Com a pandemia, a sociedade recebeu bem o home office. Se antigamente estávamos presos ao costume secular de passar o dia fora de casa, estudando ou trabalhando, agora, vendo-nos forçados a permanecer em casa, as plataformas virtuais se intensificaram e se iniciou uma revolução no mundo do trabalho, na urbanização e em toda a sociedade. Mas isso já é assunto batido e todos têm falado desde, pelo menos, abril do ano passado.
Nesta própria coluna já fizemos um ensaio a respeito em 16/06/2020 ("As implicações do home office no trabalho da Justiça"), notadamente sobre as mudanças ocorridas na vida judiciária, da liturgia processual virtualizada que, de plano, tirou os operadores do direito da zona de conforto, forçando-os (juízes, advogados e servidores) a repensar as audiências, as provas testemunhais e seus próprios papéis no processo.
A pandemia mostrou ostensivas as falhas na cadeia de produção globalizada, como se vê na carência (e dependência da China) de produtos de primeira necessidade numa pandemia. Em termos de logística e produção, fala-se em “desglobalização”. No entanto, em termos tecnológicos, com a ambientação do trabalho em plataformas “on-line”, com todos os dados na nuvem, fala-se em “e-globalização” (John Thornhill - Valor, 05/06/2021).
A virtualização do trabalho e do conhecimento se tornou febre. Ao fim de cada dia de trabalho, ao invés de chegarmos em casa, sentarmo-nos no sofá e ligarmos a TV para assistir ao telejornal ou à série favorita (ou novela, para alguns, né, Adalberto?), conectamos nossos celulares à rede social para assistir a “lives”. Pipocaram palestras e bate-papos sobre os mais diversificados temas e, pelo menos no Direito, houve uma profusão de debates intensos e importantes, calcados na angústia da clausura cominada com a necessidade de dialogar com os colegas, e tudo isso, para o bem coletivo, com o foco no compartilhamento do conhecimento. E, após uma boa peneira (afinal, as porcarias e charlatões também se multiplicaram), a sociedade ganhou demais.
Passados alguns meses e já adaptados às novas tecnologias (que também foram aprimoradas a toque de caixa), a empolgação ao novo se esgotou, a necessidade de encontros e negociações tête-à-tête aumentou e a audiência das “lives” despencou. Embora existam inúmeras vantagens no teletrabalho – como redução de custos, maior tempo com a família (será?), menos uso de transportes poluentes, possibilidade de estabelecer residência em qualquer lugar do planeta, independentemente do local do trabalho –, pessoas começaram a adoecer (Época Negócios, 03/01/2021) e há controvérsias quanto ao aumento da produtividade no longo prazo (como disse Michael Corbat, CEO do Citigroup - Bloomberg, 04/12/2020).
Um bom exemplo da necessidade do contato direto, mas nem tanto, é a nova rede social baseada em voz: a Clubhouse, que, com a fala, pretende aproximar mais as pessoas que a frieza dos chats textuais, numa versão moderna do rádio amador. Se as redes deram “voz” à população no sentido figurado, agora isso ocorre literalmente. Ou ocorrerá, pois, por enquanto, o novo app se destina apenas a um seleto grupo de convidados, que, além do convite, devem possuir um iPhone (aguardo ser convidado por Elon Musk ou Oprah Winfrey).
Voltando ao trabalho, embora sendo entusiasta das audiências virtuais, após a realização de algumas presenciais recentes no fórum trabalhista, pôde-se perceber que, mesmo num formato de sala física adaptado aos protocolos de segurança (o que emperra um pouco sua dinâmica), o contato direto entre partes, advogados e juiz, olho no olho, é muito melhor, permite uma resposta mais efetiva, como também cria um ambiente mais propício à solução do conflito, sendo menos estressante que o encontro no Zoom ou no Teams (e olha que estamos falando das aguerridas audiências trabalhistas).
Chegamos, pois, a um momento de estabilização, que exige notável maturidade. Passados o frenesi inicial e o esgotamento de final de ano, já com olhos num futuro pós-imunização, empresas e trabalhadores podem apurar o saldo de todas essas novidades. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, alterações drásticas ocorreram e o modelo antigo não volta atrás, mas tampouco a completa virtualização de nossas vidas. Com o fim da clausura imposta pelo coronavírus, não deve haver uma escolha extrema, como aquela de Neo diante de Morpheus ("Matrix", 1999), entre a pílula azul (da ignorância abençoada) e a pílula vermelha (da verdade dolorosa). Ainda que com todo um arcabouço tecnológico à disposição, as pessoas devem aprender a viver equilibradamente entre os mundos real e virtual.