para a cozinha, vai buscar no mercado fornecedores que entreguem algo de qualidade equiparável ao seu produto (como o pão de mel da Tia Márcia).
Diversos outros exemplos são encontrados no dia a dia: com plataformas digitais de crowd work, pizzarias não precisam mais empregar motofretistas e condomínios não precisam de porteiros, substituídos por portarias digitais.
A especialização dos negócios exige também a especialização do trabalhador. Se os negócios estão mais enxutos e sofisticados, a mão de obra idem. E é aqui que o bicho pega na oferta de trabalho brasileira. Um processo de automação retira do mercado a mão de obra desqualificada, porém emprega novos trabalhadores com alto grau de conhecimento. Cancelas de pedágio automáticas retiram o cobrador, mas empregam programadores, engenheiros e toda uma estrutura de TI. E este é o ciclo das profissões, diversas são extintas e tantas outras surgem.
Mas não seria isso bom, afinal, substitui-se mão de obra pouco qualificada por uma bem remunerada? Em termos globais sim, porém para uma nação que pouco faz em termos de P&D e há dificuldade de se encontrar profissionais altamente gabaritados (18% dos trabalhadores formais recebem salário-mínimo, dados de 2015), as vagas migram para países desenvolvidos, aumentando a massa de desalentados, num ciclo vicioso que, numa visão cepalina, joga o Brasil para um ponto periférico ainda mais distante dos países centrais desenvolvidos.
Com a entrada neste novo mundo pós-pandêmico, o cenário dá uma esculhambada. Por um lado, a consolidação de novas tecnologias de comunicação, que assentaram definitivamente o teletrabalho, traz questões fundamentais sobre mudanças de hábitos e desnecessidade de se ter um local para a prestação de serviços. Isso rompe com o modelo clássico, o trabalhador não precisa mais morar perto do empregador, pode residir em qualquer lugar do globo.
Neste quesito, brasileiros altamente qualificados serão contratados por empresas estrangeiras, residindo no Brasil? Empresas brasileiras contratarão estrangeiros residentes no exterior para lhe prestar serviços, fugindo da burocrática legislação pátria?
Por outro lado, as falhas logísticas descortinadas com a crise sanitária turbinaram debates sobre a “desglobalização”. Nações irão incentivar a indústria local para sua demanda doméstica? Seria uma oportunidade para restaurar a indústria nacional e, por sua vez, empregar todo tipo de mão de obra?
A questão fundamental agora, entrando num mundo pós-pandêmico que, num curtíssimo espaço de tempo, transformou em demasia o mundo, criando um cenário nebuloso para o futuro do trabalho, é descobrir alguma janela de oportunidade que recoloque o Brasil num caminho de desenvolvimento, empregabilidade e aumento de renda ou afunde de vez este barco à deriva.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta